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Correio Braziliense CARREIRA

Por uma ciência mais igualitária

Mulheres precisam de um esforço a mais para progredir na profissão científica, área de atuação marcada por estereótipos


postado em 04/11/2019 16:55 / atualizado em 04/11/2019 16:50

(foto: Para Mulheres na Ciencia/Divulgação)
(foto: Para Mulheres na Ciencia/Divulgação)

Quando se fala em mulheres cientistas, pode ser difícil listar 10 nomes sem consultar algum site de busca na internet. Os números sustentam o hiato entre mulheres e homens no campo da pesquisa. Segundo o Instituto de Estatísticas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), somente três em cada 10 pesquisadores no mundo são mulheres. Isso em nada está relacionado à capacidade intelectual ou à falta de espírito científico.

Apesar de, no Brasil, 72% dos artigos científicos publicados serem de autoras ou coautoras mulheres — o que revela uma produção significativa —, a assimetria aparece com força no topo da pirâmide, na elite da pesquisa científica. Na liderança de grupos de pesquisa e nas bolsas PQ (produtividade em pesquisa), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), os homens são maioria com folga.

Marlova Noleto, diretora e representante da Unesco no Brasil, explica que o preconceito também predomina em territórios que ecoam historicamente como masculinos, a exemplo das engenharias e da física. Nesses casos, prevalece o arquétipo de que “mulheres não gostam e não são boas em exatas”. A exclusão acaba sendo uma perda para garotas e outras mulheres, que ficam sem exemplos femininos no ramo.

No entanto, para Denise Oliveira e Silva, vice-diretora da Fiocruz Brasília, as mulheres vêm rompendo barreiras como essas com lutas coletivas. “Veja Marie Curie, que conduziu pesquisas no ramo da radioatividade no século passado. É prova de que essa discussão não é de hoje. Está associada à evolução social do mundo. E já sentimos os efeitos do crescimento do papel da mulher na sociedade, que é uma bandeira feminista”, diz a pesquisadora.

“O mundo precisa de ciência, e a ciência precisa de mulheres.” Foi com essa premissa que aconteceu o Para Mulheres na Ciência, evento desenvolvido pela L’Oréal em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências, e que premiou mulheres de todo o Brasil por sua contribuição à ciência. Uma das vencedoras foi a matemática Jaqueline Mesquita, 34 anos. Nascida em Roraima e criada em Brasília, ela apresentou um trabalho sobre problemas com equações diferenciais e dinâmicas.

Durante a 14ª edição do prêmio, a presidente da L’Oréal, An Verhulst-Santos, também defensora da presença feminina em cargos de poder, defendeu o equilíbrio de gêneros no trabalho. “Mulheres também devem estar em posições de liderança. No meu caso, é uma honra ocupar um cargo em que os antecedentes foram homens.”


Dupla jornada


Outro fator revelante é que muitas pesquisadoras precisam lidar com os impactos que a maternidade tem na trajetória profissional. Assim como em outras áreas do mercado de trabalho, por vezes, isso serve de motivo para que elas desistam da carreira. Denise aponta que a mulher acumula funções porque não é poupada de tarefas consideradas “naturalmente” femininas e precisa dar conta de tudo.

“Se a mulher engravida, em que momento ela mantém o ritmo? Não tem jeito. E ela acaba sendo penalizada por isso. É claro que uma gravidez traz mudança, mas não é essa alteração no ritmo que determinará a qualidade do produto científico que a mulher produzirá. Tampouco é parâmetro para colocá-la em um nível abaixo do homem”, observa. Denise também chama a atenção para a necessidade de considerar essa mudança de ritmo e apoiar a mulher para que a maternidade não se torne razão para que ela se sinta aquém quando a pressão para produzir trabalhos científicos é grande.

Para Denise, uma forma de superar a disparidade é despertar mais o interesse sobre o tema nas meninas, ainda na educação básica. Essa deve ser uma opção de futuro para as garotas (e garotos, claro), de forma a ultrapassar a ideia de que ser cientista é algo difícil, muito distante.

Ainda segundo ela, esse e outros investimentos são importantes para o país prosperar. “As nações que têm sucesso econômico são aquelas que investem em tecnologias e em pesquisas.”

Três perguntas para a matemática Jaqueline Mesquita

Como surgiu o interesse pela matemática?
Nasci em Boa vista, Roraima. Mas me mudei para Brasília com 5 anos. No ensino médio, gostava muito de exatas, vivia em dúvida entre escolher matemática ou física no vestibular. Mas meus pais queriam mesmo que eu fizesse medicina, queriam ter uma filha médica e tentavam me convencer. Conversei com uma tia, que era matemática, para me ajudar. Daí, fiquei mais segura do que queria. Na faculdade, demorei a entender que poderia seguir carreira na pesquisa científica e como professora universitária, se quisesse. Optei pela licenciatura. Daí, uma professora da UnB me aconselhou a fazer um mestrado, disse que eu tinha potencial. Fiz um curso de verão, mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo, em São Carlos. Também fiz um período do doutorado na Academia de Ciências da República Tcheca, estudei no Chile e agora faço meu pós-doutorado na Alemanha. E faz três anos que estou na UnB como orientadora. Como não estou mais no Brasil, mantenho contato com meus alunos por chamada de vídeo.

Seu trabalho premiado foi sobre equações diferenciais funcionais com retardamento. Do que se trata e como foi o processo de pesquisa? 
Essas equações são capazes de modelar fenômenos que não acontecem instantaneamente. Por exemplo, quando uma pessoa é infectada pelo vírus zika, sabemos que os sintomas não aparecem instantaneamente. Decorre um certo tempo entre a pessoa ser infectada e aparecerem os sintomas. Esse é um exemplo de situação que pode ser modelada com essa equação, porque existe o que chamamos de período de retardo. O mesmo ocorre com a ingestão de remédios. O efeito demora a aparecer.

Afinal, como é ser mulher na ciência?
Esse é um ponto delicado, especialmente na matemática, em que precisamos lidar com a sensação de não pertencimento. Ascendendo na carreira, parece que as mulheres desaparecem. Você vê que as titulares são pouquíssimas mulheres. Foi difícil para mim. Uma das maiores questões é a falta de representatividade, já que sempre tive professores homens. Na minha turma da graduação, éramos 36 alunos, mas apenas sete mulheres. E, como orientadora, só agora que estou orientando minha primeira aluna de doutorado. Antes, só tinha instruído homens.
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 
 

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