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Correio Braziliense ESPECIAL

Joias de Brasília: design autoral e peças personalizadas fazem sucesso

Com um trabalho autoral e artesanal feito em prata, ouro e pedras preciosas, designers locais provam que a cidade é uma ótima fonte de inspiração


postado em 04/11/2019 12:58 / atualizado em 04/11/2019 13:58

Alianças de Ana Paula, com o traçado de Brasília (foto: Divulgação/Bottecchia )
Alianças de Ana Paula, com o traçado de Brasília (foto: Divulgação/Bottecchia )
Tradicionalmente, as joias eternizam momentos e marcam datas especiais, como pedidos de casamento, comemorações de nascimento e formaturas. Muitas vezes passadas de geração em geração, carregam um valor que vai além do material. E Brasília, uma jovem senhora prestes a completar 60 anos, já tem idade suficiente para ter sua própria identidade na joalheria, criando novas tradições que serão lembradas pelos que se encantam por seus traços talhados em ouro, prata e pedras preciosas.

Solitário Catedral (foto: Divulgação/Bottecchia )
Solitário Catedral (foto: Divulgação/Bottecchia )
Queridinha entre as jovens — e futuras — noivas de Brasília, a Bottecchia é uma dessas joias candangas. Criada há cinco anos pela brasiliense Ana Paula Bottecchia, 28 anos, a marca contempla em seu portfólio peças inspiradas na arquitetura da capital. O Solitário Catedral, por exemplo, combina os traços modernistas da igreja com o romantismo e a elegância dos diamantes. As alianças da própria designer e do marido, juntas, têm o desenho do traçado da cidade.

E foi na capital que tudo começou. Ana Paula, formada em jornalismo, trabalhava como assessora de imprensa e estava em busca de um hobby. Quando criança, fazia bijuterias com a avó e resolveu dar continuidade ao antigo hábito. “Aos 10 anos, eu fazia bijus e os adultos compravam para me incentivar. Aos 22, resolvi retomar isso, mas dando um passo além”, lembra. 

Mesmo sem uma relação tão próxima com as joias — a primeira e única que ela tinha era um solitário, presente da mãe quando se graduou no ensino fundamental —, Ana sabia que as peças tinham um apelo pelo caráter eterno e pelo significado que carregam. “Eu ganhei o anel aos 14 anos e ele nunca saiu do meu dedo, sempre foi algo especial para mim”, exemplifica.

Na ausência de um curso de design de joias em Brasília na época, Ana investiu na ourivesaria, na qual trabalhava manualmente com ouro e prata. No início, criava a partir da prata, até mesmo pelo custo mais baixo do material, mas, então, recebeu a primeira encomenda.

Investigação particular

Uma tia queria presentear outra sobrinha por seus 15 anos, e foi ali que Ana começou uma tradição que segue até hoje. “Queria saber do que ela gostava para criar a peça, e comecei a stalkear as redes sociais, pesquisando a vida dela”, conta, aos risos. O colar ficou pronto e, naquele momento, com sua primeira joia em ouro, Ana resolveu se profissionalizar. Criou a logomarca, o nome, a caixinha e providenciou o certificado. “Gastei mais com isso tudo do que ganhei com a encomenda”, lembra. 

O que começou como uma investigação nas redes sociais se tornou uma das marcas registradas da jovem. Além de andar com uma aneleira — objeto usado para medir o aro do anel — na bolsa, a joalheira faz enquetes sobre modelos, aros, tipo de ouro e de pedra e uma série de outras preferências das possíveis clientes. Com as respostas em mãos, Ana cria arquivos com as respostas de cada uma delas.

“Quando um noivo, marido ou namorado me procura sem saber o que comprar, eu já entro no arquivo para saber se tenho as respostas. Quando não sabemos ainda, crio outras enquetes para que aquela pessoa possa responder e escolher sua peça sem saber.”

Aos poucos, por meio da divulgação nas redes sociais, Ana começou a fazer sucesso em Brasília. Cada vez mais, se surpreendia com o cuidado e a preocupação que os noivos tinham. Como jornalista, sentiu a necessidade de dividir aquelas histórias de amor e, assim, seu Instagram começou a fazer mais sucesso. “O storytelling é um tipo de marketing e, quando estudei depois, vi que comecei a fazer isso de uma forma muito natural, não para vender mais, mas para dividir aqueles sentimentos. E teve um resultado incrível.”

Longe, mas perto

A jovem acabou largando o jornalismo e se mudando para a Alemanha. Lá, faz cursos de especialização pelas cidades e países mais próximos. Vivendo no exterior, sentiu falta do contato com os clientes brasileiros e, assim, nasceu outra tradição da Bottecchia: escrever uma cartinha, que é entregue com a joia.
Ana Paula com algumas de suas joias (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Ana Paula com algumas de suas joias (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

Com o crescimento da marca e a necessidade de estar sempre criando, Ana não tem mais tempo de colocar a mão na massa. Conta com parceiros, que fazem a produção das joias em Brasília, São Paulo e na Alemanha, mas está sempre de olho em cada etapa e faz o controle de qualidade das peças. “Morro de saudades da ourivesaria, sempre foi uma terapia. Mas tenho me concentrado mais no design e nesse contato com os clientes.”

Por meio de enquetes, stories e áudios no WhatsApp, Ana está sempre em contato com as noivinhas e girl power Bottecchia — como ela chama carinhosamente as clientes. As primeiras são as que têm os solitários de noivado ou alianças, já as segundas surgiram como uma forma de incentivar as mulheres a se presentearem com joias, independentemente da ocasião.

E a iniciativa fez sucesso e alavancou as coleções mais completas da Bottecchia, que, além de solitários, têm brincos, pulseiras, colares e anéis. Na mais recente, a Unforgettable, as clientes podem personalizar as peças e levar para qualquer lugar parte das suas histórias.

Anitta como inspiração
 
A coleção inédita de Ana Paula Bottecchia teve uma inspiração especial. Ao criar uma joia personalizada para a cantora Anitta, a designer teve a ideia de fazer um colar no qual usa pingentes para marcar a trajetória da artista. E a partir dessa peça, nasceu a nova coleção. Anitta virou girl power Bottecchia, assim como outras artistas. Entre elas figuram a atriz Camila Queiroz, a cantora Simone e a atriz Nanda Costa, que pediu a namorada em casamento com alianças criadas por Ana Paula.
 

A capital como inspiração

Estudante de arquitetura e apaixonada por acessórios, Sarah de Magalhães Sousa, 31 anos, estava à procura de uma nova atividade profissional. Mãe de dois filhos, ela buscava algo que pudesse exercer de casa, enquanto continuava os estudos. Há dois anos, criou a Urbanoise para vender acessórios em couro, mas logo depois migrou para as joias.
Sarah, criadora da Urbanoise (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Sarah, criadora da Urbanoise (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Inicialmente, Sarah comprava e revendia, mas sentia faltava de alguns modelos diferentes e personalizados. “Não encontrava o que queria no mercado, até mesmo para eu usar. Foi quando resolvi fazer do meu jeito e dar a minha cara às peças”, conta. Sarah, porém, nunca imaginou que o mercado de joias se tornaria sua vocação. Para ela, o fato de sempre ter sido fã do trabalho manual — ela arrumava e customizava as próprias roupas e acessórios — aliado ao processo criativo da arquitetura a levaram naturalmente para a nova área.

Sarah decidiu, então, fazer o curso de design de joias, e a marca ganhou outra identidade. Inspirada na arquitetura e nas formas de Brasília, a designer começou a criar peças modernas e minimalistas. O Brinco Movimento, por exemplo, imita a sensação de movimento dos três arcos da Ponte JK.
 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Fã da capital, a designer acredita que a cidade é um grande berço para o trabalho autoral e artesanal. “As pessoas gostam de consumir o que é feito na cidade e por pessoas daqui, apreciam coisas que carregam a identidade brasiliense.”

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Sarah não abre mão de continuar a fazer parte de todo o processo — do desenho à produção.  E tem dificuldade de escolher uma etapa preferida. “Faço tudo, é tudo meu. Eu amo desenhar, mas gosto de derreter e fundir o metal, lixar, limar. Fazer algo e ver criar forma do início ao fim é muito bom.”

Com estilo que ela define como modernista, minimalista e simplista, a peça preferida é o Anel Disco. “Ele é um círculo gigantesco, é simples, mas, ao mesmo tempo, chama muito a atenção. Foi uma das minhas primeiras peças, chamo de anel do poder.”

O movimento das nuvens

Os caminhos entre a joalheria e o jornalismo parecem se entrelaçar. Assim como Ana Paula Bottecchia, a designer de joias Débora Cronemberger, 48, é jornalista de formação, mas hoje conta histórias por meio de suas criações e da Debcronem Joias.
 
Débora Cronemberger (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Débora Cronemberger (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

Fã de acessórios, Débora tinha dificuldade de encontrar peças de que gostasse. Em busca de bijuterias “diferentes e charmosas”, passou a considerar a possibilidade de fazer os próprios brincos, anéis, colares e pulseiras. Sem encontrar cursos ou workshops específicos para bijus, apenas para joias, deixou a ideia por ali, esperando uma oportunidade. “Apesar de achar lindo, não era apegada a joias. Tinha um conceito de que eram coisas do valor de um carro e muito glamourosas, para festas de noite. Achava que não era meu estilo.”

As coisas começaram a mudar quando Débora se deparou com o trabalho de uma designer de Santa Catarina e se apaixonou pelo estilo das joias. Identificando-se com a estética clean e delicada, ela percebeu que se sentiria bem fazendo e usando aquele tipo de peça. Foi o empurrãozinho que faltava.

Com o conceito de joia ressignificado — além de bonita, deve ter um bom custo-benefício e carregar um significado especial —, Débora aproveitou as férias e investiu em um curso de joalheria em São Paulo. “Não esperava fazer uma carreira a partir dali, mas eu me apaixonei pela dinâmica e os processos do ateliê. Quando terminei o curso, voltei para casa sabendo que queria fazer aquilo para o resto da vida.”

A princípio, Débora continuou a trabalhar com jornalismo, como assessora, mas começou a fazer encomendas para amigos, e a procura foi aumentando. Com um público cada vez maior, há dois anos, a designer largou o emprego e investiu na capacitação no mundo das joias e do design. Assim nasceu a Debcronem.

Uma nova narrativa

A vocação para dividir narrativas não ficou esquecida, apenas mudou de forma. “Sempre gostei de contar histórias e faço isso por meio das joias. Minha marca virou o meu livro e a minha própria história.” Além de traduzir as palavras em metais preciosos e design cuidadoso, Débora recebe encomendas personalizadas, nas quais faz a releitura também de histórias alheias. Ela ressalta a relação afetuosa que acaba surgindo nas conversas e no processo criativo com os clientes.

Atualmente, Débora faz algumas peças do início ao fim — do desenho à produção —, mas tem passado mais tempo concentrada no processo criativo e levado o conceito, o modelo e o design para ourives de confiança executarem a peça, sempre artesanalmente.

Existem, porém, as joias de que não abre mão de fazer, como os anéis de nuvem, com os quais tem um forte vínculo emocional. O modelo não foi o primeiro, mas é o xodó da designer. Ela sempre gostou de observar o céu, as formas e a beleza, mas o modo como enxerga as nuvens é realmente especial.
 
Na mão esquerda, os aneis nuvem da Debcronem (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Na mão esquerda, os aneis nuvem da Debcronem (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

“As nuvens estão sempre em movimento, se transformando, sem perder a beleza. Elas são criativas, sempre em aprendizado e interação. Eu me vejo como uma nuvem”, justifica. Apesar de não ser brasiliense de nascença, Débora foi criada na capital e se formou na Universidade de Brasília. O céu de Brasília — e suas nuvens, claro — são uma das grandes referências afetivas para ela. 
 

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