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Correio Braziliense

Feminismo: uma luta, várias frentes de batalha

Ser mulher em uma sociedade machista já não é fácil. Imagina quando se é negra e da periferia? Conheça um pouco do feminismo negro e como ativistas de Brasília o aplicam no dia a dia


postado em 11/11/2019 10:29

 
Jaqueline Fernandes demorou a se reconhecer negra, mas, depois disso, passou a trabalhar no empoderamento racial, especialmente de mulheres(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Jaqueline Fernandes demorou a se reconhecer negra, mas, depois disso, passou a trabalhar no empoderamento racial, especialmente de mulheres (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
 
Se, como disse Elza Soares, “a carne negra é a mais barata do mercado” e ser mulher numa sociedade patriarcal é um desafio, estudos mostram que, na escala da opressão, as mulheres negras somam as duas posições. E precisam batalhar o dobro, o triplo, o quádruplo para provarem o próprio valor.

Segundo dados do Ministério da Saúde compilados pelo Atlas da Violência, lançado em junho pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 4.936 assassinatos de mulheres em 2017, sendo a maior parte das vítimas negra: 66%. A pesquisa também mostra que, em 10 anos, a taxa de homicídios de mulheres não negras diminuiu 8%, enquanto a de mulheres negras aumentou 15%.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, o Brasil tem a maior população de trabalhadores domésticos, a maioria mulheres, afrodescendentes e de baixa escolaridade. Para ativistas e estudiosos, como Jaqueline Fernandes de Souza Silva, 39 anos, especialista em gestão de políticas públicas em gênero e raça, estilista, produtora e gestora cultural, essa é “uma das profissões que mais carregam os resquícios da escravidão brasileira”.

Era essa também a ocupação da mãe de Jaqueline pela maior parte da vida. Ela criou os filhos sozinha e, morando em um bairro periférico e com altos índices de criminalidade, acordava de madrugada e pegava ônibus lotados para trabalhar, sem direitos trabalhistas. “Saía com medo do que pudesse acontecer com a gente, enquanto, às vezes, cuidava dos filhos de outras pessoas.” Sem oportunidade de estudar, lutou com tudo para mudar o rumo e o futuro dos seus. “E essa é a história de muitas famílias negras que conhecemos”, orgulha-se Jaqueline. E de mulheres.

Especificidades


O feminismo negro surge à parte do feminismo hegemônico, historicamente incapaz de reconhecer as especificidades, os saberes, as trajetórias e as lutas das mulheres negras. “Somos a maior parcela da população e, enquanto ser mulher negra no Brasil for fator determinante de desigualdades, enquanto nossas vozes não se fizerem ouvir dentro dos movimentos sociais hegemônicos, é importante, como disse a filósofa Sueli Carneiro, ‘enegrecer o feminismo’. Ainda que muitas de nós tenhamos dificuldade em apenas se autodenominarem feministas ou feministas negras”, afirma Jaqueline.

E ela viu de perto inúmeros exemplos dessas especificidades: outras mulheres da família, vizinhas, amigas. O entendimento sobre as opressões de gênero e raça, no entanto, veio depois. “O meu olhar crítico para o sistema foi despertado aos 13 anos, quando eu li o primeiro fanzine (publicação independente, geralmente produzida artesanalmente, fotocopiada e distribuída de forma gratuita por ativistas). Ele questionava a concentração de riquezas, e eu lembro que olhei para a minha realidade, para onde eu morava, para a história da minha família, e muitas fichas caíram”, recorda-se.

Primeiro, aproximou-se do movimento anarco-punk. Foi quando se tornou ativista. Mas, apenas quando se aproximou da cultura do hip-hop, se reconheceu negra e compreendeu como “raça e gênero estruturam e determinam desigualdades”.

“Só aí acessei os movimentos negros e de mulheres negras e entendi o significado de empoderamento. Eles me mostraram meus verdadeiros heróis e heroínas — pessoas comuns, lutando contra o racismo e todas as formas de discriminação. Nós, negras e negros, temos a nossa história e memória negados em um nível tão alto que, veja: em uma favela de Planaltina, nos anos 1990, com 13 anos, foi mais fácil saber sobre a existência de Bakunin, um filósofo, revolucionário anarquista, russo, do que de Zumbi dos Palmares, um herói brasileiro, ícone da resistência negra, libertador, líder do maior quilombo brasileiro”, critica.


Festival Latinidades


A luta de Jaqueline deu resultados práticos: a criação da primeira produtora cultural formalizada, fundada por mulheres negras e periféricas no DF, a Griô Produções; a atuação no Fórum de Mulheres Negras do DF; a atuação no Coletivo Pretas Candangas; a experiência de quatro anos como subsecretária de Cidadania e Diversidade Cultural da Secretaria de Cultura do DF; e a criação do Festival Latinidades, já existente há 12 anos.

“Quando surgiu a ideia do festival, tínhamos — e ainda temos — uma produção cultural afro-brasiliense riquíssima e pouco espaço para a circulação, a promoção e a divulgação dela. Não havia nenhum projeto de médio ou grande porte voltado para a cultura negra protagonizado por pessoas negras”, relembra.

O Latinidades celebra o Dia Internacional da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha, em 25 de julho, e dá visibilidade à população negra da capital. Em 2014, esteve presente a renomada filósofa e escritora norte-americana Angela Davis, um grande marco para o evento, mas não tanto para Jaqueline, que, envolvida com a logística do festival, não conseguiu assistir a nenhuma de suas conferências.

Mas, este ano, surgiu a oportunidade novamente. “Foi uma mistura de sentimentos e emoções e, sobretudo, um aprendizado incrível ouvi-la falar. No palco, ao lado de Conceição Evaristo, elas relembraram que se conheceram no Latinidades. Eu fiquei ali sem piscar, de ouvidos atentos a cada palavra, a cada respiração. Ao final, tive o prazer de falar com ela por alguns minutos”, emociona-se.

Entre olhares desconfiados, a vitória


Tia Angelina foi uma das pioneiras no Varjão e uma das primeiras lideranças comunitárias dali. Ela morreu em 1996, mas o ideal de construir uma creche comunitária para os moradores da região sobreviveu na filha, também conhecida como tia: a tia Nair. Com a morte da matriarca, Nair Queiroz Pessoa, pedagoga, já com uma filha e grávida de outra, largou um emprego público, conquistado por meio de concurso, para correr atrás de realizar o sonho de tia Angelina.

Desde 1990, a mãe cuidava de crianças na própria casa, um barraco. Antes, até havia formalizado uma creche comunitária, mas questões políticas fizeram com que ela levasse o espaço para a informalidade. Talvez sem ter muita consciência disso, tia Angelina era uma feminista que empoderava muitas mulheres por ali. Debaixo de um pé de manga, ela cuidava dos pequenos para que as mães, assim, pudessem trabalhar. “Nós chegávamos da escola e precisávamos esperar a segunda leva de almoço, porque a primeira já tinha ido para os meninos de quem ela cuidava”, relembra Nair.

Na chácara da mãe, Nair foi construindo outros barracos para abrigar mais crianças, com recursos levantados por meio de bazares, almoços beneficentes e muita ajuda de voluntários. Ao mesmo tempo, também tratava de questões burocráticas (criar ata, estatuto, ir atrás de parcerias) e enfrentava olhares racistas. “Hoje, eu não me incomodo, me sinto maravilhosa, não fico constrangida, mas as pessoas olham diferente, e eu me sentia sozinha. Era uma das poucas mulheres, e a única negra”, conta.

Projeto expandido

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

 

Foi criado o Centro Comunitário Tia Angelina, que, desde 2004, conta com uma sede reformada, graças a uma doação da Embaixada do Japão. Hoje, atende 2,5 mil crianças e não mais se restringe ao Varjão: se espalhou por Paranoá, Brazlândia e Ceilândia.

Todo esse esforço transformou tia Nair na primeira administradora do Varjão que veio da própria comunidade. Nas últimas eleições, ela se candidatou pela primeira vez à Câmara Legislativa do Distrito Federal, pelo partido Avante, e, mesmo sem muitos recurso para a campanha, conseguiu mais de 5 mil votos. Ela ainda quer ser a primeira mulher negra na Casa.

Para estudar e chegar aonde chegou, precisou se dividir entre trabalhar em casas de família como doméstica. Segundo ela, 70% das casas do Varjão têm chefes de família mulheres, que sustentam a casa sozinha, e a maioria delas é negra. “Elas precisam saber que podem estudar, podem trabalhar. Para isso, precisam de um lugar seguro para deixar os filhos”, afirma.

"Hoje, eu não me incomodo, me sinto maravilhosa, não fico constrangida, mas as pessoas olham diferente, e eu me sentia sozinha. Era uma das poucas mulheres, e a única negra"
Nair Queiroz Pessoa, pedagoga

Um pouco de história 


O feminismo no Brasil começou a se desenvolver em meados do século 19, quando mulheres lutavam pelo direito de  participar da vida pública, com acesso ao mercado de trabalho, ao voto e a ser cidadã, pois a própria Constituição não as reconhecia como tal.

Mas onde estavam as mulheres negras nesse cenário? Kelly Tatiane Martins Quirino, especialista em gênero e relações raciais pela UnB, explica que o surgimento de um movimento complementar às causas feministas foi necessário, pois as lutas e as especificidades dessas mulheres as levavam a objetivos diferentes. “Enquanto o feminismo tradicional buscava o direito ao trabalho, a mulher negra buscava poder se colocar em espaços de poder no mercado de trabalho, já que o trabalho sempre foi uma realidade dela, que, desde a época escravista, ocupava cozinhas, lavava roupas ou era babá”, aponta.

Além do machismo, a mulher negra precisava lutar contra as desigualdades raciais. E esse conjunto de especificidades de gênero, raça e classe social, que aumenta as formas de opressão e o grau de vulnerabilidade, não são questões que conseguem ser abordadas pelo feminismo tradicional.

“Um exemplo é a luta pelo direito ao próprio corpo. Enquanto a segunda onda do feminismo —  a partir dos anos 1960 —, brigava pelo direito ao controle de natalidade por meio da pílula anticoncepcional, mostrando o corpo em público, a mulher negra lutava pelo respeito ao seu corpo, que sempre foi violado e sexualizado. Ou seja, mostrá-lo não englobava essa luta”, aponta Kelly.

O feminismo negro, ou movimento de mulheres negras, começa a se configurar como pauta organizada no final da década de 1980, quando ocorrem diversas mobilizações, como o Encontro Nacional das Mulheres Negras e o Centenário da Abolição. Com a chegada do século 21, o advento das redes sociais e o acesso das negras à universidade, o feminismo negro atinge novos contornos e traz a luta pelo protagonismo como uma vertente ainda maior.

Cultura como ferramenta política


Com duas mães, a história de Marcela Coelho, 35 anos, produtora cultural, é parecida com a de muitas mulheres negras. A mãe biológica tinha pouco estudo e era doméstica. A patroa dela, então, obteve a tutela da criança. Mas ela manteve o vínculo com ambas as famílias. “Eu cresci em dois mundos totalmente diferentes.” Na faculdade, era a única negra.

Para ela, o universo da mulher negra é o de estar na rua trabalhando, sem uma base familiar estável. Mulheres que saem de manhã e chegam ao final do dia, numa situação de vulnerabilidade social. “E os jovens e os filhos dessas pessoas ficam na rua, justamente nos lugares com mais criminalidade”, critica.

O jovens negros são a parcela mais vulnerável em relação à violência, como demonstrou o relatório Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial de 2017. Portanto, o cuidado para que esses jovens não se tornem uma estatística é “uma luta constante”, como define Marcela, também coordenadora do Ponto de Cultura PALCO.

O espaço foi fundado em 2015, no Varjão, em memória do artista e diretor brasiliense Robson Gaia, e usa a arte e a cultura como ferramenta política de transformação social. “Uma grande parcela da população jovem do Varjão é negra. São filhos e filhas de mulheres que passam o dia fora, trabalhando, e só retornam para casa no fim do dia. E onde eles ficam? O projeto busca justamente aproximar essa juventude de causas e apresentar caminhos para que eles não acabem à mercê da violência e da criminalidade.”

O PALCO conta com biblioteca comunitária, pista de skate e oferece diversas oportunidades, como aulas de capoeira, saraus e também rodas de conversa. “Por meio das atividades, nós também buscamos mapear esses jovens, sondar quais frequentam a escola, e, se não frequentam, buscamos inseri-los em alguma monitoria, plantando, por meio das atividades, a ideia de que eles podem ser professores, advogados e — por que não? — artista. É um trabalho de formiguinha.”

O local é mantido com doações, dinheiro arrecadado por meio de eventos e também por meio da parceria com o Instituto de Estudos Socioeconômico (Inesc). “Além das atividades tradicionais, o jovem tem acesso a rodas de conversa, em que ele aprende sobre o direito à cidade, à educação, formando pessoas consciente e acima de tudo cidadãs.”

Militância racial


Mas a luta da produtora com a causa vai além do Ponto de Cultura PALCO. Marcela produz também diversos eventos de música, como o Hip-hop versus Ragga e o Batidão Sonoro, nos quais, inclusive, conheceu o marido, Roberto Peçanha, conhecido como DJ Bola. “Nunca fui atrelada a um movimento específico, sempre me atrelei à cena, contribuindo para festivais que traduziam a minha identidade. Talvez, até mesmo por isso, demorei a me reconhecer como uma ativista social. Minha linguagem é crua.”

Marcela conta que, quando trabalhou no Festival Latinidades, ela se entendeu pela primeira vez como um militante racial. A partir dessa tomada de consciência, a vontade de fazer a diferença na comunidade onde estava inserida ganhou ainda mais sentido.

Para ela, mostrar oportunidade aos jovens é uma forma de valorizar também as oportunidades que teve ao longo da vida. “Nasci em Brasília, mas a minha família vem de Cabeceira do Vão, no município de Cavalcante (GO). Fui adotada pelos patrões da minha mãe e, por isso, tive a oportunidade de acessar privilégio, tive acesso à educação. Sou pós-graduada em turismo e enxergo a diferença que a educação teve na minha vida. E se hoje temos aumentado os índices de acesso à universidade, é porque houve luta e projetos que buscaram inserir essa população nesse meio.”

Para Marcela, a conquista de espaço em universidades e cargos de lideranças, como o que ocupa na comunidade, mostram que a luta travada pelo feminismo negro é válida e contribui para que essa mulher saia do ciclo vicioso — nascimento, falta de oportunidade, subempregos, filhos sem perspectivas —, no qual esteve por muito tempo. “Eu tenho uma filha de 7 anos, e a educação dela é totalmente diferente das minhas gerações anteriores. Ela já nasce em um contexto social diferente, justamente pelos conquistas que eu tive. É uma mulher negra, que não é filha de uma doméstica, mas de uma pessoa que teve acesso ao ensino superior, e isso já é uma quebra de ciclo.”
 

* Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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