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Correio Braziliense ESPECIAL

Sem tabu: a sexualidade pode, e deve, ser aproveitada na maturidade

Especialistas mostram que a sexualidade deve ser encarada com naturalidade em todas as idades. Pessoas que já passaram dos 60 contam o que muda com a maturidade


postado em 17/11/2019 08:00 / atualizado em 16/11/2019 17:41

Ainda vista como um tabu pela sociedade, a sexualidade é mais cercada de preconceitos e julgamentos quando se chega à maturidade. Mas, assim como a socialização com a família e os amigos, o trabalho, os hobbies e as atividades cotidianas, o sexo deve ser vivenciado e encarado como algo natural, independentemente da idade. A gerontóloga Shirley Pontes ensina que, atualmente, já não se usa o termo terceira idade. “Pode ser até considerado ofensivo. As pessoas acima de 60 anos estão na maturidade e as acima de 80, na idade longeva.”

Shirley percebe uma mudança de mentalidade — mesmo que lenta. Antigamente, não se considerava a sexualidade na maturidade; hoje, o assunto é tema de pesquisas em universidades do mundo inteiro. “Está existindo uma libertação sexual e acredito que nas próximas gerações isso não vai mais ser um tabu. As pessoas estão vivendo mais e, naturalmente, querem prolongar a vida sexual.”
 


Parte desse julgamento é herança de décadas anteriores, quando não se conversava sobre sexo e não existia educação sexual. A especialista em sexualidade Kátia Arruda acrescenta que, ainda hoje, muita gente pensa que a pessoa depois dos 60 se torna assexuada. E ressalta o quanto é importante rechaçar esse pensamento, tanto entre os mais jovens, que julgam, quanto entre os que vivem essa etapa da vida e, muitas vezes, não se permitem continuar vivenciando a sexualidade em sua plenitude.

Kátia atende diversas pessoas que passaram dos 60 e querem manter a vida sexual ativa. Ela percebe que, nessa fase da vida, a prática sexual se torna mais afetuosa. “Há uma busca não só pelo prazer físico, mas pelo carinho, pelo companheirismo, pela ternura. O corpo pede pelo toque de outra pessoa.”
 

Informação e aceitação


Além da atenção com a saúde, Kátia recomenda que haja um cuidado psicológico e uma autoaceitação de algumas mudanças que a idade traz, como a alteração de aparência e a necessidade de certos artifícios, como lubrificantes ou medicamentos para ereção. “Eu devo ir para a prática sexual aceitando meu corpo e meu limite, mas me permitindo”, aconselha.

A especialista também avalia que o diálogo é um ponto fundamental. É preciso conversar com amigos, com parceiros e, quando for o caso, até mesmo com profissionais. Por meio da informação, os preconceitos vão se dissipando.

Já a gerontóloga Shirley Pontes observa que a vontade de se manter ativo sexualmente está relacionada à energia e à predisposição para sustentar uma vida social, o que também engloba envolvimentos amorosos, que podem culminar na relação sexual. E o mesmo vale para pessoas casadas há muitos anos, que querem prolongar a vivência sexual e manter esse aspecto do casamento.

Fonte de saúde
O termo sexualidade foi usado pela primeira vez em 1975, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e é determinada pela instituição como fonte de vida. Segundo o órgão, a sexualidade é saúde.

Vivendo em plenitude


Maquiada, de batom vermelho, com os cabelos loiros, elegante e cheia de atitude, a empresária Alice Maria Cunha de Oliveira, 65 anos, é livre e sem tabus com a sexualidade. Ela lamenta o preconceito e a ignorância que a sociedade ainda tem com o sexo, independentemente da idade. “As pessoas deturpam o sexo, banalizam. Deus nos criou para aproveitarmos com excelência, sublimidade. Fomos criados para viver esse prazer, e as pessoas se esquecem disso.”

Alice Maria da Cunha de Oliveira não deixa a idade limitar sua sexualidade(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Alice Maria da Cunha de Oliveira não deixa a idade limitar sua sexualidade (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Alice se casou aos 25 anos, virgem. Aos 45, passou a viver a própria sexualidade na plenitude. Ao organizar encontros de casais na igreja e dar palestras, começou a ler, estudar e pesquisar sobre o assunto. “Abri a minha mente, comecei a ser uma mulher mais livre, sem vergonha, e comecei a viver o outro lado. O sexo se tornou prazeroso, comecei a desfrutar e, hoje, vivo em alta performance.”

Aos 55, veio o divórcio, e a empresária precisou recomeçar a vida. Foram dois anos de luto, terapia e reaprendizagem para viver sozinha depois de 30 anos acompanhada. Após esse processo, Alice, por acaso, começou a conversar com um antigo amigo de Facebook. “Ele comentou uma foto, iniciamos um bate-papo. Foram seis meses sem nos encontrar, até que ele veio do Rio para me conhecer”, conta.

Depois de alguns encontros, chegou o momento de ter sua segunda primeira vez. Alice lembra que tremia de tanto nervosismo e que precisou de compreensão e diálogo para conseguir relaxar. “Depois desse primeiro momento de tensão, foi ótimo. Tudo maravilhoso.”

Mudança no corpo


O relacionamento durou seis anos. Hoje, ela não afirma categoricamente que está namorando, mas está em um processo, conhecendo uma nova pessoa. Ao comparar sua sexualidade atual com a que tinha durante a juventude, percebe uma grande diferença.

Fazendo reposição hormonal, tomando suplementação de vitaminas e nutrientes, praticando exercícios físicos e se submetendo a checapes médicos regulares, Alice afirma que sua vida sexual hoje é incomparável. “Tenho mais experiência, aprendi muito comigo mesma, com meus estudos e meus parceiros. Além disso, para ter vida sexual prazerosa, é preciso ter saúde, e a mulher precisa estar alegre para o sexo ser bom”, ensina.

Alice ressalta a importância de estar em dia com a saúde e defende a maior liberdade da mulher. A empresária é sempre a favor do diálogo, que, para ela, deve ser permanente e aberto para que o casal possa dizer o que gosta ou não e experimentar coisas novas.

Ela comenta ainda sobre as mulheres com quem conversava, nos encontros que promovia, — algumas delas só foram sentir prazer após 20, 25 anos de casamento. “São muitas as mulheres mais velhas que nunca souberam o que é um orgasmo. Um dos melhores e maiores prazeres da vida é sexo e, por diversas amarras sociais, muitas mulheres não dão conta de explorar isso em seu benefício”, lamenta.
 
 

O que muda após os 60?


A médica geriatra Priscilla Mussi, coordenadora de Geriatria do Hospital Santa Lúcia, explica que as principais mudanças que o organismo, tanto do homem quanto da mulher, passa na maturidade estão relacionadas à diminuição da carga hormonal. Biologicamente, somos feitas para ter uma idade fértil e, depois que ela termina, o corpo passa por adaptações, mas isso não precisa significar o fim da vida sexual.

Priscilla explica que algumas coisas são comuns da idade e dependem da saúde do paciente, como a falta de ar em algumas posições e dores musculares mais intensas. Os procedimentos estéticos também têm se mostrado aliados das pessoas que não se sentem tão bem com a própria aparência e querem melhorar a autoestima para estimular a vida sexual.

A médica ressalta a importância de fazer exames e visitar regularmente os profissionais de saúde, além de manter o diálogo aberto e não esconder sintomas ou doenças. Priscilla aproveita para afirma que quanto mais o casal mantém a vida conjugal romântica, fazendo viagens e cultivando gestos de amor e carinho, melhor tende a ser a vida sexual.

Na mulher

  • Com a diminuição hormonal, a líbido e a vontade de ser estimulada diminui.
  • O corpo fica mais flácido. A região genital também perde gordura e planicidade, o que pode causar desconforto no momento da penetração.
  • Ocorre o ressecamento vaginal, o que dificulta a relação e pode ferir a mucosa na penetração.
  • Os mamilos também ficam menos sensíveis e o corpo tem menos terminações nervosas, de forma geral.

Para melhorar o desempenho

  • Entre as soluções está a modulação hormonal, que não é indicada para todos e deve ser feita com acompanhamento e indicação médica.
  • O uso de estrogênio tópico em gel, que ajuda a manter a região genital tonificada e com mais volume.
  • Estimulação clitoriana do parceiro ou parceira, inclusive com o sexo oral, facilitando a lubrificação.
  • Uso de hidratantes vaginais.
  • Uso de medicamentos que aumentam a líbido, sempre com orientação médica, inclusive de homeopáticos e fitoterápicos.

No homem

  • A baixa de testosterona causa dificuldade em ter e manter a ereção.
  • O aumento na próstata, que geralmente ocorre com o passar da idade, pode causar ejaculação retrógrada, na qual o sêmen flui em direção à bexiga em vez de sair pela uretra.
  • A ausência de ejaculação, que causa dor e mal-estar, também pode ser um dos sintomas da próstata aumentada.
  • A flacidez e o aumento dos testículos podem causar desconfortos.

Para melhorar o desempenho

  • Uso de medicamentos para ter e manter a ereção, com orientação médica.
  • Uso de substâncias que ajudam a retardar a ejaculação.
  • Modulação hormonal, observados os mesmos cuidados que as mulheres.
  • Para os que por algum motivo de saúde ou cirurgia não conseguem mais ter ereções, existe a prótese peniana.

Seis décadas de experiência 


Em mais de 60 anos de vida sexual ativa, Francisco de Freitas vive intensamente a fase madura, hoje na companhia de Shirley Pontes(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Em mais de 60 anos de vida sexual ativa, Francisco de Freitas vive intensamente a fase madura, hoje na companhia de Shirley Pontes (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Francisco Humberto de Freitas Azevedo, 74, tem 61 anos de vida sexual ativa e não deixa a idade limitá-lo. Afirma que a experiência só aumentou, assim como um atleta que vai melhorando com a prática, e não pretende parar tão cedo.

Francisco teve diferentes parceiras e garante que aprendeu algo novo com cada uma delas. Para ele, a quantidade de parceiros e a forma de vivenciar o sexo são muito particulares e diferentes para cada pessoa. “Cada um tem seu tempo de aprendizado e sabe qual botina cabe no seu pé. Mas a verdade é que só existe uma coisa melhor que sexo: sexo outra vez”, diverte-se.

Do interior de Uberlândia, perdeu a virgindade aos 13 em um prostíbulo, como era comum naquela época. Aos 23 anos se casou, em uma união que durou 30 anos e lhe rendeu os filhos e netos. Depois da separação, Francisco teve uma paixão “que explodiu” e ele, que vivia em Brasília, se mudou para o Paraná para viver esse amor. “Se não for por paixões, não tem graça viver. A vida é feita de momentos e temos que aproveitá-los.”

Depois que esse romance esfriou, Francisco conheceu uma colega de São Paulo. Eles começaram a se envolver e menos de 15 dias depois o médico se mudou para perto da nova namorada. O relacionamento acabou e, dois anos depois, Francisco conheceu a atual companheira, com quem está até hoje, aproveitando a longevidade.

Francisco e a gerontóloga Shirley Pontes se conheceram em 2007, em um baile. Os dois foram apresentados por uma amiga em comum e viveram a primeira dança e o primeiro encantamento um pelo outro ao som de New York, New York, de Frank Sinatra, que se tornou a música do casal.

O médico defende que a sexualidade não tem prazo de validade. “Para o cidadão que é sadio, se cuida, não muda nada! A frequência pode até diminuir um pouco pela queda hormonal, mas a qualidade é a mesma. No meu caso, uma vez por semana é obrigatório; duas, opcional”, conta, bem-humorado.

Para Francisco, o sono, a boa alimentação e o exercício físico fazem parte da receita para manter uma boa saúde sexual, independentemente da idade. Ele faz modulação hormonal e repõe as vitaminas e os nutrientes necessários. “Temos receptores hormonais em todas as nossas células. Hormônio é vida e as pessoas se esquecem disso, se acomodam. Tem que se cuidar”, recomenda.

Francisco afirma ainda que a idade está no estereótipo, e não no interior. Quem está descompromissado, solteiro e quer aproveitar, deve aproveitar!
 

Parceria de vida 

 

Mathê Alencar, 69 anos, e Amazildo de Medeiros, 72, são joalheiros, parceiros nos negócios e na uma vida sexual ativa e saudável na maturidade. O que ainda pode render muitos olhares tortos e preconceituosos é tratado pelo casal com a naturalidade devida. Elegantes, simpáticos, cheios de vida e apaixonados, Mathê e Amazildo são o retrato do casal bem resolvido e que vive muito bem, obrigado.

Juntos “há muito tempo”, de acordo com os dois, que não contam os anos, mas, sim, as conquistas, se conheceram depois da viuvez — o segundo relacionamento sério um do outro. Eles estavam em uma reunião do Rotary Club de Brasília quando se viram pela primeira vez, mas, para Mathê, as coisas não começaram imediatamente. “Ele usava aliança, o que acabou sendo uma barreira. Somente depois, descobri que ele era viúvo e aí começou um encantamento”, lembra.

Já Amazildo, depois do primeiro olhar, foi perguntar aos amigos sobre a mulher que chamou sua atenção. Os dois trocaram cartões de visita e essa foi a deixa para o joalheiro convidá-la para um evento, que acabou não dando certo. Em seguida, ele propôs um almoço, estava com vontade de comer carne de jacaré. “Eu disse que nem pensar! Eu sou pantaneira, não ia comer jacaré, mas disse que poderíamos ir ao cinema.” Essa foi a deixa.

O primeiro encontro aconteceu, e o cinema se tornou o programa especial do casal. Desde então, os dois curtem a vida, em todas as suas facetas, juntos. A sexualidade é apenas mais um dos aspectos que os joalheiros vivenciam juntos, sem tabus. “Eu queria viver um grande amor, encontrar um parceiro para todas as coisas da vida, inclusive na sexualidade e na sensualidade. Temos a longevidade, e é preciso aproveitar a vida que temos”, afirma a mulher.
 

Liberdade

Depois da viuvez de ambos, Mathê Alencar e Amazildo de Medeiros se encontraram: amor maduro e intenso(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Depois da viuvez de ambos, Mathê Alencar e Amazildo de Medeiros se encontraram: amor maduro e intenso (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Mathê acredita que para viver novas experiências é necessário estar mais aberto e sereno, ser feliz e vivenciar o presente. Ao que Amazildo completa: “Precisamos aproveitar mais a vida, viver só é um desperdício. Existe a dança, o cinema, eventos e tudo o que envolve a relação. É uma questão de decidir viver melhor.”

Para a joalheira, uma das principais diferenças na sexualidade que vivenciou na juventude e a que vive hoje é o autoconhecimento. Nos anos 1970, como a maioria das mulheres, Mathê sentia a pressão social de ser “casta, bela e pura”. A posição feminina naquela época não permitia a experiência nem o autoconhecimento.

Mulheres que demonstravam interesse no sexo eram malvistas, o que acabou levando a uma sexualidade retraída e impermeabilizada, nas palavras de Mathê. Em seu segundo relacionamento, ela tinha todas as ferramentas para encontrar um parceiro ideal e viver sua longevidade em plenitude.

Amazildo aponta a fisiologia como uma das diferenças, mas garante que, com a saúde em dia e com a modelação hormonal, feita pelos dois, a sexualidade pode ser vivida em plenitude em qualquer idade. “Se houver a liberdade, a vontade de estar junto e de despertar aquela sensualidade em você e no outro, além do respeito, vai ser uma vida normal, com alegria e prazer.”

“Sexo é para sempre, é energia, é saúde, poesia, palavra, arte. É uma troca que faz bem para a alma e para o corpo, a alegria de viver é renovada a cada instante”, diz Mathê, exemplificando o que significa o sexo para o casal, e a importância de não limitá-lo de acordo com a idade.

Na hora de dar um conselho para quem ainda se prende a preconceitos e ao medo do novo. Mathê afirma: “Conheça-se primeiro, é a chave. Vamos aproveitar o que sexualidade nos proporciona. Transformar em saúde, energia, bem-estar, contentamento e em alegria de viver”.
 

As ISTs entre idosos

A médica geriatra Priscilla Mussi alerta para o perigo que os idosos se expõem ao não usar proteção no ato sexual. O HIV e a sífilis são as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) que mais têm atingido as pessoas acima do 60 anos e ambas podem causar quadros de demência, além de tantos outros sintomas. A médica afirma que a alta rotatividade de parceiros, inclusive em casas de repouso, além de traições, estão relacionadas ao aumento dessas doenças na população idosa, e ressalta a necessidade do uso de preservativo, além de exames regulares. Kátia Arruda, especialista em sexualidade, acredita que muito vem da desinformação. Ela explica que na época da epidemia de Aids, esses idosos eram, em maioria, adultos casados e muitas campanhas de proteção sexual não os atingiam. “Eles não viveram esse boom e não passa pela cabeça usar a camisinha, mas os índices de pessoas acima dos 60 contaminadas com HIV e sífilis têm aumentado e é necessária uma maior conscientização”, afirma.

 

 

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