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Correio Braziliense

Negritude valorizada de berço

O combate ao racismo deve vir desde a infância e passa pelo reconhecimento da contribuição negra na história brasileira e pelo fortalecimento da autoestima das crianças negras


postado em 24/11/2019 08:00 / atualizado em 21/11/2019 17:18

(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

 
A ancestralidade africana pode aparecer em diversos tons e traços, e só quem é negro sabe o quanto o processo de reconhecimento pode não ser tão simples. Crianças, muitas vezes, crescem sem se enxergar assim. A maioria vive na posição de pardas, de morenas, e com a autoestima baseada no padrão de beleza europeu — que pode até ser exaltado pelas famílias —, por conta da falta de representações negras desde a infância.

Para a psicóloga Jeane Tavares, a descoberta de ser negro é mais do que a constatação do óbvio. “Saber-se negro é viver e reconhecer a experiência de ter sido massacrado em sua identidade, confundido em suas perspectivas, submetido a exigências, compelido a expectativas alienadas. Mas, sobretudo, é a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades”, afirma. Com isso, ela quer dizer que a negligência ao tema “racismo” e à história da diáspora africana também contribui para o não reconhecimento.

O esforço para que as crianças se empoderem e se orgulhem da cor e dos traços que carregam passa por ensinamentos dentro de casa, por representatividade em brinquedos, em desenhos e livros, mas também pela escola e interações sociais vividas nela. A estudante de pedagogia Helena Rosa, 28, se dedica, atualmente, ao estudo das relações étnico-sociais. E espera poder fazer diferente do que foi feito com ela, com os alunos e com os filhos.

Sem representatividade

(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

 

Em casa, no início dos anos 1990, conta que os pais não tinham uma consciência racial aguçada, embora a tenham preparado para ser uma mulher forte e, assim, enfrentar todos os percalços pelos quais uma mulher negra costuma passar. “Mas não era explícito sobre racismo”, conta. Os brinquedos e as bonecas que tinha eram todas brancas. Não havia outras opções no mercado. “Na minha infância, eu brincava com a Barbie, branca, loira, de olhos azuis, magra. Era uma esquizofrenia.”

Na escola em que estudava, pública, as imagens dos livros didáticos também só mostravam pessoas brancas. Em 2003, houve um marco histórico na luta antirracista no Brasil e na transformação da política educacional e social brasileira: a Lei nº 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio. Mas, na opinião de estudiosos e de acordo com pesquisas, até hoje, isso não foi colocado em prática na maioria das instituições.

Segundo a pedagoga Liana Barcelos Porto, há profissionais que trabalham para que a lei não vire letra morta, no entanto, não é a regra. “Com 16 anos depois dessa lei, temos a sensação de que vamos começar do zero a cada manhã, a cada conselho de classe, a cada jornada pedagógica, a cada aula”, conta. Uma das maiores críticas é a referência aos africanos que foram escravizados no Brasil como “escravos” e não como “pessoas escravizadas”. O primeiro termo naturalizaria a condição e a consideraria algo inerente àqueles seres humanos.

Uma situação marcou a trajetória escolar de Helena: “Era uma apresentação do Dia da Consciência Negra, com uma música que eu não entendia direito, e me colocaram bem na frente. E meus pais assistiam e choravam. E eu achava que era de emoção”, relembra. Só depois de muito tempo, ela entendeu que interpretava uma escrava sem nem se dar conta. E a mãe contou que chorava de constrangimento. “A construção do que era ser negra não era positiva”, conclui.

Com os futuros filhos e alunos, ela quer criar um ambiente de acolhimento. “Quero que entendam a história de uma forma afrocentrada, quero desconstruir as imagens que recebemos e, principalmente, quero que conheçam suas histórias, seu heróis. Quero que a história para eles não seja contada a partir da escravidão, mas da África como um continente rico em cultura”, declara.

Para ler

 

Para a mestre em literatura Verônica Oliveira, os livros infantojuvenis ajudam as crianças, em geral, a construírem a própria identidade. “Elas se colocam no lugar dos heróis e vivenciam as experiências dos personagens. Quando não se reconhecem nas histórias, costumam ter autorrejeição e sentimento de inferioridade”, afirma.

Segundo ela, a literatura foi uma das grandes responsáveis pela disseminação do racismo. Portanto, passa também pelos livros a desconstrução dele. Do ponto de vista educativo, algumas obras podem reforçar para as crianças brancas a ideologia da superioridade da sua raça, e para as negras podem fragmentar a autoestima.

A Revista do Correio fez uma seleção de livros infantis interessantes para todas as crianças e com protagonistas negros.

Princesas Negras, de Edeliuza Penha de Souza.
Da Editora Malê, especializada em literatura afrobrasileira com o objetivo de colaborar com a ampliação da diversidade do mercado editorial brasileiro

Minha mãe é negra sim!, de Patrícia Maria de Souza Santana.
Uma indicação de Bernardo Clavelin

O que há de África em nós, de Wlamyra Albuquerque e Walter Fraga.
Os personagens cruzam o Oceano Atlântico para contar sobre a história da presença africana no Brasil. São reveladas as relações entre o Brasil e as nações da África e as criações culturais de africanos e seus descendentes aqui.

A juventude que quebra barreiras

(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

 

Bernardo Clavelin, 13 anos, a amiga Priscila Barreto, 13, e as duas primas dela, as irmãs Helena e Ana Luiza Barreto, 12 e 11, já tiveram a oportunidade de brincar com bonecos da cor deles — embora Priscila nem se interessasse muito por tais brinquedos. As irmãs tinham Barbies loiras e negras. O menino não se esquece de um boneco que a mãe lhe deu e que ele apelidou de Obama, já que o ganhou bem na época em que os Estados Unidos elegiam o primeiro negro presidente. “Era um boneco praiano, tinha uma toalha”, conta, aos risos.

Mesmo assim, vira e mexe, os adolescentes ainda ouvem alguém chamar o lápis rosa claro de “cor de pele”. Eles não consertam as pessoas, se abstêm de chamar a atenção delas por tal racismo, mas não deixam de se incomodar.

Algumas situações são menos óbvias que essa, como a que Bernardo viveu. Um dia, esperando, do lado de fora da sala, a mãe terminar de dar aula em uma faculdade particular, um segurança lhe perguntou se ele era o garoto que vendia bala no semáforo. Respondeu que não, que a mãe dele era professora ali e ele a aguardava. O profissional apenas emitiu um grunhido desconfiado e foi embora. Depois, ao contar para a mãe o ocorrido, ela lhe explicou que aquilo havia sido racismo. “Ela disse que o funcionário não teria vindo me perguntar aquilo se eu fosse branco”, relembra.

A mãe de Bernardo, Izabel Clavelin, jornalista, é muito envolvida com a militância negra e conta que sempre conversa sobre o tema com o filho. Fez questão de colocá-lo em uma escola em que houvesse vários colegas negros e que também abordasse o assunto com os alunos. “Fico muito satisfeita em saber que não sou só eu que estou falando sobre isso em casa, mas a escola também. Até porque é o local de socialização dele e onde ele passa mais tempo”, afirma.

Para Renísia Cristina Garcia Filice, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília e pós-doutora em sociologia, a escola pode reproduzir desigualdades, preconceitos e estigmas ou desconstruí-los com a intervenção do professor. “Se tem uma preocupação com a transformação social, de uma perspectiva de cidadania, de inclusão, de respeito à diversidade e às diferenças e potenciais, a escola vai reconhecer a questão da diversidade racial, do racismo, e vai colocar isso em debate. Se não, não vai contribuir para a autoestima da criança negra”, afirma.

Na vida escolar, os amigos Bernardo, Priscila, Helena e Ana Luiza se sentem realmente acolhidos. Helena se lembra de uma aula de filosofia em que a professora citou um filme que mostrava o racismo. “Era sobre um negro que não foi à polícia depois de uma coisa que aconteceu com a filha dele porque sabia que iam culpá-lo. E, depois, precisava de um advogado e escolheu um branco, porque não iam ouvir um advogado negro”, resume. A prima ajuda com alguns detalhes: “Chegam até a ameaçar a família do advogado por defendê-lo”.

Todos muito interessados por esportes — jogam futebol, vôlei e basquete —, também se recordam de um longa a que assistiram na aula de educação física “sobre um jogador de beisebol negro, numa época em que só brancos podiam jogar”, detalha Bernardo. Trata-se da biografia de Jackie Robinson, um grande ídolo do esporte nos Estados Unidos.

Izabel sempre fez questão de comprar livros com personagens negros para o filho. E um que Bernardo conta que gostava muito e que fez a mãe reler várias vezes foi Minha mãe é preta sim. “Um menininho vai para a escola e a professora pede para ele desenhar a família dele. Quando ele vai pintar, ela fala para pintar de amarelo, e ele fica triste”, relembra. Amigas de Bernardo há cerca de 10 anos, Helena e Ana Luiza também já ganharam livros de Izabel. “Tem um que era muito infantil e doamos recentemente, mas ainda temos outros”, conta Helena.

Cores de peles

Para Renísia Cristina, o debate sobre o “lápis cor de pele” já deveria ter sido superado, mas, infelizmente, não foi. Segundo ela, todo o conjunto de representações negativas da população negra faz com que as crianças não se percebam como parte dessa etnia.

“Quando uma criança negra se pinta de rosa ou de branco, é muito grave, porque mostra que ela não tem uma representação positiva da população negra. Os livros didáticos ainda não passaram por uma ressignificação necessária sobre o conteúdo da história do Brasil, também recuperando a resistência negra. A história da África aparece só pós-colonial, e isso faz com que as crianças não se percebam”, afirma.

Segundo a educadora, já existe um rol grande de materiais paradidáticos de qualidade que desconstroem tudo isso. “Mas ainda são exceções quem vão atrás deles. São profissionais que chamamos de gestores proativos”, lamenta.

Atualmente, várias marcas de materiais escolares contam com diversos tons de pele. No ano passado, a alemã Faber-Castell lançou a linha “Caras e Cores”, com seis nudes diferentes. Em alguns sites, também é possível comprar uma caixa de giz de cera com 24 peles, da marca nacional Pintkor, em parceria com a Uniafro — Política de Promoção da Igualdade Racial na Escola, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A Tris também já lançou a dela. É só ver qual cabe no seu bolso.

A mulher negra em poema

Ana Rayssa/CB/D.A Press
Ana Rayssa/CB/D.A Press
 

 

Maria Clara França, 17, precisava fazer um trabalho em grupo na escola, com tema livre, para a aula de literatura. Mesmo com uma maioria branca, todos concordaram em preparar um vídeo baseado no TedX da filósofa Djamila Ribeiro: Precisamos romper com os silêncios. “Ela fala sobre como o silêncio é, historicamente, imposto às mulheres negras. O racismo é um dos assuntos que eu mais gosto de discutir e é muito bom poder usar minha voz para isso”, conta.

A jovem se aproximou do tema por conta do irmão mais velho, sempre muito engajado na questão racial. Ficou curiosa e passou a devorar livros a respeito. Um dos preferidos dela é O perigo de uma história única, de Chimamanda Ngozi. Diferentemente dos mais novos, ela conta que só foi ganhar uma boneca da cor dela quando já era mais velha e não brincava mais: “Nunca tirei da caixa. Ficou de enfeite”.

Empreendedorismo racial

 

 

A estudante de pedagogia Geisa Antunes, 26 anos, de Sorocaba, em São Paulo, acredita que já nasceu com uma veia empreendedora natural de quem é da periferia “por necessidade, por sobrevivência”. Mas queria um negócio que transformasse a vida de pessoas. “É muito bom a gente se sustentar com o nosso trabalho, mas melhor ainda saber que está fazendo o bem”, reflete. Nunca se viu representada em um brinquedo e só se reconheceu como mulher preta aos 16 anos. Não queria isso nem para a filha nem para outras crianças negras.

Estagiando em uma escola pública e em contato com garotos haitianos, viu uma situação: “Um dia, numa brincadeira de sereia, disseram que uma haitiana não poderia ser a Ariel, porque ela era branca de cabelo ruivo. Isso me tocou muito. Eu a via sendo obrigada a comprar coisas que não a representavam”. Começou a fazer bonecas de pano negras e surgiu a Melanin. “A criança tem que se ver representada e ver que ela pode ser o que ela quiser: a sereia, a bruxa, a princesa... A mídia não mostra isso para elas”, afirma.

Com uma filha de 5 anos, Ana Luísa, Geisa já tinha percebido esse furo no mercado. “Minha filha queria uma boneca e queria uma pretinha, de cabelo crespo, e a gente não achava”, relembra. Depois das bonecas, vieram as mochilas, sucesso no Brasil inteiro, inclusive em Brasília, onde tem muitas clientes. Com personagens negras, todo o processo de criação da mochila é feito por ela. Só terceiriza a costura.

A garota-propaganda e inspiração de Geisa é a irmã, Ana Vitória, de 11 anos. “Ela sofreu muito: fazia xixi na cama, só usava coque, por causa do cabelo crespo, fizeram música racista para ela”, lamenta. Para apoiá-la, todas as mulheres da família passaram a assumir os fios crespos e deixaram a chapinha de lado. Ana Vitória, diferente de Ana Luísa, tem a pele bem preta, e isso muda a forma como a tratam. É o chamado colorismo: quanto mais escuro o tom de pele de uma pessoa, mais racismo ela sofrerá, e quanto mais claro, mais privilégios ou vantagens ela terá. Geisa também tenta mostrar isso à filha.
 
 

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