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Correio Braziliense ESPECIAL

Moda além do quadradinho

Conheça marcas autorais brasilienses que carregam para as coleções valores como identidade, criatividade e sustentabilidade


postado em 01/12/2019 04:19 / atualizado em 02/12/2019 15:56

 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
Na era tecnológica, a experiência de compra vai além de adquirir um item de necessidade ou desejo. As lojas precisam repensar a sua comunicação com os consumidores, além da divulgação e fidelização de determinado produto. O público, cada vez mais engajado, busca se relacionar com marcas que se posicionem e sejam transparentes em seus valores.

“A moda está intimamente ligada à identidade. E, mesmo que a identidade seja pessoal, ela também tem a sua relação social. As lojas começaram a celebrar a diversidade no Brasil, mas todos os aspectos que envolvem a compra devem cooperar para que pessoas de todos os tipos se sintam acolhidas e incluídas”, afirma Barbara Cador, líder global da Kantar, empresa especializada em dados, insights e consultoria.

Em relatório realizado pela empresa com marcas de varejo de moda, foi evidenciado que os ambientes de varejo — on-line e presencial — são locais onde as pessoas socializam, exploram, relaxam e se conectam. E os brasileiros, principalmente os mais jovens, valorizam esses pilares: cerca de 52% dos millennials entrevistados indicaram suas preferências em investir em experiências de qualidade.

Dentro da análise, a Kantar indicou que 81% dos consumidores consideram a experiência uma necessidade. “Cada vez mais, as pessoas buscam por experiências e, no Brasil, esse aspecto é muito mais valorizado quando comparado com a média global. Portanto, é fundamental que as marcas sejam criativas em suas abordagens e ativações”, confirma Barbara.

Ideias boas para projetos que prezam pela qualidade de trabalho — e consumo — não faltam por aí. Nos últimos tempos, estilistas e demais empresários do ramo da moda têm firmado parcerias com outras marcas já estabelecidas em busca de colaborações com produtos repaginados para atrair um novo público.

O economista Alexandre Arci esclarece que a tendência de economia colaborativa é mundial. “Isso não acontece só em Brasília, mas no mundo todo. A grande aceitação aqui está ligada às características da cidade, que recebe pessoas do Brasil inteiro e tem uma diversidade cultural muito forte. O brasiliense gosta de experimentar itens diferentes e o que está se popularizando no mundo.”

Para ele, os principais objetivos das colaborações é manter a qualidade do produto e, mesmo assim, baratear os custos que passam a ser divididos com outros empresários. “Isso pode ser um grande diferencial para o empreendedor e impacta fortemente o mercado, pois empresas pequenas que não teriam capacidade financeira para ter sua loja própria passam a demonstrar sua marca por meio das colaborações. É uma nova porta aberta.”

A Revista convida o leitor a conhecer marcas autorais — e collabs —  que andam movimentando o cenário brasiliense e mundial.

*Estagiárias sob supervisão de Sibele Negromonte

Brasília no palco do Rock In Rio

“Quem tem boca vai a Roma”, diz o ditado popular. Adaptando a frase, a marca brasiliense Babalong provou que o duo talento + ousadia podem levar ao Palco Mundo do Rock In Rio e vestir nada mais nada menos que a cantora Anitta, em sua apresentação com o Black Eyed Peas. E acredite se quiser: a marca conseguiu esse — e outros feitos — com menos de um ano de atuação no mercado.

“A equipe dela nos procurou pelo direct do Instagram. Desse primeiro contato até a confecção das peças foi loucura total, a gente não parava! Eram modelagens que não estávamos acostumados e que nunca tínhamos feito antes. Foi um processo intenso”, relembra Débora Alencar Pinto, 26 anos, que está à frente da marca ao lado do irmão, Heitor Alencar Pinto, 24.

Inspirada em vivências dos co-criadores, a marca traz a visão desses baianos-brasilienses para o universo da moda por meio de estampas que carregam suas histórias — ela, formada em arquitetura pela UnB; e ele, um cidadão do mundo. “Ele morava em Xangai, na China, quando surgiu a ideia de montarmos a marca, e as roupas de gênero neutro já tinham um público grande por lá”, conta a empresária.

Além de se posicionar no mercado como uma marca agênera, em produções e editoriais, a Babalong, busca dar visibilidade a modelos trans, plus size, negros e não usam retoques nas fotos. O objetivo é mostrar pessoas reais e que estão bem com suas formas e estilo. O trabalho deles envolve a impressão de estampas autorais em tecido acetinado para confecção de camisas, kimonos, shorts, tops e peças diversas.
 
Marca registrada
Na produção usada pela cantora no Rock In Rio, os irmãos mantiveram a essência da label: confeccionaram o cropped e a pantalona com cetim parisi, que traz leveza e conforto à roupa. “Fizemos tudo pensando nela, desde a escolha das cores até a modelagem. Mas se tratando de tecidos, não teria como deixar de adicionar a nossa marca registrada”, conta Heitor.
Os irmãos Débora e Heitor Alencar Pinto criaram a Babalong há menos de um ano: vestir Anitta no Rock in Rio foi uma importante vitrine para a marca(foto: Reprodução/Instagram)
Os irmãos Débora e Heitor Alencar Pinto criaram a Babalong há menos de um ano: vestir Anitta no Rock in Rio foi uma importante vitrine para a marca (foto: Reprodução/Instagram)
 
Dos croquis aos ajustes, Anitta deu palpites e sugestões no outfit. E quando visualizaram o fruto do trabalho em um dos maiores festivais do mundo, a emoção foi certeira. Amigos, familiares e sócios se reuniram em frente à televisão como em dia do jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, relembram.

“Foi uma vitrine muito grande para a gente, especialmente porque entramos no mercado da moda no início deste ano. Do Rock In Rio para cá, já a vestimos mais três vezes, mas a emoção — e adrenalina — sempre é muito grande”, conta Débora. E sobre o futuro? Heitor dá uma palhinha dos projetos em andamento: “Alguns artistas internacionais entraram em contato conosco. Por enquanto, é apenas um esboço, mas estamos animados para novas parcerias”.
 
 
Streetwear com influência artística
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 
Um estudante de música responsável pelos figurinos dos concertos de ópera que se apaixonou por confecção e passou a brincar de fazer as próprias jaquetas e camisetas. Foi assim que o jovem Bernardo Rostand, 25 anos, ingressou no mundo da moda e, em 2017, resolveu fazer sua primeira coleção, depois de tantos pedidos. “As pessoas começaram a gostar das peças que fazia para mim, então resolvi começar a produzir.”

Nessa coleção experimental, era ele o responsável por todos os processos de corte, costuras e bordados. Dois anos depois, o time da marca Rostand cresceu devido à popularidade e à demanda e Bernardo conta com um responsável pela administração, uma costureira exclusiva e eventuais colaboradores do DF com maquinários específicos para algum acabamento da roupa.

O crescimento acelerado da marca se deve aos esforços empregados desde as primeiras peças e ao novo conceito que traz a Brasília de streetwear com qualidade técnica e aparência de alta moda. “Minha ideia sempre foi fazer roupa-arte, roupa exclusiva e peças únicas. Em uma coleção, tem peças que são vendidas nas lojas, tem as de encomenda e as desenvolvidas exclusivamente no ateliê.”

As três frentes escolhidas para trabalhar apresentam diferenças de valor e público, apesar de manterem o rigor de confecção. As primeiras grandes vendas foram para clientes de São Paulo e do exterior. Porém, após os vestuários da Rostand passarem a serem vendidos na loja multimarca Q.U.A.D.R.A., os clientes candangos também se aproximaram do conceito. Segundo Bernardo, muitos consumidores das peças únicas chegaram ao ateliê a partir da loja.

Arte no DNA
As peças de Bernardo Rostand têm inspiração artística e conceito de unir o clássico às modelagens modernas: na última coleção, o estilista fez uma festa na piscina no cenário de luxo dos anos 1980(foto: Rostand/Divulgação)
As peças de Bernardo Rostand têm inspiração artística e conceito de unir o clássico às modelagens modernas: na última coleção, o estilista fez uma festa na piscina no cenário de luxo dos anos 1980 (foto: Rostand/Divulgação)
Como não poderia ser diferente para um amante de arte, as principais inspirações do estilista estão ligadas à teatralidade, à pintura e à fotografia. O DNA da coleção By the Pool Side está nas fotografias de Helmuth Newton e no luxo dos anos 1980. Por sugerir uma festa na piscina, a coleção traz referências às texturas da água e ao movimento dela ao redor do corpo.

“O sonho dourado da marca é ser o relativo à alta-costura francesa no Brasil. Não me limito a Brasília, mas meu ateliê e minha base sempre serão aqui”, assegura Bernardo Rostand, que, recentemente, foi responsável por vestir nomes da música como IZA e o DJ Alok.
 
 
Trabalho de collabs
O stylist Marcus Barozzi acumula diversas experiências de construção em colaboração, já que foi responsável por várias coleções de lojas de Brasília. Para ele, cada trabalho é único e exige a compreensão da marca. “Eu adoro, acho desafiador, é um respiro novo sobre uma label que já tem um DNA e um público. Não podemos esquecer que ela já está ali! Mas óbvio que também quero gerar o desejo e atrair novos consumidores que não fariam um link direto com a marca.”

As colaborações tornam-se constantes uma vez que o profissional vira referência no meio. Uma parceria tem o poder de levar a outra nessa nova tendência do mercado de moda. Em sua recente parceria com a Avanzzo para criar uma linha de camisetas verdadeiramente brasilienses, Marcus abusou das cores do espaço e entregou um produto que encantou a marca. “Acho que as cores de Brasília são as mais incríveis e vibrantes! O céu, a terra vermelha, os splashes de rosa, roxo, amarelo e branco dos ipês, o pôr do sol alucinante e o povo que tem as cores e misturas do mundo inteiro”, avalia Barozzi.
 
 
Para todos os corpos 
Nila Ataíde fez parceria com Vanessa Campos para criar uma coleção que atendesse a mulheres de corpos e identidades variados(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Nila Ataíde fez parceria com Vanessa Campos para criar uma coleção que atendesse a mulheres de corpos e identidades variados (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
“Quando pensei em uma coleção para tamanhos maiores, queria abraçar e incluir mulheres que gostavam da identidade da minha loja e ainda não se viam representadas por completo”, afirma Nila Ataíde, estilista e proprietária da Bôh. A loja, que tem como valores o slow fashion e peças atemporais, lançará a coleção Corpo Afeto no dia 11 de dezembro em parceria com a jornalista e digital influencer Vanessa Campos, que tem como foco a moda inclusiva.

Há quase dois anos à frente da Bôh, Nila trabalha com peças sem “prazo de validade”, tendo como carro-chefe da marca o slip dress Maria, a saia transpassada Pareô e a blusa Amarre, que possibilitam uma infinidade de maneiras de vestir. Entretanto, os tamanhos não atendiam à demanda que fugia do P ao G. E foi a partir dessa necessidade que surgiu a collab plus size.

“Nila me chamou para um café e lá me fez um convite irrecusável: além de lançar uma coleção que atendesse a mulheres com tamanhos maiores, ela estava genuinamente preocupada em ter como parceira alguém que estivesse em seu lugar de fala e entendesse o que é chegar em uma loja e não encontrar a peça que você gostaria”, conta Vanessa.

Em confecção desde outubro, as 10 peças da Corpo Afeto foram pensadas em mulheres diversas em formas e identidades. Um ponto levado em consideração foi de que nem todas estão completamente livres de se sentirem inseguras com uma parte ou outra do corpo. Mas com o toque fashionista de Vanessa, não faltaram brilho, lurex e saias com fendas para valorizar as curvas.

A dupla responsável manteve na coleção as peças que são sucesso da marca e incluíram modelagens com tecidos que atendam bem desde as mais ousadas até as mais clássicas. As roupas estão disponíveis nos tamanhos um, dois e três, e atendem desde o 46 ao 60.

“Foi uma parceria elaborada com muito carinho. Queremos que as mulheres se sintam representadas, confortáveis em suas próprias peles e que amem o que veem no espelho. Porque a roupa tem esse poder de transpor um pouquinho da nossa essência, da nossa história”, acredita Vanessa.


Conselhos de quem conhece
As empresárias Patrícia e Sarah Skaf buscaram a mentoria de Janaína Ortiga (esquerda) para construir a primeira coleção da marca delas(foto: Skaf/Divulgação)
As empresárias Patrícia e Sarah Skaf buscaram a mentoria de Janaína Ortiga (esquerda) para construir a primeira coleção da marca delas (foto: Skaf/Divulgação)
 
Sarah e Patrícia Skaf alimentavam havia 16 anos o sonho da marca própria, incentivadas pelo pai, que via nas filhas o tino para negócios. Agora, as irmãs decidiram entrar de vez no mercado com a colaboração de uma velha conhecida do público brasiliense. “A parceria com a Janaína Ortiga é uma junção do nosso desejo de ter uma etiqueta autoral com o know how de quem já teve uma marca autoral e conhece bem a consumidora daqui”, observa Sarah Skaf.

Janaína Ortiga fundou a loja Ortiga quando percebeu uma demanda de produtos que não encontrava em outras marcas, como uma simples camisa branca, e criou verdadeiros laços com as clientes de Brasília. Em 2017, vendeu a loja e se mudou de vez para Belo Horizonte, mas não pensou duas vezes ao receber o convite de parceria com Skaf. “Eu amei fazer mais uma vez uma coleção pensada para as mulheres que, durante 23 anos, me acompanharam na Ortiga”, avalia.

A coleção Memórias foi construída em conjunto pelas empresárias, com mentoria especial de Janaína, e traz roupas para o alto-verão de 2020 com estamparias de folhagens e predominância de cores neutras. “Os shapes foram pensados para a mulher brasiliense, que aposta em roupas práticas que vão da manhã à noite, do trabalho para um evento social, mas que tenham, sobretudo, personalidade e conforto.”

Sobre os desafios de desenvolver um trabalho em conjunto, Janaína enfrentou um dilema que não vivia havia alguns anos. “É mais desafiador no intuito de acertar, porque cada loja tem um mix, e esse mix que precisa ser estudado para a criação da marca própria de forma que não gere competição.”

Além das dificuldades, as profissionais concordam que a experiência é enriquecedora e prazerosa. “Essa foi a nossa primeira collab e posso dizer que tudo fluiu de uma forma bacana. A nossa energia se parece muito com a da Janaína. Uma experiência que queremos repetir”, atesta Sarah.
 

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