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Correio Braziliense ESPECIAL

A importância de dar uma pausa na rotina

A palavra autocuidado nunca esteve tão na moda, mas ainda são poucos os que a colocam, de fato, em prática. Conheça a história de pessoas que não abrem mão de um tempinho só para elas


postado em 08/12/2019 07:00 / atualizado em 06/12/2019 14:32

Sônia Feitoza faz questão de se cuidar para ajudar os outros(foto: Marcelo Ferreira/CB/DA Press)
Sônia Feitoza faz questão de se cuidar para ajudar os outros (foto: Marcelo Ferreira/CB/DA Press)

Uma tarde de spa; meia hora de meditação, de exercício físico ou de sauna; um checape completo no médico... São atividades aparentemente pequenas, mas nem sempre fáceis de incluir na rotina. Elas têm, no entanto, o poder de trazer a satisfação de estar se cuidando. A palavra “autocuidado” é uma tendência atual. Ela vem lá dos anos 1970, com a teoria da enfermeira norte-americana Dorothea Orem, que se baseia na premissa de que os pacientes podem — e, sobretudo, desejam — cuidar de si próprios. Aos enfermeiros cabem intervir só o necessário.

Mas o autocuidado de que tanto se fala atualmente é outro: trata-se de dedicar um tempo para si para viver da melhor forma. “Está na moda justamente porque o estamos praticando cada vez menos. Deveria ser o nosso jeito de viver: estarmos presentes e atentos, fazermos coisas que fazem sentido para nós, termos atenção a tudo que estamos fazendo. Mas, ao contrário, estamos vivendo no automático”, lamenta a psicóloga Thirza Reis, especialista em inteligência relacional e master coach.

Ela explica que é isso que faz com que seja necessário que as pessoas parem algum momento do dia para se autodedicar. “Hoje, no universo da alta performance, é tudo ansiogênico. E no primeiro momento que se faz isso, já se vê benefícios. Não importa a sua escolha: ler um livro que dialogue com a alma, tomar um banho longo. O mais importante da atividade é o propósito, a intenção de ter pausa”, garante a profissional.

Thirza explica que, além das pessoas muito ocupadas, as muito ansiosas e as que têm excesso de preocupação com o que os outros vão pensar costumam ter mais dificuldade de fazer pausas para se cuidar. Mas não é só isso que torna o autocuidado tão difícil. “Ele tem a ver com o autoenfrentamento: enfrentar algumas coisas que você está evitando. Às vezes, a gente mergulha em rotinas ensurdecedoras para fugir de pensamentos. Quando se para, eles vêm e a gente pode se dar conta de que não está vivendo a vida que gostaria, que está fazendo um trabalho horrível, que está numa relação difícil e não está conseguindo dar um desfecho.”
 

Cuidar-se para ajudar os outros

 

“Enquanto eu tiver energia e força, quero estar aqui”, afirma a professora Sônia Feitoza, 65 anos, referindo-se à Associação Maria de Nazaré, em Samambaia, que funciona como creche, escola, contraturno para crianças e como um espaço para toda a comunidade, com grupos de ginásticas variadas e do Alcoólicos Anônimos. A entidade sem fins lucrativos foi fundada em 1990. Antes disso, no entanto, Sônia já era voluntária. Ao longo de todo esse tempo, ela viu que, para manter a disposição que deseja, precisava cuidar dela mesma: do físico, do emocional e do espiritual.

A rotina da professora sempre foi puxada. Fazia trabalho voluntário, dava 40 horas semanais de aulas pela Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), tinha dois filhos e era responsável por uma marcenaria. Dessa forma, zelava muito pelos outros e pouco por si. Com cerca de 40 anos, resolveu mudar um pouco a situação: “Comecei a fazer dança de salão. Eu me apaixonei. Depois, fui para a biodança, fiz dança do ventre, quando ficou na moda por causa de uma novela”, relembra.

Tudo isso, sem deixar ninguém de lado. Pelo contrário: com uma vontade inata de ajudar os outros, não bastou começar a fazer atividades físicas. Sônia fez questão de incluí-las nas programações da associação. Por ali, instalou projetos para que os pais das crianças, a comunidade e os funcionários do local também se movimentassem. O local já conta com diversos colchonetes, bolas para pilates, halteres, caneleiras e todo o material necessário para as aulas.
 
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Em movimento


Atualmente, ela pratica pilates três vezes na semana, faz caminhadas nos fins de semana e procura fazer exercícios de respiração enquanto dirige. “Para não focar só nos problemas. Gosto muito de ioga. São formas de diminuir a ansiedade”, explica. Mas nada disso é tão natural assim. Ela precisa se vigiar para não se desleixar. Confessa que, depois que se aposentou, ficou ainda mais ocupada que antes e, às vezes, o tempo é pouco para se cuidar. “Se eu não brigar comigo e me obrigar a fazer o que preciso, é muito fácil se deixar de lado”, admite.

Ela sente falta da dança, mas foi algo de que precisou abrir mão sem, no entanto, prejudicar o bem-estar. Pelo menos, por enquanto. Além de se exercitar, ela procura realizar checapes médicos todo fim de ano — os deste, foram feitos na semana passada — e viajar a cada dois meses, mesmo que só pelo fim de semana. “Férias, eu costumo tirar picadas: cinco dias aqui, cinco dias ali, mas não abro mão de viajar”, garante, feliz com a rotina intensa, mas que abrange também momentos só dela.

Brasileiros estressados


Pesquisas indicam que os níveis de estresse dos brasileiros estão altos. Segundo levantamento do International Stress Management Association, o Brasil é o segundo país do mundo com o maior nível de estresse. O instituto avaliou que 72% das pessoas no mercado de trabalho sofrem sequelas da sobrecarga emocional. Já a pesquisa Stress no Brasil, realizada pelo Instituto de Psicologia e Controle do Stress (IPCS), identificou que 34% dos 2,2 mil brasileiros entrevistados consideram que vivem estresse extremo. Os relacionamentos familiares e amorosos seriam os maiores causadores.

Para a psicóloga Sirlene Ferreira, o autocuidado revela limites físicos e emocionais das pessoas e, justamente por isso, acaba sendo definidor de com quem o indivíduo se relaciona e como faz isso. A máxima é que cuidar de si reflete no cuidado que vamos oferecer aos outros e na harmonia ao longo da relação.

De acordo com o IPCS, o estresse existe em todos, porém há formas de manejá-lo para que não seja excessivo. Algumas encaixam-se perfeitamente no autocuidado, como “tirar férias mentais, isto é, se desligar dos problemas por alguns minutos durante o dia, usar técnicas de relaxamento, comer alimentos antiestresse (verduras, legumes, frutas) e praticar alguma atividade física.”

Tudo começa pelo autoconhecimento

Maha yoga é uma vertente da ioga que tem ajudado muita gente a se autoconhecer(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Maha yoga é uma vertente da ioga que tem ajudado muita gente a se autoconhecer (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

 
“A questão é: como é possível se cuidar, se você não se conhecer?” Para Bernardo Brenicci, 53 anos, o autoconhecimento é a forma mais expressiva — e valiosa — do autocuidado. Parte da filosofia dele é compreender responsabilidades, necessidades e encarar que os problemas da vida não são reais. Quem vê sente que essa vibração sempre ecoou na vida do servidor público. Mas, na verdade, é fruto de um trabalho bem mais profundo.

Bernardo pratica maha yoga, uma vertente da ioga, em um centro no Lago Sul. A técnica reúne posturas de ioga, pranayamas — que é, basicamente, o controle da respiração —, meditação e alguns mantras. Nada de acrobacias dificílimas. A atividade busca atender todos os perfis. A ideia é ir do nível “mais físico” para o mais sutil e transgredir a mente. Como também é instrutor de ioga, Bernardo, muitas vezes, toma a frente como guia da turma. Os outros integrantes que também têm experiência com a prática se revezam nessa função.

Os encontros acontecem, principalmente, à noite, e é muito comum as pessoas irem do trabalho direto para o local. Depois de um dia corrido, o momento acaba servindo justamente para acalmar. Bernardo é prova disso. Ele conta que a ioga ajuda a deixar o serviço no trabalho mais leve. “Aprendi a relativizar os problemas que vão aparecendo. Tira aquele peso, ajuda a relaxar.”

E mais que encontro marcado, Bernardo explica que a ioga é uma prática de longo prazo. Ele chega a dizer que os 31 anos de contato que tem com a atividade não passam de um número. Afinal, a evolução é individual. Acredita que o importante é que cada pessoa seja parâmetro de si mesma.

Visão positiva


Angela Vieira, 54, pratica ioga no mesmo centro que Bernardo. Professora universitária, ela entende que os princípios da meditação são ótimas saídas para turbinar as capacidades das pessoas nos estudos e no trabalho, além de reduzir o estresse. “Isso tudo porque, com a respiração regulada e a mente descansada, é possível ter uma visão mais positiva do mundo”, acredita.

Para ela, o combo ioga, respiração, relaxamento e devoção também é um mecanismo de cura. Funciona como prevenção. “Tudo que a gente tem de doença começa no emocional. Então, eu penso que cuidar desse lado mais afetivo diminui até custos com a saúde.”


Como começar a se cuidar

  • Afaste-se, por alguns minutos, de tudo que deixa você ansioso: trabalho, responsabilidades com a casa e com os filhos, celular, redes sociais.
  • Tome um banho mais longo
  • Embeleze-se: faça uma hidratação no cabelo, as unhas ou uma esfoliação no rosto.
  • Pratique exercício físico: pode ser chato e cansativo no início, mas a sensação depois é reconfortante. Comece aos poucos. Com o tempo, essa sensação prazerosa vai fazer com que você aumente a quantidade e a frequência das atividades.

Além da estética

Claudia Carvalho aproveita as viagens a trabalho para também tirar um tempo só prara ela(foto: Arquivo Pessoal)
Claudia Carvalho aproveita as viagens a trabalho para também tirar um tempo só prara ela (foto: Arquivo Pessoal)
 
Fazer do banheiro um spa, preparar o ambiente e usar os produtos de que mais gosta. Quem nunca se deliciou com esse combo? Claudia Carvalho, 40, adora cuidar da pele. “Amo um creminho”, admite. Mas, para ela, o autocuidado vai muito além. É uma roda com os amigos e a família, é bater papo. Ou então viajar (e muito). Sem, claro, abrir mão da saúde. Para ela, é imprescindível manter uma alimentação saudável e praticar atividades físicas — que não incluem academia! É do tipo que gosta de esportes ao ar livre.

Claudia trabalha viajando. É supervisora de times de vendas. A não rotina, assim, exige que ela faça adaptações para carregar essas práticas de autocuidado na mala. Um dos artifícios que Claudia aposta, independentemente de onde está, ela aprendeu na Índia, cinco anos atrás: beber água morna com limão todas as manhãs em jejum. Faz isso desde então. Também optou por não comer mais carnes. Mas não abre mão de comer doces nem de beber cervejas e vinhos: prazeres que busca equilibrar.
 
(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 
Nas viagens, acha importante reconhecer os arredores de onde fica hospedada. Se o local tem um calçadão, Claudia aproveita para andar de skate e bicicleta. Se tem praia, melhor ainda — a paixão pelo surfe é grande. O esporte foi até motivo para ela se mudar para Florianópolis. “Lá, consigo praticar com mais frequência o esporte pelo qual me apaixonei.”

Com o dia a dia na estrada e em conexões o tempo todo, fazer o que ela gosta compensa a correria e a ajuda a manter a disposição para motivar as equipes de venda. “Sem autocuidado, talvez eu viesse a adoecer ou me sentiria mais cansada com mais frequência. Penso que nosso corpo é nossa máquina, nosso veículo. Se ele falhar, seguir em frente fica mais difícil. Por isso, tento cuidar como posso do trio corpo-mente-alma.”
 
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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