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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Brincadeira consciente

Como evitar o consumismo desenfreado entre as crianças nesta época do ano? Especialistas dão dicas preciosas para evitar os exageros


postado em 22/12/2019 04:08 / atualizado em 24/12/2019 14:00

Adele Vasconcelos incentiva os filhos, Pedro e Sofia, a fazerem os próprios brinquedos(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Adele Vasconcelos incentiva os filhos, Pedro e Sofia, a fazerem os próprios brinquedos (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Ir ao shopping acompanhado dos filhos é um desafio à parte. É um tal de “mãe quero isso” para cá, “pai compra isso” para lá, e o cenário apenas piora com as festividades de fim de ano, quando aumentam as publicidades direcionadas às crianças, que, se não forem devidamente policiadas pelos pais, podem se tornar indivíduos extremamente consumistas.

E a aposta publicitária acaba, de fato, se convertendo em compras, já que boa parte dos pais cede aos pedidos dos filhos. Estudo recente do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostra que seis em cada 10 mães não resistem ao apelo dos filhos quando o assunto é comprar e acabam gastando mais do que o planejado, em especial nas datas comemorativas.

A administradora Anna Oliveira, que atua na área de consultoria financeira e é autora do livro de finanças infantil Anna e seus cofrinhos, explica que a relação da criança com o dinheiro, assim como com gostos e crenças, é construída de acordo com as vivências, por isso os pais têm um papel fundamental na consciência de consumo dos filhos. “Crianças que crescem sob um olhar mais individualista e tendo a ausência dos pais recompensada com brinquedos são mais inclinadas a crescer com um perfil consumista, além de terem mais dificuldade de dividir e ter empatia por quem tem menos”, aponta.

Por isso, limites precisam ser estabelecidos. Para o pediatra Dr. Carius, a limitação de gastos não deve se restringir apenas a datas comemorativas. “O amor incondicional dos pais não deve ser integrado à falta de limites. A criança precisa entender que não pode ter tudo e que existe a hora certa, o lugar certo, prioridades e, principalmente, que nem sempre as coisas sairão da forma como ela gostaria”, aponta o especialista.

Estratégias como fazer acordos antes de sair de casa, definir um valor para a compra do presente e estabelecer pré-requisitos para ser presenteado são táticas que podem ajudar a impor limites nos pequenos e diminuir os gastos. “Outra sugestão é educar as crianças a doar as roupas e os brinquedos que não usam mais e, assim, estabelecer a troca consciente do ganha um novo e doa um antigo”, recomenda Anna Oliveira.

Herança

Entre as estratégias de consumo consciente, fazer o próprio brinquedo foi a medida que deu certo na casa da médica Adele Vasconcelos, 39. Além de diminuir a ânsia dos filhos por compras, a prática a ajudou a desenvolver valores e a transferir heranças familiares para os filhos. “Minha mãe é pedagoga e foi com ela que aprendi a manusear vários recicláveis que uso hoje para fazer brinquedos com meus filhos. Ela sempre me estimulou a brincar desenhando, a usar minha criatividade, e isso acabou sendo muito presente na criação dos meus filhos, na qual ela ainda tem influência”, conta.

Mãe de Pedro, 3, e de Sofia Vasconcelos, 10, a médica conta que insere a dinâmica desde que as crianças eram bem pequenas, o que resultou na boa respostas das crianças, em especial da mais velha, que já tem uma boa noção financeira. “Hoje, tenho uma condição que me permitiria dar muitas regalias aos meus filhos, caso quisesse, mas, justamente por isso, eu acho importante que eles tenham conhecimento sobre quanto as coisas custam, de onde elas vêm e, principalmente, que é preciso economizar”, defende Adele.

Ela acredita que os benefícios vão além do financeiro, já que Adele enxerga esse tipo de educação como parte da formação de caráter das crianças. “Elas automaticamente aprendem a valorizar mais os brinquedos, independentemente de eles serem caros ou baratos, e também a saber que eles não são o que têm”, relata.

Apesar de brincarem com muitas coisas que eles mesmos fazem, Sofia e Pedro não deixam de consumir os tradicionais brinquedos da indústria, porém estes são comprados apenas em datas comemorativas. “O brinquedo especial sempre vem acompanhado de um motivo. Evito dar brinquedos de forma gratuita. Além disso, incentivo a aguardarem quando querem algo específico”, diz a médica.

Cada compra também é acompanhada de uma renúncia, pois Adele tem o hábitos de dar os brinquedos não utilizados quando ganham novos. “Eu não tive educação financeira, e isso me atrapalhou em muitos momentos da minha vida. Por isso, acho importante que eles tenham esse ensinamento. Frequentemente, eu me reúno com eles para separar brinquedos para a doação”, relata.

"O amor incondicional dos pais não deve ser integrado à falta de limites. A criança precisa entender que não pode ter tudo e que existe a hora certa, o lugar certo, prioridades e, principalmente, que nem sempre as coisas sairão da forma como ela gostaria"
Anna Oliveira, administradora e autora do livro de finanças infantil Anna e seus cofrinhos
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

Na prática
  • Dê o exemplo: educar para o consumo consciente é dar o exemplo, por isso pais devem evitar gastos desenfreados para ensinar as crianças que elas não devem consumir por impulso e estourar o orçamento familiar no shopping.
  • Diminua a exposição das crianças à publicidade: reduzir o tempo gasto em frente à TV ou na internet é importante para reduzir o assédio mercadológico às crianças, já os meios de comunicação estão repletos de publicidades que incentivam o consumismo infantil.
  • Faça combinados: combinar com as crianças como será o passeio e qual o objetivo antes de sair de casa para idas ao supermercado, ao shopping ou a ruas de comércio pode ajudar muito a reduzir os pedidos por impulso.
  • Evite unir lazer a consumo: nos dias que antecedem o Natal as crianças normalmente já estão em período de férias. Muitos familiares, preocupados com o que fazer para as entreter, levam-nas ao shopping para passear. Isso, porém, pode se revelar uma prática prejudicial à medida que expõe as crianças a um ambiente que incita o estímulo ao desejo de comprar — ainda mais nesta época do ano.
  • Cuidado com as longas listas de presentes: para o público infantil, Natal é sinônimo de longas listas de presentes. Diga às crianças para escolher um item da lista que elas considerem mais bacana, em vez de alimentar a expectativa de que vá ganhar todos. Os pais, as mães e os responsáveis podem também incentivar os filhos a doar brinquedos não usados para instituições que atendam crianças.

Fonte: pediatra Dr. Carius


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