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Correio Braziliense ENCONTRO COM O CHEF

Chef oferece serviços personalizados de gastronomia em casa

A paixão pela gastronomia foi herdada da bisavó, que passou para a avó, para a mãe e, finalmente, chegou a Raquel Amaral. Hoje, ela exerce a profissão em nome das matriarcas


postado em 31/12/2019 12:07

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 
Raquel Amaral é ligada em 220 volts. Quando criança, o único momento em que conseguia parar quieta era quando a avó materna, dona Rutinha, a colocava em cima da bancada da pia para que a menina a observasse cozinhar. “Eu ficava calminha, olhando-a preparar aquela comida caseira e deliciosa. Ainda consigo sentir até o cheiro.” Aliás, a paixão pelas panelas é de família: começou com a bisa, passou para a avó e chegou à mãe — todas excelentes cozinheiras.

Filha de militar, Raquel não passava mais de dois anos em uma mesma localidade. Nasceu em Fortaleza, mas saiu de lá com 18 dias de vida — “nem conheço a cidade”. Logo, a casa de dona Rutinha, na Ilha do Governador, tradicional bairro do Rio de Janeiro, era o seu porto seguro, o lugar para onde voltava em todas as férias e que chamava de lar.

Apaixonada por esportes, Raquel sonhava em ser atleta, mas as constantes mudanças acabavam por atrapalhar os treinos e toda a disciplina exigida. Decidiu, então, cursar educação física. Entrou em uma faculdade no Sul do país e, mais uma vez, o pai foi transferido: desta vez para Brasília. Na capital, chegou a iniciar o curso, mas, depois de dois anos, desistiu. “Eu, o meu namorado à época e dois amigos decidimos que íamos abrir uma empresa de web design e começamos a estudar para isso.”

Ao longo do novo curso, a “sociedade” foi desfeita e, quando faltava apenas concluir uma disciplina para se formar, o pai de Raquel recebeu mais uma proposta de transferência, agora para fora do país. A jovem, então com 20 anos, se mudou com a família para Cascais, em Portugal. O namorado também foi junto. A ideia era passarem um ano, mas, depois de sete meses, a mãe do namorado foi diagnosticada com câncer e os dois anteciparam a volta para cuidar dela.

A sogra ficou bem, mas o namoro, não. Raquel, que já sabia que era gay, decidiu assumir a homossexualidade. A reação da família não foi das melhores e a jovem resolveu sair de casa. Sem dinheiro, se virou como pôde: morou com alguns amigos e passou a trabalhar com a única coisa que, até então, achava que sabia fazer: web design.

Durante nove anos, atuou como terceirizada em ministérios. Nas horas vagas, era a cozinheira oficial dos amigos. Nesse período, conheceu a companheira, com quem casou e está junta há mais de uma década, e se reconciliou com a família. Mas Raquel não estava feliz. “Eu não suportava mais o meu trabalho.”

Guinada na vida

Ao vê-la infeliz, a irmã de Raquel foi certeira: “Por que você não faz o que realmente gosta e vai cozinhar?, sugeriu. “Eu nunca tinha visto aquilo como profissão, fiquei até surpresa. Eu sempre fui a cozinheira dos amigos, aventurava-me em preparar pratos que nunca tinha feito antes, mas era só isso.”

Ela seguiu, porém, o conselho da irmã. Preparou umas marmitas, colocou no carro e parou nas proximidades do Brasília Shopping. Em poucos dias, já tinha uma clientela fiel entre os funcionários da Esplanada. “Eu fazia umas marmitas gourmetizadas, mas cobrava o mesmo preço das tradicionais, à base de arroz com feijão, que eram vendidas por aí. Não tinha lucro nenhum, mas estava pensando no futuro”, admite.

Raquel começou a dizer aos clientes que aceitava encomendas e fazia eventos. Na época, lembra de um episódio que, afirma, funcionou como o primeiro impulsionador da nova carreira. Ela saiu no Correio, ao lado de alguns chefs, em uma reportagem sobre cozinheiros que trabalhavam com serviço personalizado. “Entrevistaram o meu único cliente até aquele momento e ele falou maravilhas sobre o meu trabalho.”

Depois desse dia, choveram encomendas, e Raquel largou as marmitas para trabalhar apenas como personal chef, ofício ao qual se dedica até hoje. Ela faz jantares, almoços, aniversários, miniweddings e os mais diversos eventos. Gosta de criar pratos elaborados, com menu completo, e se sente realizada com a aprovação dos comensais. Faz tudo sozinha. “Levo apenas uma pessoa para cuidar da louça”, garante.

Há três anos, aconteceu o que ela chama de segunda grande guinada profissional: a participação no The Taste Brasil, programa de gastronomia da GNT, comandado pelos renomados chefs Claude Troisgros, Felipe Bronze, André Mifano e Helena Rizzo. A primeira tentativa de entrar no show não deu certo. “Fui procurada por uma espécie de olheiro para me inscrever. Passei por todas as seleções, foram três meses de estresse, mas não fui aprovada na entrevista final.”

No ano seguinte, a esposa e a irmã praticamente empurraram Raquel para o programa novamente. Ela relutou muito, mas como já tinha participado de toda a pré-seleção, precisou fazer apenas a entrevista final. Desta vez, ficou entre os 24 selecionados. No primeiro episódio, o número de participantes é reduzido à metade e ela foi escolhida a integrar o grupo de Helena Rizzo.

“Foi muito aprendizado. Todos os participantes eram feras, muitos com curso no exterior, e eu era a única autodidata”, recorda-se. Já na primeira prova, com outro monstro da gastronomia brasileira, o chef Alex Atala, Raquel saiu vencedora. “A prova era sobre comida brasileira e me veio à cabeça tudo o que aprendi com minha avó Rutinha. Dediquei a vitória a ela.”

Raquel foi desclassificada no quinto episódio, mas ganhou uma oportunidade que ela aponta como terceira guinada profissional: um estágio de cinco meses no Restaurante Maní, de Helena Rizzo — a única mulher brasileira a ter uma estrela Michelin no currículo. “Quando ela soube que eu nunca tinha estudado gastronomia, fez questão de ser minha mentora”, recorda-se.

Longe dos holofotes, Raquel continua com o trabalho personalizado, do qual tanto ama e se orgulha. Em cada trabalho que realiza, lembra-se da avó Rutinha. “Em todos os pratos que eu preparo tem um pouco dela”, emociona-se. Feliz ano-novo!

Pernil de cordeiro assado com cogumelos
 
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Ingredientes
1 pernil de cordeiro de mais ou menos 1,2kg
100ml de vinagre balsâmico
50ml de molho inglês
300ml de vinho tinto
Sumo de 2 limões
2 galhos de alecrim
Sal e pimenta a gosto
250g de cogumelo Paris fresco
50g de manteiga
1 cabeça de alho cortada no meio

Modo de fazer
Em uma assadeira, coloque o pernil e regue com o molho inglês, o vinagre balsâmico, o vinho e o limão. Polvilhe sal e pimenta moída na hora. Coloque as metades de alho com a parte cortada pra baixo e os galhos de alecrim. Cubra com laminado e leve ao forno 160°C por três horas.
Durante esse tempo, fique de olho e não deixe o líquido do fundo da assadeira secar. Caso isso comece a acontecer, coloque um pouco de água durante o processo.
Retire o papel laminado, coloque o forno no máximo, adicione os cogumelos e a manteiga e deixe mais 15 minutos.
Desligue o forno e sirva.

Serviço
Raquel Amaral, personal chef
Instagram: @chefraquelamaral
WhatsApp: (61) 98450-8310

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