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Designers brasilienses se inspiram na arte dos irmãos Campana

Designers da capital federal destacam a relação artística com os Irmãos Campana e a importância de um olhar para as nossas matrizes culturais

ROBERTA PINHEIRO
Roberta Pinheiro
postado em 26/01/2020 12:43
Humberto (E) com Fernando Campana: Os Irmãos Campana, nascidos no interior de São Paulo, têm uma relação afetiva e estética com Brasília. Com três décadas de carreira completadas em 2019, eles se tornaram uma forte influência e referência para uma geração de artistas e designers da capital do país, uma cidade com forte apelo visual e com três ícones: Athos Bulcão, Oscar Niemeyer e Lucio Costa.

;Eles (os Campana) têm essa ideia de representar a cultura brasileira, de trazer a materialidade popular brasileira. Também agregam valor ao lixo, fazem isso há muito tempo, são vanguardistas. Hoje é mais comum, mas foram eles que lançaram e se tornaram uma referência do design mundial. Abriram um pouco esse caminho. É uma vitrine para a gente;, comenta a brasiliense Raquel Chaves, designer, pesquisadora e idealizadora do projeto Mapa Design Brasília.

Para Humberto, o artista tem que ter o olho de uma criança. E revela à Revista do Correio que sempre teve receio de se colocar como um criador. ;Não me considerava uma pessoa apta para ser artista;, relembra, aos risos.

Além das questões estéticas, os Irmãos Campana instigaram o fortalecimento do movimento do design autoral no Brasil. Provocando reflexões com os trabalhos e unindo funcionalidade com peças conceituais, alçaram o design ao limite estético.

O começo

Um espelho de conchas foi o primeiro objeto desenvolvido pelo então advogado Humberto Campana, ainda quando morava em Itabuna (BA). Ao retornar para a capital paulista, o irmão, Fernando, designer e graduado em arquitetura, começou a dar funcionalidade para as esculturas de Humberto nos anos 1980. ;Era o fim da ditadura e a gente queria fazer desenhos com as raízes brasileiras, enxergar o Brasil com o olhar da Lina Bo Bardi (arquiteta modernista ítalo-brasileira, responsável pelo projeto do Museu de Arte de São Paulo), o Brasil da imperfeição, da textura, da mistura de raças;, conta Humberto.

Desconfortáveis batizava a primeira exposição dos irmãos há 30 anos, em São Paulo, e apresentava sofás e cadeiras feitas de chapas de ferro, provocando a impressão não só de desconforto, mas de estranheza. Apesar do pouco sucesso da mostra, os dois davam ali o primeiro passo de um trabalho que é reconhecido como intrigante, inovador e que estabelece com o observador uma relação não convencional pautada na originalidade e na admiração.

Da mesma forma que Brasília, que no primeiro olhar surpreende pelas singularidades ; endereços classificados por letras e números, espaços setorizados, um Eixo Monumental de construções de concreto branco e linhas curvas ; e estabelece com os brasilienses e turistas um novo jeito de morar e se relacionar com o espaço urbano, os Irmãos Campana instituíram uma relação observador/consumidor que segue o mesmo caminho. Tirando o público da zona de conforto ao se deparar, por exemplo, com poltronas feitas de bonecas, bichos de pelúcia, corda ou plástico bolha, eles instigam as pessoas e as convidam a experimentar os objetos.

Hoje, além de parcerias com importantes marcas internacionais, como Fendi, Disney, Louis Vuitton e Lacoste, peças dos brasileiros estão expostas no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa) e no Pompidou, em Paris, por exemplo.

Longe da estética de escolas de design, como a italiana ou a escandinava, e com foco na reciclagem de materiais, produção artesanal dos objetos e ousadia, os irmãos estabeleceram uma nova gramática na concepção de produtos.

Pensar fora da caixinha

Eduardo Borem: ''A preocupação é se estou entregando um bom trabalho''
Eduardo Borém, hoje morando na Áustria, lembra o dilema entre largar a banda Móveis Coloniais de Acaju e seguir a carreira de designer. ;Humberto me disse que tudo é criatividade. Ele me incentivou a olhar para o mundo criativo como uma coisa só;, conta Eduardo. Formado em desenho industrial pela Universidade de Brasília (UnB), o jovem estava diante de um impasse: seguir a carreira de músico ou de designer?

Passou alguns anos com a banda e, nos últimos seis anos, voltou ao design, mas sem deixar de lado esse caráter multidisciplinar e criativo dos projetos. ;Não precisa estar dentro da caixinha. Pode ser design, música, fotografia, texto, poesia, artes visuais. A preocupação é se estou entregando um bom trabalho e se ele está adequado para a função que vai exercer;, explica.

Eduardo teve a oportunidade de atuar com os Irmãos Campana em dois momentos. O primeiro foi na montagem da exposição sobre o trabalho da dupla de designers em Brasília, em 2003, e o segundo, quando convidado para desenvolver a cenografia da mostra dos irmãos na Bienal de Lisboa. ;Foi logo no início da carreira. Sou muito grato por ter experiências tão profundas e marcantes.

Do ponto de vista do trabalho, o designer entendeu com os Campana que poderia ir além da função de um determinado objeto e vê-lo em várias camadas. ;Muitas vezes, a peça terá uma função muito mais de provocar uma discussão, de trazer o olhar para coisas que não são vistas. Essa talvez seja a grande contribuição dos Irmãos Campana para o design brasileiro, a função mais reflexiva;, avalia.

Assim como os paulistas, Eduardo tenta olhar para os materiais e expressar diferentes funções. ;É uma forma de reflexão do que a gente pode pensar para o futuro também. Não há outra saída, não temos mais o privilégio de não pensar no futuro;, comenta, sobre a relação do design com a sustentabilidade.

Experimentação do material

Nina Coimbra e Thiago LucasUnidos pela causalidade e, principalmente, pelo uso de materiais que haviam sido descartados, os designers Nina Coimbra e Thiago Lucas fundaram o Estudio Polpa. Nina tem formação em artes plásticas e um curso técnico em restauração e conservação de arte. ;Enquanto restauradora, meu pensamento vai muito a partir da beleza e do respeito à ação do tempo sob as coisas. O tempo conta muita história;, comenta.

Thiago, por sua vez, é bacharel em design pela UnB e realizou um trabalho de mobiliário, com reaproveitamento de madeira, com a cooperativa Sonho de Liberdade, da Estrutural. ;É uma forma de pensar o design de maneira menos destrutiva para o mundo. Sai da parte industrial e entra no aspecto mais artesanal. O material inicial me diz o que precisa ser feito. Ao mesmo tempo que é limitador, por já estar ali, expande o processo criativo. É uma restrição positiva, benéfica, que faz sentido. Aquele material já teve um caminho, uma história. Eu entro dentro desse processo já iniciado e consigo criar nele novos benefícios, não só o destrutivo de gerar mais lixo;, detalha.

Juntos, os dois partem da experimentação do material para a concepção da forma, seja ela traduzida em um móvel, uma cenografia ou qualquer outro formato possível. Algo que encontraram no trabalho dos Irmãos Campana. ;Olhar para eles foi perceber que a gente não precisa se moldar. Os irmãos conseguem se divertir e eu tenho a sensação de que falta isso na indústria. Eles não seguem tendências. São chamados por aquilo que fazem, sabem que vão fazer algo extraordinário, que não tem nada repetido, vão subverter;, afirma Thiago. ;O design contemporâneo brasileiro de mobiliário é muito influenciado por eles e não tem quem traduza melhor o que é brasilidade como eles;, complementa Nina.

Assim como os Campana, o Estudio Polpa enxerga o trabalho como obra de arte, em camadas de significado, cheias de histórias. Uma das últimas ações foi em conjunto com uma cooperativa de catadoras de lixo no Varjão. ;Passamos um semestre inteiro com elas. As catadoras selecionavam o material e a gente dava ideia de outros usos, mostrávamos que poderia ser uma matéria-prima para o design;, lembra Nina. É uma forma que os dois encontraram de traduzir os conceitos e os valores que acreditam: um design moderno, esteticamente bem resolvido, que gera uma economia justa, uma cidade sustentável e com colaboração em projetos sociais.

Identidade brasileira

Flavia Amadeu e seus trabalhos: foco na questão da sustentabilidade
Se os Irmãos Campana têm uma linguagem local e, ao mesmo tempo, global, a designer Flavia Amadeu ressignificou a borracha colorida vinda da Amazônia, em joia premiada na Europa. Identidade brasileira, impacto social e sustentabilidade são questões que estão intimamente ligadas ao trabalho da brasiliense. Ela desenvolve, com produtores e artesãos do coração da floresta, a matéria-prima para as joias a partir da borracha nativa.

;Logo no início da minha trajetória, percebi que esse era o meu caminho, trabalhar com a questão da sustentabilidade, da questão social, do design brasileiro, do artesanato. E eles (os Campana) estavam bem ali, nesse espaço de um design que tem a identidade nacional, que carrega tudo isso, mas, ao mesmo tempo, tem uma qualidade, um acabamento e um refinamento. Eles colocam aquela expressão popular, os materiais, em um outro patamar e isso é uma característica que sempre busquei;, relembra a designer.

Inspirada em aspectos conceituais e intelectuais dos Irmãos Campana, Flavia desenvolveu, nos segmentos do design de joias e da moda, a brasilidade atrelada à sustentabilidade e ao singular. O trabalho da brasiliense percorreu o mundo e, hoje, é vendido no Masp e em importantes lojas de São Paulo e do Rio de Janeiro.


Entrevista / Humberto Campana

Como definir o trabalho dos Irmãos Campana e o Brasil que ele representa no exterior?
Procuro fazer fotografias do Brasil, valorizar o que é cultura popular, a nossa natureza, as paisagens que a gente tem, paisagens de pessoas, de gestos, de texturas, de cores, da mistura de cores e de raças. Essa é a nossa modernidade. Busco traduzir o Brasil moderno, com orgulho das raízes, não querendo ser quem eu não sou. Quando você fala do seu quintal, você comunica global. Esse Brasil que a Lina Bo Bardi via, que Burle Marx via pelas plantas e trazia espécimes da Amazônia para os jardins. É isso que eu e o Fernando tentamos traduzir.

Como se dá a escolha do material do trabalho de vocês?
Tudo nasce sempre dos materiais, são como personagens procura de um autor. Eles que foram nos indicando e dirigindo a função e a estética. Eles que nos escolhem. Em qualquer lugar que vou, eu fico com o olhar atento a tudo e aí vejo um material, compro, levo para o meu estúdio, para a minha sala e fica um flerte. Demora, às vezes, uma semana, um mês, 10 anos e um dia a ficha cai. Ele fica desafiando, buscando um autor.

O que atrai mais?
Gosto de materiais naturais, tenho um respeito pela natureza, porque você não está criando mais lixo ; isso me incomoda muito ; porque hoje a gente precisa resolver todas essas questões, repensar, recuperar tradições que estão desaparecendo e o Brasil é rico nisso, na tradição manual, tudo me interessa. Acho que esse é o nosso museu. A Amazônia é o nosso Louvre, o Pantanal, os Lençóis Maranhenses, Fernando de Noronha. Tudo tem que permanecer como está, intocado, é a nossa história, não pode mudar. Precisamos inverter os hábitos, construir arquitetura com a natureza, porque acho que o futuro é isso, a natureza a favor da cidade, da arquitetura, do homem e não destruir a natureza.

Por que olhar para as tradições populares, para o interior?
Tenho essa alma caipira, nasci no interior. Acho que eu e o Fernando fazemos a tradução entre o rural e o urbano pela vivência no campo. Eu fazia casas em árvores feitas de bambu.

O trabalho de vocês não tem uma linguagem única, ele é multilinguagem. São vários materiais, vários suportes e plataformas. O que definem primeiro, a ideia e depois o suporte que melhor traduz o conceito? Como funciona?
Não sou intelectual, sou de fazer, sou da mão e de observar. Observo a vida, observo os lugares e faço fotografias. O que me interessa no objeto não é o objeto em si, é o processo de colocar alma no objeto, de colocar vida. Não sei se eu sou designer, artista, gosto de ser livre e não ficar numa caixa. Este século é para fazer pontes e não criar limites. Sou inquieto, procuro sair sempre da minha zona de conforto. Não sou uma pessoa muito relaxada. Estou sempre à procura, é o que me mantém vivo, resistente e com esperança.

Como começou e como se desenvolve o trabalho do Instituto Campana (que utiliza o design como ferramenta de transformação social), hoje com 10 anos?
Começou espontaneamente, com o trabalho da poltrona de bonecas. Fiquei sabendo das mulheres de Esperança, na Paraíba, que criavam as bonecas e começamos a comprá-las. Hoje, nós procurarmos ONGs que possam fazer logísticas semelhantes. O que nos interessa é a economia circular com essas pessoas. A ideia é que nosso trabalho ajude a mudar a vida deles. A gente ganhou tanto, recebemos tanto do universo, por que não retribuir?

Quais são os desafios agora?
Fazer o instituto crescer, ter uma sede, fazer um pequeno museu, com exposições de outros jovens designers, sejam eles brasileiros ou de fora. Manter a nossa memória e trabalhar com comunidades, porque isso me instiga, me dá mais vontade, não tem dinheiro que pague.

Acredita que tenham outros Irmãos Campana por aí?
Tem vários. O Brasil está cheio de Irmãos Campana. Acho que a gente abriu portas para uma geração e, hoje, o design não se restringe só ao Sul, ao Rio de Janeiro, a São Paulo. É Ceará, Amazonas. A comunicação tornou isso possível.

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