Publicidade

Correio Braziliense ESPECIAL

Grupos brasilienses de mulheres mostram que juntas são muito mais fortes

No Dia da Mulher, a Revista apresenta histórias de grupos que debatem a questão feminina, se ajudam e enfrentam a vida com vigor


postado em 09/03/2020 17:12 / atualizado em 09/03/2020 17:16

Mulheres do grupo Elas se reúnem para acolher umas às outras, resgatar a autoestima e praticar a sororidade.(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Mulheres do grupo Elas se reúnem para acolher umas às outras, resgatar a autoestima e praticar a sororidade. (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Quem nunca ouviu que “mulher só se junta para fofocar”, que “mulheres se vestem para outras mulheres” e que a competição por homens, entre elas, é natural? Na realidade, ataques como esses não passam de desculpa para excluí-las e desvalorizá-las.

No livro O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras, publicado em 2000, Bell Hooks escreveu: “Nós todas sabíamos que tínhamos sido socializadas como fêmeas, pelo pensamento patriarcal, para nos vermos como inferiores aos homens, para nos vermos sempre, e somente, em competição umas com as outras pela aprovação, para olhar sobre as outras com inveja, medo e ódio. O pensamento sexista nos fez julgar umas às outras sem compaixão e nos punirmos duramente.”

A professora Susane Rodrigues, do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB), explica que a competição atribuída ao sexo feminino não é recente. “A ideia de que as mulheres são naturalmente mais fúteis começou na passagem da Antiguidade para a Idade Média, em que se passou a colocar sob suspeita todo e qualquer vínculo entre mulheres. Ganhou força a ideia de que elas competiam, principalmente, por homens, e por isso seriam incapazes de fidelidade e amizade verdadeira umas com as outras. Tais imagens causaram desconfiança e destruição desses laços.”

Em contrapartida à suposta rivalidade instintiva entre as mulheres, muitas se unem com o objetivo de se ajudarem, de evoluírem juntas e de colocar em prática um termo que anda muito na moda — embora tenha surgido na década de 1970, na terceira onda do feminismo: a sororidade. Soror, do latim, significa “irmã”.

De pronúncia enrolada, significa a aliança entre mulheres, baseada na empatia e no companheirismo. Para se ter noção, de 2009 a 2019, as buscas por sororidade na página do Google no Brasil cresceram 418 vezes.

Confira alguns exemplos de relacionamentos frutíferos entre mulheres e que mostram que, unidas, elas são muito mais fortes.
 

Não é “mi-mi-mi” 

 
Em círculos de conversas periódicas, todo tipo de assunto entra na roda. É momento de desridicularizar temas como a insegurança em relação ao corpo, relacionamentos frustrados, fases de mudanças e até a tensão pré-menstrual,  que tanto tangenciam — e desfiam — o ser mulher.

Segundo a psicóloga Sâmia Simurro, vice-presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida, quando mulheres estão exclusivamente entre mulheres, fora do campo da competição e da superficialidade, conseguem aprimorar sensibilidades e amadurecer o potencial que têm.

A especialista explica que esse pode ser um grande diferencial no meio profissional e quando elas atingem cargos de liderança. Mulheres que conversam com outras mulheres e ficam à vontade para partilhar de tudo conseguem lidar melhor com conflitos, ficam mais próximas de seus propósitos de vida - pessoal e profissional — e trilham caminhos mais fidedignos ao que desejam.

Muitas vezes, mergulhadas no patriarcado, silenciamos chances de empoderar as mulheres, ao vermos aquela colega de trabalho como uma ameaça. Mesmo sem perceber, ainda estimulamos algumas desigualdades. Mas quando mulheres, em qualquer situação, passam a se respeitar mutuamente, quando escutamos umas às outras, a rivalidade se torna cada vez menos frequente”, acrescenta.

Na visão da professora Susane Rodrigues, do Departamento de História da UnB, não é por acaso que os movimentos feministas ainda são vistos, por vezes, de modo estigmatizado. “É justamente porque conseguem unir as mulheres em torno de valores únicos, que promovem nossa autoestima e um senso de comunidade, o que é uma ameaça.”


Espaço de fala e de escuta 


“Chega uma hora que faz falta conversar, sem ter um dedo apontando para a gente, não é?” Antes de Eloia Moreira, de 56 anos, produtora de conteúdo, fundar um grupo de apoio a mulheres — onde pode, finalmente, conversar sem julgamentos —, enfrentou um divórcio e se distanciou do único filho, depois que ele casou. Na mesma época, Eloia adoeceu. Por causa do tratamento desgastante contra Hepatite C ao qual foi submetida, ela passava a maior parte do tempo em casa.

“Tudo isso poderia ser motivo para eu desanimar. Tanto que me vi perdendo várias amigas para a depressão.” Na época, à medida que amigas passavam na casa de Eloia, ela pôde observar algumas similaridades: mulheres que andavam inseguras, carentes, sentindo o pesar da síndrome do ninho vazio, algumas divorciadas.

A cada conversa, era um “clique” na cabeça: era preciso abraçá-las e estimular, em cada uma dessas mulheres, o que elas tinham de melhor, independentemente da idade. Assim, deu-se início às ações do Elas +, grupo feminino que já reúne 156 integrantes, a maioria entre 40 e 70 anos. Apesar de não terem um espaço físico fixo, se comunicam constantemente pelas redes sociais e, quando preciso, alugam algum espaço para realização de atividades diversas, como workshops.

Elas dividem receitas de pratos, dicas de organização financeira, tiram dúvidas sobre questões hormonais, fazem aromaterapia e até planejam idas ao sex shop. Para elas, é uma oportunidade de dar atenção àquilo que sempre ficava para depois, por causa da correria da vida. O objetivo principal é resgatar a autoestima. Eloia coloca o próprio exemplo à disposição. “Eu mesma fui casada por 25 anos e passei a maior parte desse tempo trabalhando. A gente acaba carregando alguns bloqueios durante a vida. Me incluo nessa.”

No fim deste mês, o grupo lançará um calendário em que as modelos serão elas próprias. Mulheres de 19 a 82 anos aparecerão nas páginas. O objetivo é resgatar a autoestima. “Nessa história do calendário, a graça é mostrar como elas realmente são. Uma das integrantes, a Rose, tem um salão, então aproveitamos e fazemos maquiagem e cabelo lá. Caprichamos na roupa e pronto. Nisso, elas se veem como há tempos não se viam e se abrem. Nesses encontros para a produção, descobri gente que havia sido machucada pelo marido e que precisava muito desse acolhimento real, falar e ter quem escute. Então significa muito.

A renda da venda dos calendários tem finalidade social e será usada para apoiar duas empreendedoras iniciantes. Uma tem um pequeno quiosque de costura, a outra vende doces e precisa regularizar o negócio. Elas estão sempre segurando a mão uma da outra e se ajudando nos momentos em que mais precisam, da maneira que podem — um grupo com mulheres de perfis tão diferentes, mas que compartilham da vontade de se solidarizar.

O universo do feminino

Gabriele Oliveira Sridevi é mediadora de um grupo de sagrado feminino em Brasilia.(foto: Mariane Silva/Esp. CB/D.A Press)
Gabriele Oliveira Sridevi é mediadora de um grupo de sagrado feminino em Brasilia. (foto: Mariane Silva/Esp. CB/D.A Press)

 
Gabriele Oliveira se interessou cedo pela prática da meditação e o funcionamento dos chakras, por influência da mãe. Mas se jogou de vez em exercícios que a aproximassem da própria essência depois do diagnóstico de síndrome dos ovários policísticos, que provocava alterações hormonais fortíssimas. Acreditando que nenhuma doença se limita ao físico, ela pensou que intensificar essas práticas poderia ser uma saída para fazer o corpo melhorar. De fato, hoje, ela pode se considerar curada.

Mediadora do grupo Cura do Feminino, Gabriele passou a viajar com alguma frequência para estudar sobre a cultura oriental e práticas milenares, como a medicina ayurveda e a filosofia chinesa do Tao. Ela conta que, mesmo em momentos de partilha feminina nesses outros países, que reúnem mulheres de diversas culturas, percebe que todas têm desejos e dúvidas superparecidos, do Brasil ao Camboja.

Ela propõe a realização de círculos femininos para um mergulho no silêncio interior e um (re)encontro com a essência feminina e com a ancestralidade. As práticas são guiadas em grande parte pela filosofia do sagrado feminino, que tem se popularizado nos últimos anos, em sintonia com o fortalecimento de ideais feministas.

Dependendo da mestre, o método sofre mudanças. Mas a ideia geral desse estilo de vida é tomar consciência — e abraçar — tudo que é feminino. A volatilidade de humor natural em razão dos hormônios e ciclos femininos, a menstruação e o poder de gestar.

No grupo, as reuniões podem durar horas. As mulheres meditam, dançam, fazem exercícios de respiração, conversam. Para trazer essa vivência para o dia a dia de forma simplificada, Gabriele sugere alguns passos.

Primeiro, o poderosíssimo estar entre mulheres. Segundo, optar por produtos naturais, na contramão da venda de cosméticos a todo custo, mesmo que carreguem substâncias duvidosas, e o consumo de alimentos ultraprocessados. Quanto mais natural possível, melhor. Em seguida, recomenda a meditação. Vale forçar até virar hábito.

Silêncio

 

Elas também exercem o poder do silêncio, que trabalha muito o ego. “Estamos acostumadas a chegar em casa e ligar a televisão, de forma mecanizada. Entrar no carro e ouvir o rádio. Se estamos malhando, escutamos música. Por vezes, só precisamos deixar silenciar para o que há de mais bonito se manifestar.”

Outro conceito importante do grupo é a relação do ser mulher com as fases da lua e outros elementos naturais. “É pensar que nós somos natureza e que nossos corpos não se comportam diferente de outros ciclos. Se pensarmos por essa lógica, a lua cheia é tempo de extroversão, de traçar novos planos. Por outro lado, quando ficamos mais introvertidas, isso pode ser justificado pela lua nova, que mal consegue ser vista. Existe uma série de analogias.”

A ginecologia feminina e o corpo num todo sentem os efeitos do processo. Gabriele conta que já recebeu mulheres que queriam muito engravidar, mas não conseguiam. Foi o caso da servidora pública Andreya Mota, de 34 anos. Mesmo com bons resultados nos exames médicos, ela e o marido não conseguiam engravidar. Chegaram a perder um bebê. Andreya acredita que era por viver no automático que as tentativas eram todas comprometidas.
 
Depois de se aprofundar na meditação e em outras práticas saudáveis diárias, inclusive de partilha com outras mulheres, se sentiu mais leve de pressões externas. “Me abri para um novo ciclo. Mudei minha visão sobre as mulheres e entendi a importância da sororidade e da empatia.” Como resultado dessa melhor relação com as próprias emoções, Andreya já está no quarto mês de uma gestação saudável.
 

Grupo terapêutico 

Devamani (vermelho), Fernanda Palmerston (marrom) e Izzah Mariann Toth trocam experiências e vivências no Mulheres Essenciais, um grupo exclusivamente feminino que tem justamente esse propósito.(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Devamani (vermelho), Fernanda Palmerston (marrom) e Izzah Mariann Toth trocam experiências e vivências no Mulheres Essenciais, um grupo exclusivamente feminino que tem justamente esse propósito. (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

 
Izzah Mariann Toth, terapeuta, 41, participou do grupo Mulheres Essenciais e acabou tornando-se uma das facilitadoras dele. Nele, trabalha-se com a psicoterapia corporal, com a metodologia core energética. “Trabalhamos as emoções que estão no corpo, liberando todas as couraças”, explica Izzah. Depois do movimento do corpo, há o colo, que é uma roda de partilha para as participantes do grupo se expressarem sem receberem julgamentos, feedbacks, ou conselhos.

No total, são quatro facilitadoras. Cada uma delas em um momento da vida. Izzah tem dois filhos e está casada há quase 20 anos. Fernanda Palmerston, 28, é recém-casada. Devamani, 36, espera sua primeira filha. E Leena, 55, já tem netos. “Nós representamos quatro arquétipos da deusa, várias fases. Dessa forma, o que fazemos aqui é uma construção coletiva, uma parceria com várias formas de ver as coisas, o que enriquece muito”, afirma Izzah.

Fernanda esclarece que não se trata de um grupo terapêutico, mas de vivências, e que acaba sendo terapêutico até para elas. Mas ela explica que o grupo não parte de um esquema idealizado de união entre as mulheres. “A rivalidade entre as mulheres é, inclusive, um tema que acaba perpassando os encontros e a gente procura levá-las a perceber isso e criar outro padrão, porque ali, todas percebem que cada uma tem suas questões, suas dificuldades”, afirma Fernanda.

Ela acrescenta que toda competição parte de uma ideia ilusória da outra e, entendido isso, consegue-se deixar isso de lado e focar no que a outra pode nos ajudar a melhorar.

O grupo também trabalha com o sagrado feminino, que seria tudo aquilo que define a mulher como tal. Devamani explica que algumas definem o conceito como delicadeza, outros, como força, já que a mulher é capaz de parir.

“Nós queremos despertar em todas aquilo que nos faz ser mulheres e que aprendamos a lidar com as desigualdades, com o machismo e com os nossos ciclos, ainda que isso não seja cultural”, afirma a terapeuta Devamani, 36.

Contexto


Ela alerta para a cilada de pensar no sagrado feminino como um estado de espírito zen. “Essa é outra armadilha, porque todos temos dificuldades no dia a dia. Como eu vou ser esse ser idealizado? A mulher tem que se adequar ao seu contexto”, explica Devamani. Para isso, o grupo questiona certas atribuições dadas às mulheres: “tem que cuidar”, “tem que ser boazinha”, “tem que dizer sim sempre”. “A ideia é que as mulheres tirem essas máscaras criadas culturalmente e entendam que podem sentir raiva, se sentir poderosas. Não precisa ficar congelada, porque isso não é real. É uma busca por autoconhecimento”, afirma Fernanda.


Para elas, o autoconhecimento tem a ver com o contato com o próprio corpo e com o movimento do corpo. “Nós pegamos nas nossas pernas, nos nossos braços, se sente e resgata amorosidade com nós mesmas, o respeito pelo que queremos, pelo que sentimos”, explica Izzah.
 

Serviço

 

Cura do Feminino
Evento: Workshop “Despertar do Feminino” & Meditação da Lua Cheia
Data: 10/03 (terça-feira)
Horário: 19h30
Local: Espaço Astrea, na SHIS QI 26
Novos cursos a partir de 17/03
Confira o site para saber mais sobre a agenda: www.curadofeminino.com
Instagram: @curadofeminino

Mulheres Essenciais
Data de início: 26/3/2020 (quinta-feira), com encontros quinzenais
Horário: 19h30
Local: Espaço Soma, na 914 Norte, dentro do ColéGio Arvense
Inscrições pelo site: https://linktr.ee/mulheres.essenciais
Instagram: @mulheres.essenciais
Vagas limitadas
 

Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira* 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade