Revista

O isolamento social desperta solidariedade dos brasilienses

O recolhimento necessário para evitar a disseminação do coronavírus desperta vários sentimentos: o melhor deles é a solidariedade

Renata Rusky
postado em 29/03/2020 10:00
Os irmãos Theo e Ilza Santos receberam a solidariedade do vizinho Luiz Motta
Em meio à pandemia do coronavírus, muitos correram para se abastecer de álcool em gel, máscaras descartáveis e alimentos em geral, esgotando os produtos, impedindo que outros pudessem comprar. As críticas a esse comportamento foram muitas. Mas, se por um lado houve atitudes desesperadas e egoístas, por outro, muitos brasilienses manifestaram solidariedade e preocupação com os próximos dignas de aplausos.

As pessoas demonstraram não estar preocupadas apenas com a própria saúde, bem-estar e situação financeira, mas também com a dos outros. Além do comprometimento em ficar em casa (essencial para evitar a disseminação do coronavírus), não faltaram iniciativas para ajudar uns aos outros, seja economicamente, com um pouco de tempo, com serviços e até com dinheiro.

Na vizinhança


Embora Brasília tenha a fama de ter vizinhos que não se relacionam e sequer cumprimentam com ;bom dia;, ;boa tarde; ou ;boa noite;, moradores mais jovens e saudáveis de muitos prédios e condomínios dispuseram-se a ir ao mercado e à farmácia para aqueles a quem sair de casa seria um grande risco, como idosos e pessoas com comorbidades diversas.

No último domingo (22/3), o morador da Asa Sul Luiz Motta, 50, servidor público, foi ao mercado para o vizinho Théo Santos, 77, aposentado, que mora dois andares acima do dele e da família. Luiz espalhou flyers se propondo a ajudar e recebeu o pedido do senhor, que mora sozinho com a irmã Ilza, que tem mais de 89 anos.

Ele mudou-se do Rio de Janeiro para a capital há quatro anos, a convite dela. ;Ela precisava de alguém para ajudá-la a gerenciar a casa. Como nenhum de nós casamos, somos muito ligados e sempre nos demos bem, concluímos que seria mais fácil;, conta Théo.

Ele já havia morado aqui em 1963. ;A cidade era uma aldeia. Só tinha a W3;, relembra. De volta, com a capital tão grande, e com o isolamento social atual, os dois dependeriam de sobrinhas que moram longe da Asa Sul. ;Quando eu vi (a mensagem de Luiz), achei ótimo, porque era melhor do que esperar um amigo de Santa Maria ou a sobrinha de Águas Claras;, pondera. Além disso, Théo não tem o costume de fazer compras pela internet.

Na assinatura do flyer: Luiz e Mariana. É a filha dele, de 10 anos, que faz questão de ajudar. Como a recomendação é para que saiam de casa o mínimo de pessoas possível, a função dela é ficar a postos para atender o interfone, caso toque. Théo notou a voz infantil, mas só soube de que se tratava, de fato, de uma criança, quando conversou com a Revista.

Théo e Luiz não se conheceram pessoalmente. Todo o trâmite foi feito no hall do edifício. O aposentado deixou um envelope com dinheiro e Luiz retornou com as compras em uma caixa e a nota fiscal. Os dois não tiveram contato físico, para garantir que não houvesse contágio. Segundo Luiz, a região tem muitos idosos que podem precisar, então, ele se prontificou. ;A gente tem que se unir como sociedade. Não dá pra só esperar do governo e não fazer nada;, defende. Para Théo, que não conhece quase ninguém do prédio, ; em contraposição a onde morava no Rio de Janeiro, onde conhecia todo mundo ; há males que podem vir para o bem. E ele acredita que essa crise pode ser esse caso: ;Talvez isso faça a gente repensar as coisas e criar um mundo diferente, menos materialista e egocêntrico;.

Bruna Pinheiro, 52, funcionária pública, e o marido estão dispostos a fazer o mesmo, no Park Sul. Eles decidiram reproduzir a ideia que viram na internet. Conversaram com a síndica do condomínio e passaram a oferecer, no grupo de WhatsApp dos moradores, o serviço de ir ao mercado e à farmácia para quem não pudesse, por estar no grupo de risco da Covid-19. ;Rapidinho várias outras pessoas se voluntariaram;, comemora Bruna. Até então, só uma senhora entrou em contato perguntando como seria o pagamento. Ela acredita que, com o passar dos dias em quarentena, essa mulher e muitas outras a procurem.

A servidora costuma praticar a solidariedade na igreja, com trabalhos em creches e distribuindo sopa na rua. Mas, para ela, atitudes como a dela, neste momento, são ainda mais importantes: ; A gente vê tanta gente, agora, sendo egoísta, acabando com estoques de produtos que todo mundo precisa;. Ela admite que a única moradora idosa que conhece no condomínio é a vizinha de porta, mas a situação é atípica e muitos vizinhos interagem. ;Como aqui é grande e tem salão de beleza, atividades esportivas em grupo, acaba que fazemos amizade;, explica.


Dividindo o prejuízo

Alessandra Espírito Santo e Gabriel Fernandes continuam pagando pelos serviços de profissionais liberais durante a quarentena

Alguns dos grandes afetados pela pandemia são os profissionais autônomos, que cobram por hora de serviço ou por tarefa. São manicures, personal trainers, massagistas, diaristas e inúmeros outros trabalhadores que estão sentindo no bolso os efeitos do vírus que levou a população a se isolar dentro de casa.

Para Alessandra Espírito Santo, 41, funcionária pública, uma das formas de fazer um bom uso de seu privilégio é continuar pagando os profissionais liberais que costumava contratar semanalmente. ;É uma forma de dividir o prejuízo;, afirma. Alguns dos serviços que contratava semanalmente são manicure e pedicure, diarista, professor de dança. Ela faz questão de pagá-los durante o período da quarentena. ;Enquanto eu puder, eu vou continuar, porque é aquela agonia de pensar como essas pessoas vão viver com tudo parado;, lamenta.

Nas últimas semanas, ela tinha agendado serviços de cabeleireiro e manicure, mas suspendeu, por conta do isolamento social recomendado. Mesmo assim, pagou pelos procedimentos que faria, ainda que pudesse, simplesmente, cancelar. O isolamento de Paula de Melo Maia, 30, administradora e digital influencer, começou mais cedo do que para a maioria. Tinha voltado do Egito e de Portugal havia 14 dias e estava com sintomas de gripe. Dispensada do trabalho até que tivesse o exame certificando de que não estava com a Covid-19, ficou em casa sem contato com ninguém por 48 horas, até que o resultado saísse. Para o alívio dela, negativo. Depois da apreensão vivida, resolveu tomar a medida de isolamento imediatamente. E incluiu a diarista nisso: dispensou a profissional cerca de uma semana antes de a maioria das pessoas se recolherem em casa. No entanto, fez questão de continuar pagando o valor da diária. ;Eu estou trabalhando em casa e não vou ter o meu salário reduzido. Inclusive, enclausurada em casa, eu estou gastando menos, então, não me custa fazer isso por ela;, afirma.

Ela admite que não tem como saber se a profissional está, de fato, ficando em casa, mas entende que está fazendo a parte dela. Além da dispensa remunerada, também fez questão de conversar com a funcionária sobre a gravidade da situação e tentar esclarecer por que é importante não se expor. ;Perguntei sobre a família dela, se ela tinha parentes mais velhos, expliquei que se muita gente pegar a doença, o sistema de saúde não vai conseguir atender a todos;, conta.

Na rua, com amor

Catarina e Victoria Henriques (no primeiro detalhe), e as amigas do projeto QuarenteneamorNa última segunda-feira (23/3), um grupo de sete jovens doou 200 marmitas a moradores de rua do Setor Comercial Sul (SCS), graças à contribuição em dinheiro de brasilienses. ;A ideia é ajudar em duas pontas. Fizemos um projeto para ajudar tanto o pequeno empreendedor, que está sofrendo muito nesta fase, quanto os moradores de rua;, explica Catarina Henriques, estudante de medicina e uma das idealizadoras do ;Quarenteneamor;.


Com todos dentro de casa, não há quem dê qualquer moeda a quem mora na rua. Por isso, Catarina e a irmã Victoria Henriques, advogada, tomaram essa iniciativa. Em especial, depois de verem um vídeo sobre a situação dessa população no Rio de Janeiro. Entenderam que aqui não seria diferente. O SCS, por exemplo, sempre cheio de pessoas indo e vindo, agora está deserto.

As duas irmãs resolveram, então, chamar cinco amigas que têm o histórico de se mobilizar para ajudar o próximo e começaram a divulgar o projeto. Em menos de três dias, conseguiram mais de 600 seguidores no Instagram. Além da parceria com um pequeno restaurante que faz as marmitas, também contaram com o apoio de Rogério Barba, um ex-morador de rua engajado na qualidade de vida de quem vive na rua. É ele quem, de fato, entrega as marmitas.

Com o sucesso do Quarenteneamor, elas, agora, planejam entregar marmitas em outros locais que também carecem.

Os autônomos

Lauana Moura e família se preocupam com os profissionais que vendem lanches em frente à escola das crianças
Quando as aulas foram suspensas, por meio de decreto do governador Ibaneis Rocha, no dia 11 de março, e, em seguida, com o isolamento ficando mais forte, a servidora pública Lauana Moura, 44, se preocupou com a situação dos ambulantes que ficam na frente da escola do filho, onde a filha mais velha também já estudou. A família conhece o vendedor de pipoca há muitos anos e sabe que a mulher dele tem a mesma atividade em outra escola. Nos fins de semana, eles trabalham em festas, que também estão suspensas desde que a crise do coronavírus começou.

Como Lauana participa de um grupo de WhatsApp com mães de ex-alunos, por conta da filha, e de outro de atuais alunos, por causa do filho, decidiu mandar mensagens em ambos expondo a situação do profissional e pedindo ajuda. ;Eu me surpreendi, porque todo mundo abraçou a ideia. Logo uma conseguiu o número da conta dele e todos ajudaram como puderam.

;O que está acontecendo, eu vejo como um problema de todo mundo. Mais para frente, de acordo com o tanto que demorar para tudo se normalizar, ajudamos de novo;, garante.



Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação