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Correio Braziliense

O isolamento social desperta solidariedade dos brasilienses

O recolhimento necessário para evitar a disseminação do coronavírus desperta vários sentimentos: o melhor deles é a solidariedade


postado em 29/03/2020 10:00 / atualizado em 04/04/2020 12:22

Os irmãos Theo e Ilza Santos receberam a solidariedade do vizinho Luiz Motta(foto: Arquivo pessoal)
Os irmãos Theo e Ilza Santos receberam a solidariedade do vizinho Luiz Motta (foto: Arquivo pessoal)

 
Em meio à pandemia do coronavírus, muitos correram para se abastecer de álcool em gel, máscaras descartáveis e alimentos em geral, esgotando os produtos, impedindo que outros pudessem comprar. As críticas a esse comportamento foram muitas. Mas, se por um lado houve atitudes desesperadas e egoístas, por outro, muitos brasilienses manifestaram solidariedade e preocupação com os próximos dignas de aplausos.

As pessoas demonstraram não estar preocupadas apenas com a própria saúde, bem-estar e situação financeira, mas também com a dos outros. Além do comprometimento em ficar em casa (essencial para evitar a disseminação do coronavírus), não faltaram iniciativas para ajudar uns aos outros, seja economicamente, com um pouco de tempo, com serviços e até com dinheiro.

Na vizinhança


Embora Brasília tenha a fama de ter vizinhos que não se relacionam e sequer cumprimentam com “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”, moradores mais jovens e saudáveis de muitos prédios e condomínios dispuseram-se a ir ao mercado e à farmácia para aqueles a quem sair de casa seria um grande risco, como idosos e pessoas com comorbidades diversas.

No último domingo (22/3), o morador da Asa Sul Luiz Motta, 50, servidor público, foi ao mercado para o vizinho Théo Santos, 77, aposentado, que mora dois andares acima do dele e da família. Luiz espalhou flyers se propondo a ajudar e recebeu o pedido do senhor, que mora sozinho com a irmã Ilza, que tem mais de 89 anos.

Ele mudou-se do Rio de Janeiro para a capital há quatro anos, a convite dela. “Ela precisava de alguém para ajudá-la a gerenciar a casa. Como nenhum de nós casamos, somos muito ligados e sempre nos demos bem, concluímos que seria mais fácil”, conta Théo.

Ele já havia morado aqui em 1963. “A cidade era uma aldeia. Só tinha a W3”, relembra. De volta, com a capital tão grande, e com o isolamento social atual, os dois dependeriam de sobrinhas que moram longe da Asa Sul. “Quando eu vi (a mensagem de Luiz), achei ótimo, porque era melhor do que esperar um amigo de Santa Maria ou a sobrinha de Águas Claras”, pondera. Além disso, Théo não tem o costume de fazer compras pela internet.

Na assinatura do flyer: Luiz e Mariana. É a filha dele, de 10 anos, que faz questão de ajudar. Como a recomendação é para que saiam de casa o mínimo de pessoas possível, a função dela é ficar a postos para atender o interfone, caso toque. Théo notou a voz infantil, mas só soube de que se tratava, de fato, de uma criança, quando conversou com a Revista.

Théo e Luiz não se conheceram pessoalmente. Todo o trâmite foi feito no hall do edifício. O aposentado deixou um envelope com dinheiro e Luiz retornou com as compras em uma caixa e a nota fiscal. Os dois não tiveram contato físico, para garantir que não houvesse contágio. Segundo Luiz, a região tem muitos idosos que podem precisar, então, ele se prontificou. “A gente tem que se unir como sociedade. Não dá pra só esperar do governo e não fazer nada”, defende. Para Théo, que não conhece quase ninguém do prédio, — em contraposição a onde morava no Rio de Janeiro, onde conhecia todo mundo — há males que podem vir para o bem. E ele acredita que essa crise pode ser esse caso: “Talvez isso faça a gente repensar as coisas e criar um mundo diferente, menos materialista e egocêntrico”.

Bruna Pinheiro, 52, funcionária pública, e o marido estão dispostos a fazer o mesmo, no Park Sul. Eles decidiram reproduzir a ideia que viram na internet. Conversaram com a síndica do condomínio e passaram a oferecer, no grupo de WhatsApp dos moradores, o serviço de ir ao mercado e à farmácia para quem não pudesse, por estar no grupo de risco da Covid-19. “Rapidinho várias outras pessoas se voluntariaram”, comemora Bruna. Até então, só uma senhora entrou em contato perguntando  como seria o pagamento. Ela acredita que, com o passar dos dias em quarentena, essa mulher e muitas outras a procurem.

A servidora costuma praticar a solidariedade na igreja, com trabalhos em creches e distribuindo sopa na rua. Mas, para ela, atitudes como a dela, neste momento, são ainda mais importantes: “ A gente vê tanta gente, agora, sendo egoísta, acabando com estoques de produtos que todo mundo precisa”. Ela admite que a única moradora idosa que conhece no condomínio é a vizinha de porta, mas a situação é atípica e muitos vizinhos interagem. “Como aqui é grande e tem salão de beleza, atividades esportivas em grupo, acaba que fazemos amizade”, explica.


Dividindo o prejuízo

 
Alessandra Espírito Santo e Gabriel Fernandes continuam pagando pelos serviços de profissionais liberais durante a quarentena(foto: Arquivo pessoal)
Alessandra Espírito Santo e Gabriel Fernandes continuam pagando pelos serviços de profissionais liberais durante a quarentena (foto: Arquivo pessoal)
 

Alguns dos grandes afetados pela pandemia são os profissionais autônomos, que cobram por hora de serviço ou por tarefa. São manicures, personal trainers, massagistas, diaristas e inúmeros outros trabalhadores que estão sentindo no bolso os efeitos do vírus que levou a população a se isolar dentro de casa.

Para Alessandra Espírito Santo, 41, funcionária pública, uma das formas de fazer um bom uso de seu privilégio é continuar pagando os profissionais liberais que costumava contratar semanalmente. “É uma forma de dividir o prejuízo”, afirma. Alguns dos serviços que contratava semanalmente são manicure e pedicure, diarista, professor de dança. Ela faz questão de pagá-los durante o período da quarentena. “Enquanto eu puder, eu vou continuar, porque é aquela agonia de pensar como essas pessoas vão viver com tudo parado”, lamenta.

Nas últimas semanas, ela tinha agendado serviços de cabeleireiro e manicure, mas suspendeu, por conta do isolamento social recomendado. Mesmo assim, pagou pelos procedimentos que faria, ainda que pudesse, simplesmente, cancelar. O isolamento de Paula de Melo Maia, 30, administradora e digital influencer, começou mais cedo do que para a maioria. Tinha voltado do Egito e de Portugal havia 14 dias e estava com sintomas de gripe. Dispensada do trabalho até que tivesse o exame certificando de que não estava com a Covid-19, ficou em casa sem contato com ninguém por 48 horas, até que o resultado saísse. Para o alívio dela, negativo. Depois da apreensão vivida, resolveu tomar a medida de isolamento imediatamente. E incluiu a diarista nisso: dispensou a profissional cerca de uma semana antes de a maioria das pessoas se recolherem em casa. No entanto, fez questão de continuar pagando o valor da diária. “Eu estou trabalhando em casa e não vou ter o meu salário reduzido. Inclusive, enclausurada em casa, eu estou gastando menos, então, não me custa fazer isso por ela”, afirma.

Ela admite que não tem como saber se a profissional está, de fato, ficando em casa, mas entende que está fazendo a parte dela. Além da dispensa remunerada, também fez questão de conversar com a funcionária sobre a gravidade da situação e tentar esclarecer por que é importante não se expor. “Perguntei sobre a família dela, se ela tinha parentes mais velhos, expliquei que se muita gente pegar a doença, o sistema de saúde não vai conseguir atender a todos”, conta.

Na rua, com amor

Catarina e Victoria Henriques (no primeiro detalhe), e as amigas do projeto Quarenteneamor(foto: Arquivo pessoal)
Catarina e Victoria Henriques (no primeiro detalhe), e as amigas do projeto Quarenteneamor (foto: Arquivo pessoal)
Na última segunda-feira (23/3), um grupo de sete jovens doou 200 marmitas a moradores de rua do Setor Comercial Sul (SCS), graças à contribuição em dinheiro de brasilienses. “A ideia é ajudar em duas pontas. Fizemos um projeto para ajudar tanto o pequeno empreendedor, que está sofrendo muito nesta fase, quanto os moradores de rua”, explica Catarina Henriques, estudante de medicina e uma das idealizadoras do “Quarenteneamor”.


Com todos dentro de casa, não há quem dê qualquer moeda a quem mora na rua. Por isso, Catarina e a irmã Victoria Henriques, advogada, tomaram essa iniciativa. Em especial, depois de verem um vídeo sobre a situação dessa população no Rio de Janeiro. Entenderam que aqui não seria diferente. O SCS, por exemplo, sempre cheio de pessoas indo e vindo, agora está deserto.

As duas irmãs resolveram, então, chamar cinco amigas que têm o histórico de se mobilizar para ajudar o próximo e começaram a divulgar o projeto. Em menos de três dias, conseguiram mais de 600 seguidores no Instagram. Além da parceria com um pequeno restaurante que faz as marmitas, também contaram com o apoio de Rogério Barba, um ex-morador de rua engajado na qualidade de vida de quem vive na rua. É ele quem, de fato, entrega as marmitas.

Com o sucesso do Quarenteneamor, elas, agora, planejam entregar marmitas em outros locais que também carecem.

Os autônomos

 
Lauana Moura e família se preocupam com os profissionais que vendem lanches em frente à escola das crianças(foto: Arquivo pessoal)
Lauana Moura e família se preocupam com os profissionais que vendem lanches em frente à escola das crianças (foto: Arquivo pessoal)
 
Quando as aulas foram suspensas, por meio de decreto do governador Ibaneis Rocha, no dia 11 de março, e, em seguida, com o isolamento ficando mais forte, a servidora pública Lauana Moura, 44, se preocupou com a situação dos ambulantes que ficam na frente da escola do filho, onde a filha mais velha também já estudou. A família conhece o vendedor de pipoca há muitos anos e sabe que a mulher dele tem a mesma atividade em outra escola. Nos fins de semana, eles trabalham em festas, que também estão suspensas desde que a crise do coronavírus começou.

Como Lauana participa de um grupo de WhatsApp com mães de ex-alunos, por conta da filha, e de outro de atuais alunos, por causa do filho, decidiu mandar mensagens em ambos expondo a situação do profissional e pedindo ajuda. “Eu me surpreendi, porque todo mundo abraçou a ideia. Logo uma conseguiu o número da conta dele e todos ajudaram como puderam.

“O que está acontecendo, eu vejo como um problema de todo mundo. Mais para frente, de acordo com o tanto que demorar para tudo se normalizar, ajudamos de novo”, garante.



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