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Correio Braziliense

Famílias acolhedoras dão lar temporário a crianças sob tutela do Estado

Eles não têm pretensão de adotar, mas dão lar temporário e amor incondicional a crianças que estão sob a tutela do Estado no aguardo pela reintegração à família, seja a de origem, seja uma adotiva


postado em 12/04/2020 04:33 / atualizado em 12/04/2020 14:52

Roberto e Camila Pojo cuidaram de Isabela até ela completar dois meses(foto: Tailana Galvao/Esp. CB/D.A Press)
Roberto e Camila Pojo cuidaram de Isabela até ela completar dois meses (foto: Tailana Galvao/Esp. CB/D.A Press)
Com apenas cinco dias, Isabela*, sob a tutela do Estado, seria encaminhada para um abrigo, onde dividiria a atenção dos profissionais e voluntários com outras crianças na mesma situação. Em vez disso, foi acolhida por Camila Pojo, 32 anos, e Roberto Pojo, 46, servidor público, na casa deles, onde também mora o filho, já adulto, de Roberto. Ali, ela recebeu amor e carinho do casal, além de muito estímulo para se desenvolver, até que fosse adotada, aos dois meses.

Ela não se tornou filha, nem eles, pais. Eles a abrigaram por um período, até que fosse encaminhada para uma família substituta. A solução mais comum, e até preferencial, é a reintegração à família de origem, podendo ser à nuclear (pai e mãe) ou à extensa (avós, tios, primos). No caso de Isabela, os pais adotivos escolheram manter contato com os tios Roberto e Camila, que visitam e são visitados. No entanto, eles tinham o direito de decidir por não manter o vínculo. “É claro que gostamos de continuar a relação com a criança, mas nós nos preparamos para talvez nunca mais vê-la”, garante Roberto.

O casal faz parte do serviço Família Acolhedora, que chegou a Brasília há menos de um ano. Em algumas cidades e municípios, ele já tem uma longa história. Campinas é uma das referências, onde, há 22 anos, crianças têm a oportunidade de viver em família, ainda que afastadas da sua própria ou no aguardo da adoção. Tanto lá quanto aqui na capital federal, o serviço está disponível, por enquanto, apenas para a primeira infância, dos 0 aos 6 anos. Mas outros municípios, como Cascavel (PR) e Belo Horizonte (MG), têm boas experiências com crianças maiores e adolescentes.

De acordo com Vânia Sibylla, supervisora da Seção de Fiscalização, Orientação e Acompanhamento de Entidades da Vara Infância e da Juventude do Distrito Federal, a cidade tem 14 instituições para abrigar órfãos e o programa Família Acolhedora, braço da Ong Instituto Aconchego, conveniada pela Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social do Distrito Federal, é o 15o serviço. Segundo ela, as últimas informações fornecidas por essas instituições, no início de março, estima-se que 400 crianças vivem nelas. “Nós acompanhamos todas essas instituições no dia a dia e fiscalizamos, inclusive, quando a criança está com uma família porque há orientações técnicas”, garante.

Para Vânia, nas instituições de acolhimento, por mais que os profissionais se dediquem e sejam qualificados, a quantidade de crianças é muito maior, o que impede um olhar direcionado a cada uma. “Estar no contexto de uma família acolhedora colabora para que a atenção seja mais focada, em função do número que as instituições abrigam”, explica. “Tudo que é novo causa um estranhamento e um susto, mas o acolhimento tem um histórico. As famílias estão engajadas, e, com treinamento, tiveram a clareza e objetividade de entender que estão colaborando com esse período da vida dos bebês”, acrescenta.

De acordo com a doutora em serviço social e referência em direitos das crianças e adolescente Jane Valente, que também já foi coordenadora do Serviço de Acolhimento e Proteção Especial à Criança e ao Adolescente (Sapeca), da Prefeitura de Campinas (SP), o acolhimento foi previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) a partir do ano de 1997. “Mas foi a partir do Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, em 2006, que foi regulamentado. Foi uma grande luta”, relembra. Em 2009, uma mudança no ECA tornou o acolhimento em família acolhedora preferencial à institucionalização. Mesmo assim, com poucos serviços dessa natureza, a institucionalização costuma ser a regra.

Jane compreende que muitas pessoas se preocupam com o vínculo que a criança faz com a família acolhedora e que poderá ser desfeito, e corrige: “É um equívoco achar que ele vai fazer mal, quando as pesquisas mostram que o problema, na verdade, é não criar vínculos. É imprescindível que a criança viva em família e em uma comunidade para a formação do cérebro, para o desenvolvimento. Não feito isso na primeira infância, é difícil fazer depois”.


Os órfãos da Romênia 


Durante o regime comunista de Nicolae Ceausescu na Romênia, que durou de março de 1974 a dezembro de 1989, era proibido o uso de métodos contraceptivos e o aborto. Um dos objetivos era aumentar a mão-de-obra do país. A taxa de natalidade explodiu e, aliada à miséria, fez com que, no final daquele governo, houvesse mais de 170 mil órfãos vivendo em abrigos. A partir dos anos 2000, pesquisadores da Universidade de Harvard (EUA), por meio do Hospital da Criança de Boston, passou a mapear os efeitos da institucionalização precoce no desenvolvimento cerebral dos pequenos.

Os pesquisadores americanos selecionaram 136 crianças entre 6 meses e 2,5 anos, abandonadas em instituições governamentais nos primeiros anos de vida, todas sem problemas neurológicos ou genéticos. Metade dessas crianças, escolhidas aleatoriamente, foi transferida para um acolhimento de alta performance criado especialmente para o estudo, e a outra parte permaneceu nas instituições precárias e superlotadas. Também foi selecionado um grupo comparativo de 72 crianças que nunca haviam sido institucionalizadas e viviam com suas famílias de origem.

Segundo a pesquisa, cada ano que uma criança vive num abrigo institucional resulta em quatro meses de déficit em sua cognição geral. Isso inclui diminuição de QI (Quoeficiente de Inteligência), aumento do risco de distúrbios psicológicos, redução da capacidade linguística, dificuldade de criação de vínculos afetivos, crescimento físico atrofiado, entre inúmeros outros sérios problemas, alguns deles irreversíveis. Por meio de exames de eletroencefalograma (EEG), mostrou-se, no entanto, que a intervenção precoce e eficaz pode ter um impacto positivo nos resultados a longo prazo.

Da comparação entre os três grupos, concluiu-se ainda que as crianças que viviam nas instituições tinham mais atrasos no desenvolvimento da linguagem, problemas de relacionamento e até diagnóstico psiquiátrico (63% para os institucionalizados contra 20% dos que nunca foram institucionalizado). Os índices de depressão e ansiedade também foram o dobro nas crianças de instituições, e o volume cerebral bem menor do que nas que conviveram em famílias.

O segundo acolhimento 

A experiência de cuidar de um bebê que não era deles e prestar um serviço para a sociedade foi tão gratificante para Roberto e Camila que atualmente eles estão com a segunda bebê, Elisa*. As pessoas surpreendem-se e perguntam se o casal não se apega, ao que eles respondem: “óbvio”. “A gente ama, é difícil se afastar, mas a gente tem consciência do caráter transitório do que estamos fazendo”, afirma Camila.

Foi dela a ideia de entrar para o programa, mas o marido abraçou a causa sem hesitar assim que ela a expôs. “Eu vi por acaso uma entrevista. Não pensei duas vezes”, conta ela, que pretende ter filhos tanto biológicos quanto adotados. A família do casal ficou preocupada com o momento de dizer tchau, mas apoiou e admirou a iniciativa.

Assim como Isabela, Elisa chegou na casa deles com poucos dias de vida, no oitavo. Camila conta que tinha bastante receio. “Nunca tinha cuidado de bebê, achava que era frágil. Descobri que não é tanto. Achava que era muito mais difícil, que eles não interagiam. Mas a gente se conecta com eles muito rápido. Ela passa o dia todo conversando e logo eu passei a entender as necessidades pelo choro e tanto ela quanto a Isabela dormem a noite toda”, alegra-se.

A responsabilidade e a alteração da rotina são grandes. “Os horários são os das bebês”, afirma Rogério. Contudo, a mudança maior foi dentro deles. “Não dá para deixarmos tudo à mercê do Estado. A grande transformação é essa: ser ativo, em vez de só reclamar.  A gente pode fazer a nossa parte. Pudemos ter contato com uma outra realidade e quebrar o ciclo de violência que acaba se refletindo na vida adulta. A gente pode diminuir o trauma ou até evitá-lo”, opina Rogério.

Agora, Elisa também está no processo de reintegração à família biológica. No final de cada semana, ela fica com os parentes, que, em breve, terão a guarda da menina. Os dois vão ficar tristes com a partida dela, mas com a certeza de que contribuíram para o desenvolvimento de uma criança muito mais feliz e sem traumas — mesmo que a pequena nunca se lembre — e também para a família, que está superando um momento conturbado.


Seja uma família acolhedora 


Brasília tem, atualmente, 12 famílias acolhedoras e o Instituto Aconchego trabalha para ampliar esse número. Você também pode fazer parte do programa. Toda configuração familiar é aceita, mas os membros devem estar de acordo e engajados e devem passar pelo processo de capacitação. A psicóloga e coordenadora do Programa Família Acolhedora, do Instituto Aconchego, Júlia Salvagni, explica: “Primeiro, fazemos uma palestra cujo mote é, basicamente, a pergunta ‘isso cabe na minha vida?’ Então, entregamos as fichas de inscrição aos que concluem que sim. Depois, fazemos um check-up documental, entrevistas e começam os encontros de capacitação. São cinco, cada um com um tema: fundamentação legal do serviço, desenvolvimento infantil, luto, rede socioassistencial, despedida”.

Depois disso, duas psicólogas, duas assistentes sociais e duas técnicas fazem uma visita à casa da família e analisa o perfil de cada um, para verificar a faixa de idade da criança que ela pode acolher: recém-nascido ou maior. Júlia explica que o acolhimento é uma medida judicial: “O juiz decreta a medida, vê onde tem vaga de acolhimento, e quem faz esse controle no DF é a Central de Acolhimento. Então, entram em contato comigo. Aí, eu ligo pra família e pergunto se a pessoa está apta a receber aquela criança naquele momento”.

Júlia explica que estar em uma família dá segurança afetiva às crianças, importante para o desenvolvimento cognitivo. “A criança anda quando se sente segura para isso, fala quando se sente segura”, afirma. Quanto à preocupação com o vínculo feito com a criança, ela usa o exemplo das professoras do jardim de infância: “Tivemos vínculos com elas e elas foram embora, mas não foi uma ruptura porque sabíamos que aquele momento ia chegar. Quando a pessoa chega ao acolhimento, já foi uma ruptura. A criança estava numa situação de vulnerabilidade e precisou ser retirada. A retirada é brusca, então, tentamos fazer com que a transição seja respeitosa, fazemos devagar, para que não seja outra ruptura”, explica.

“Somos corresponsáveis por essas crianças. E vínculo gera vínculo. Quando eu consigo me vincular a alguém, eu entendo que posso me vincular a outras pessoas”.

Família Acolhedora 

Os principais critérios para receber temporariamente uma criança

» Residir no DF
» Ter maioridade civil
» Não ter como projeção a adoção
» Ter disponibilidade afetiva e emocional
» Não ter antecedentes criminais
» Habilidade em ser cuidador 



(foto: CB/D.A Press )
(foto: CB/D.A Press )
 

À espera do acolhimento na capital


Formada em serviço social, Keila Faria Ferreira, servidora pública, conhecia o serviço de Família Acolhedora e esperava, há anos, que chegasse a Brasília. “Eu sempre frequentei abrigos  e queria fazer a diferença. Quando saiu, a gente quis se capacitar”, conta. Stéfani*, 2 anos, chegou à casa dela em julho do ano passado. Uma vez por mês, visita os pais internados em uma clínica de reabilitação. A rotina mudou completamente. Enquanto Keila fica com Stéfani pela manhã, a filha passou a faculdade para o período da manhã para ficar com a pequena à tarde.

Por ali, ela vive a realidade de uma família estruturada, com uma figura materna, uma paterna, e os filhos do casal, com mais de 20 anos cada um. Mas chama a todos de tios e tias. Stéfani sabe quem são o papai e a mamãe e fica animada quando a tia do Instituto Aconchego chega para levá-la para visitá-los. “Todo mundo aqui se ajuda nos cuidados  e é impagável ver o desenvolvimento dela”, afirma Keila. Ali, ela aprendeu a falar muito mais coisas do que sabia quando chegou. “A realidade do abrigo é diferente: o banho é todo mundo junto, não tem como deixar ela pular na cama com segurança como eu deixo, por exemplo. Aqui ela tem sensação de pertencimento”, afirma Keila.

Tudo isso, com muito respeito à história da bebê. É por isso que os profissionais do Instituto também orientam as família a fazer um livro contando a história deles, com fotos, também sobre o período em que estiveram juntos. “A gente sempre fala dos pais dela, que eles a amam, que estão doentes. Ela é bem ligada a eles, sempre lembra, e a gente faz questão de incentivar isso. Foi algo sobre o que se falou muito na capacitação”, relembra.

O serviço da família de Keila não deve se encerrar com a partida de Stéfani, ainda sem previsão. Segundo ela, pretende viver outras experiências, talvez até ficar com recém-nascidos. Toda a família apoia e participa.

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