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Correio Braziliense CRôNICA DA REVISTA

Cidade nossa


postado em 21/04/2020 17:30 / atualizado em 21/04/2020 17:26



E chegamos até aqui

Não tem festa, mas ainda assim é preciso comemorar os 60 anos de Brasília. Não foi fácil chegar até aqui, a luta pela consolidação da capital no centro do país enfrentou todo tipo de ataque, com toda espécie de arma — até a vassoura do populista Jânio Quadros que, com a desculpa de varrer o que chamava de bandalheira, usava Brasília como símbolo.

A nova capital ainda não havia completado seu primeiro ano de vida quando teve que ser defendida pela manchete do Correio Braziliense de 22 de outubro de 1960: “Brasília resistirá ao retorno”, estava impresso. Era uma reação contra políticos que patrocinavam a tese da volta da capital ao Rio de Janeiro, com a esdrúxula proposta de transformar Brasília em sede da Organização das Nações Unidas (ONU).

A posse de Jânio Quadros mudou o humor da cidade. Antes, havia uma festa permanente, um ar contagiante que se refletia nas poucas casas noturnas frequentáveis da época — as boates Macumba, Pillango e Chez Willy — que repentinamente se viram às moscas.

“O pessoal do Juscelino bebe mesmo é nas boates, na frente de todos. O do Jânio, não. Bebe muito, mas nas reuniões domésticas, com medo de que se arranhe, perante a grande massa, a religião moralista”, escreveu o então deputado Neiva Moreira, conforme compilado no caudaloso livro A bailarina empoeirada, de Luiz Humberto del Isola e Noemia Boianovsky. Como se vê, a hipocrisia dos políticos não é coisa nova.

Ataques vinham de todas as partes e de todas as maneiras, inclusive com notícias falsas — sim, fake news sempre existiram. Chegou aos ouvidos do colunista Ari Cunha, deste Correio, que Ibrahim Sued, de O Globo, publicou nota dizendo que Brasília poderia ser inundada pelas águas do Paranoá.

Enquanto isso, deputados esgrimiam discursos e artigos contra e favor da permanência da capital, criando um clima de incerteza entre milhares de brasileiros que acreditaram no sonho de JK. As obras estavam paradas desde a posse do novo presidente; as poucas que continuavam não eram pagas.

Para piorar a situação, em fins de 1961, quando Jânio havia renunciado, Brasília foi invadida. Por ratos. Com a destruição do cerrado, os roedores migraram para a incipiente cidade em busca de comida; não eram camundongos, mas animais enormes, “roedores tremendos”, nas palavras do deputado Padre Nobre, registradas em A bailarina empoeirada.

Numa primeira etapa, foram eliminadas 24 mil ratazanas, segundo as contas do médico Welto Crespo, numa cidade que tinha pouco mais de 200 mil habitantes. O jornal O Globo, em campanha aberta, pela volta publicou que a porcentagem de loucos em Brasília era a maior do Brasil e a causa seria a falta de umidade no ar.

O professor Lopes Rodrigues, diretor do Serviço Nacional de Doenças Mentais, pôs ordem no hospício com um caso emblemático: “Conheço o caso de uma dama ilustre que amanhecia quebrando os pratos da casa, até convencer o esposo que estava ficando louca”. E disse às amigas: “Meu truque deu certinho”.

Contra tudo e todos, Brasília está aí, há 60 anos. Parabéns aos resilientes.


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