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Durante e após a pandemia: as transformações no mundo da moda

Qual será o futuro da moda? Muito se fala sobre o novo normal, embora pouco se saiba como será. No mundo fashion, as mudanças começam a ser sentidas

Manuela Ferraz*
postado em 25/05/2020 16:00

A professora Renata Soares fala sobre as mudanças no mercado da moda

As mudanças de comportamento que a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social trouxeram à realidade é pauta em todos os setores. As transformações das relações que desenvolvemos com o outro, com nosso lar, com os objetos e com o mundo parecem deixar marcas e causar alterações permanentes no novo cenário. Quando falamos em moda, isso não seria diferente.

Um dos grandes impactos que o mercado sofreu é apontado pela advogada, professora e coordenadora da pós-graduação em direito da moda, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renata Soares: ;Segundo dados do Infomoney do final de março, a indústria têxtil teve uma queda de 91%. Isso se deve ao fechamento do comércio de serviços não essenciais e à crise econômica causada pelo desemprego e pela paralisação da atividade de produção;.

Diante dessa nova realidade e dos sentimentos de insegurança que atingem a muitos, os clientes mudaram a forma de consumir. As compras passaram a ser feitas, majoritariamente, pelas plataformas on-line e a busca por produtos de maior necessidade, como alimentos e medicamentos, também aumentou na internet. ;Houve, então, a consolidação gradual do comércio eletrônico para esse setor e no setor da moda;, explica a professora.

Nota-se, também, uma tendência de procura por itens para usar em casa, que atendam às novas necessidades do home office, e pelas máscaras de tecidos, que passaram a ser confeccionadas ; e que têm sido a principal fonte de renda de muitos produtores locais nesse momento.

Segundo Renata, a forma de produzir moda mudou e ainda deve passar por transformações profundas após a pandemia. Ela destaca como necessária a valorização do mercado interno, ou seja: ;produzir suprimentos para a cadeia de moda no próprio país, ou, pelo menos, a preocupação com a produção em blocos econômicos ; América Latina, Europa, Estados Unidos e China;.

Somado a isso, o entendimento de que as roupas devem cumprir um propósito maior no armário parece traçar um novo caminho na indústria. ;Concordo com Giorgio Armani, que recentemente propôs, em carta escrita à Women;s Wear Daily, a diminuição do ritmo como a única saída para a indústria da moda. Para ele, não cabe ao segmento do luxo seguir os caminhos do fast fashion, com o intuito de vender sempre mais, e, sim, voltar-se à produção de moda atemporal;, esclarece ela.

Será, cada vez mais, exigido dos influenciadores um comportamento condizente com a nova realidade e pautado na ética, transparência, solidariedade, preocupação com a saúde pública e bem-estar coletivo.

O estímulo à inovação e desenvolvimento de tecnologias anti-bactericida para as peças e uso da impressão 3D, que já permite a produção de máscaras de proteção, são apostas de Renata, assim como a redução no número de coleções do ano, preocupação crescente com a sustentabilidade e a possibilidade de showrooms virtuais para evitar um grande número de viagens internacionais.

Sobre a reabertura do comércio, a advogada compartilha fenômenos curiosos que ocorreram em outros países. ;Na cidade de Guangzhou, na China, houve um aumento das vendas no mercado de luxo em lojas de rua no primeiro dia de reabertura. Trata-se de um fenômeno do mundo pós-coronavírus chamado de revenge spending, ou, consumir por vingança. Talvez, o desejo criou um efeito oposto do esperado ; a procura por consumir. No entanto, com o voltar da vida ao normal, o consumo excessivo deve regredir e as pessoas devem comprar de forma mais consciente e condizente com a nova realidade de dificuldades de emprego, econômica, e preocupação com a saúde pública;.

Por mudanças no sistema

;No Brasil, nosso principal problema não é o fast fashion. Aqui, estou preocupada com o tráfico humano, com o agricultor que, agora, está sem comer porque a indústria parou. A moda não está só nas passarelas, está nas costureiras e na periferia também!”. Esse é o posicionamento de Iara Vidal, jornalista e representante do Fashion Revolution em Brasília, que nos provoca pensar a moda e seu sistema.

%u201CA máscara tem colocado comida na mesa das pessoas. Acredito que ela seja nossa nova camiseta e por onde vamos conseguir nos manifestar politicamente e esteticamente%u201D, diz Iara Vidal

O movimento global do qual faz parte luta por uma reforma da indústria fashion e por maior transparência em toda cadeia de produção. Desde que assumiu a representação da capital, Iara focou na atuação política da área. ;Aqui não temos indústria de confecção, temos moda autoral. Então, ocupamos o congresso e buscamos a construção de políticas públicas para que a moda seja menos impactante negativamente;, explica.

Na semana Fashion Revolution 2020, assuntos como objetivos do desenvolvimento sustentável, do que são feitas minhas roupas, moda e identidade e algodão agroecológico foram discutidos em lives devido à pandemia do novo coronavírus e a importância do isolamento social.

Essa nova realidade também foi a causa do congelamento das indústrias e de diversos outros setores de atividades não essenciais. Só não estão parados aqueles que passaram a produzir máscaras. ;A máscara tem colocado comida na mesa das pessoas. Acredito que ela seja nossa nova camiseta e por onde vamos conseguir nos manifestar politicamente e esteticamente;.

A jornalista enxerga mudanças em camadas nesse novo cenário. Parte dos consumidores passarão a se preocupar mais com o que compram e poderão começar a se questionar sobre quem produz a peça, se a marca se preocupa com o meio ambiente, quais materiais usam, entre outros. ;Acho que muita gente vai despertar. É individual, mas o coletivo pode dar uma força. O menos vai ser mais, vamos nos dar conta que é uma bobagem essa quantidade de coisas, mas, vai ter gente que vai continuar consumindo como antes. Eu sugiro que faça sua reforma íntima, porque não existe uma bula para o consumo;, afirma.

As transformações em escalas maiores, que, consequentemente, geram resultados mais efetivos, surgirão na marra. Um dos exemplos é a mudança geopolítica, que Iara informou ser chamada de glocalização. ;Estamos na globalização que as cadeias produtivas se desintegraram. Não vai ser mais possível importar coisas com tanta facilidade. Então, vamos acabar tendo que nos voltar para o mercado local. Você estará conectado com o global, mas com o olhar para o local;.

Segundo ela, os atributos de produção de larga escala que trabalha com obsolescência imaginada da peça, ou seja, que vende já pensando no momento em que a roupa se tornará ultrapassada pelo surgimento de novas tendências, talvez estejam mudando. Porém, pensar em moda sustentável é utópico. ;Eu não acredito em moda sustentável, esse é um delírio no capitalismo. A riqueza não mede pessoas ou recursos naturais para usar. Queria acreditar que a indústria da moda vai mudar, mas, só acredito nessas mudanças de camadas;, esclarece.

A jornalista defende que muitas dessas transformações não farão nem cócegas no sistema problemático e que, antes de tudo, é preciso arrumar a lambança que vinha sendo feita e defender mudanças estruturais. ;A gente se separou do planeta. Não conseguimos ver o pé de algodão e achamos que a peça surgiu no cabide. Os acontecimentos são nossa responsabilidade, sim. Esse vírus veio das nossas ações. Mas, cadê as políticas públicas para financiar meios menos poluentes? Tecnologia existe;.

Moda é comportamento, identidade, cultura e reflexo do tempo. Não adianta falar em mudanças no consumo se não houver mudanças substanciais no modo de produção e na cadeia produtiva. Sua proposta para esse momento é que mostrem o que acontece nas pontas das cadeias, problematizem a quantidade de resíduos têxteis que produzimos e o porquê, por exemplo, deles não integrarem a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

A crítica de Iara não é ao vendedor do produto, que precisa da renda para pagar seus boletos, mas ao sistema que levou a essa situação e só reforça sua manutenção. Existem alternativas, como tecidos que são feitos à base de cascas de frutas, de algodão agroecológico. O que precisa é de incentivos para aumentar a escala dessas e de outras práticas positivas e gerar uma real mudança.

E esse é um problema de todos. ;Temos que ter aliados para parar de ver a moda como futilidade. A moda é política, economia, geração de emprego. Isso atinge todo mundo, porque ninguém anda nu por aí;, afirma a representante do movimento Fashion Revolution.

Enquanto segue nessa luta, Iara mantém esperanças em dois pontos: na moda ética e na nova geração. ;Eu acredito que existam moda ética e empreendedores assim, principalmente os locais. Além disso, acredito na nova geração, que parece lidar com o consumo de maneira diferente. É uma galera que não quer ter carro, que compra muito em brechós. Não são todos, mas, tem vários. Eles têm coragem de colocar o dedo na ferida, no sistema, e dizer que nós estamos matando o planeta;.

Sem excessos

A estilista Letícia Gonzaga apoiou o projeto DF Usa Máscara

A estilista Letícia Gonzaga acredita que o futuro da moda será marcado por roupas mais duradouras, atemporais e que cooperem para evitar o consumo em excesso. ;Acho que todo mundo avaliou seus valores, pelo menos dizendo por mim, e, não é desmerecendo a vestimenta, mas acho que o excesso dela acaba incomodando um pouco. É bom você ter algo que possa durar muito e usar para se sentir bem. Acredito e incentivo minhas clientes a isso;, explica.

Ela conta que a nova realidade levou a mudanças para manutenção do seu negócio. ;Foi um susto que não foi diferente para ninguém. Várias decisões foram tomadas este mês, como a de entregar o ponto da loja da 211 e fazer a mudança para o ateliê;.

Além dessa transferência, a equipe passou a dar um olhar especial para as compras on-line. Eles já tinham um site antes do início da pandemia, mas, como as vendas eram mais presenciais, a adaptação foi necessária.

Outra demanda percebida foi justamente a de confecção de roupas confortáveis para ficar em casa. Desse novo nicho nasceu a mais nova linha de Letícia, denominada comfort. ;Por uma necessidade pessoal minha e da minha mãe, resolvemos fazer a linha comfort e a produção deu até uma animada nas funcionárias;, avalia ela.

As boas vendas da linha corroboram com a nova tendência de consumo. Porém, a estilista crê que o fato da matéria prima, que é a malha, ter um custo mais baixo que a seda e algodão egípcio que costuma usar e, consequente, o menor valor das peças também contribuiu para esse movimento. Outro ponto destacado por ela é que a procura por algo atemporal e que não se tem no armário. Isso demonstra uma compra mais consciente.

Partilhando do momento de união e solidariedade que a pandemia trouxe, a marca apoiou o projeto DF Usa Máscara e usou o valor das vendas das máscaras que produziram para comprar cestas básicas, que foram distribuídas pela organização da campanha a famílias em vulnerabilidade.

Para Letícia, essa foi uma iniciativa especial e que casa com a reflexão sobre seu papel e atuação no mercado. ;Você consegue ver coisas que não enxergava e se sente ainda mais prestigiada pelo seu cliente te escolher;, declara.

* Estagiária sob supervisão de Taís Braga

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