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Correio Braziliense

Durante e após a pandemia: as transformações no mundo da moda

Qual será o futuro da moda? Muito se fala sobre o novo normal, embora pouco se saiba como será. No mundo fashion, as mudanças começam a ser sentidas


postado em 25/05/2020 16:00 / atualizado em 25/05/2020 15:58

 

A professora Renata Soares fala sobre as mudanças no mercado da moda (foto: Cinthia Carvalho/Divulgação)
A professora Renata Soares fala sobre as mudanças no mercado da moda (foto: Cinthia Carvalho/Divulgação)


As mudanças de comportamento que a pandemia do novo coronavírus e o isolamento social trouxeram à realidade é pauta em todos os setores. As transformações das relações que desenvolvemos com o outro, com nosso lar, com os objetos e com o mundo parecem deixar marcas e causar alterações permanentes no novo cenário. Quando falamos em moda, isso não seria diferente.

Um dos grandes impactos que o mercado sofreu é apontado pela advogada, professora e coordenadora da pós-graduação em direito da moda, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renata Soares: “Segundo dados do Infomoney do final de março, a indústria têxtil teve uma queda de 91%. Isso se deve ao fechamento do comércio de serviços não essenciais e à crise econômica causada pelo desemprego e pela paralisação da atividade de produção”.

Diante dessa nova realidade e dos sentimentos de insegurança que atingem a muitos, os clientes mudaram a forma de consumir. As compras passaram a ser feitas, majoritariamente, pelas plataformas on-line e a busca por produtos de maior necessidade, como alimentos e medicamentos, também aumentou na internet. “Houve, então, a consolidação gradual do comércio eletrônico para esse setor e no setor da moda”, explica a professora.

Nota-se, também, uma tendência de procura por itens para usar em casa, que atendam às novas necessidades do home office, e pelas máscaras de tecidos, que passaram a ser confeccionadas — e que têm sido a principal fonte de renda de muitos produtores locais nesse momento.

Segundo Renata, a forma de produzir moda mudou e ainda deve passar por transformações profundas após a pandemia. Ela destaca como necessária a valorização do mercado interno, ou seja: “produzir suprimentos para a cadeia de moda no próprio país, ou, pelo menos, a preocupação com a produção em blocos econômicos — América Latina, Europa, Estados Unidos e China”.

Somado a isso, o entendimento de que as roupas devem cumprir um propósito maior no armário parece traçar um novo caminho na indústria. “Concordo com Giorgio Armani, que recentemente propôs, em carta escrita à Women’s Wear Daily, a diminuição do ritmo como a única saída para a indústria da moda. Para ele, não cabe ao segmento do luxo seguir os caminhos do fast fashion, com o intuito de vender sempre mais, e, sim, voltar-se à produção de moda atemporal”, esclarece ela.

Será, cada vez mais, exigido dos influenciadores um comportamento condizente com a nova realidade e pautado na ética, transparência, solidariedade, preocupação com a saúde pública e bem-estar coletivo.

O estímulo à inovação e desenvolvimento de tecnologias anti-bactericida para as peças e uso da impressão 3D, que já permite a produção de máscaras de proteção, são apostas de Renata, assim como a redução no número de coleções do ano, preocupação crescente com a sustentabilidade e a possibilidade de showrooms virtuais para evitar um grande número de viagens internacionais.

Sobre a reabertura do comércio, a advogada compartilha fenômenos curiosos que ocorreram em outros países. “Na cidade de Guangzhou, na China, houve um aumento das vendas no mercado de luxo em lojas de rua no primeiro dia de reabertura. Trata-se de um fenômeno do mundo pós-coronavírus chamado de revenge spending, ou, consumir por vingança. Talvez, o desejo criou um efeito oposto do esperado — a procura por consumir. No entanto, com o voltar da vida ao normal, o consumo excessivo deve regredir e as pessoas devem comprar de forma mais consciente e condizente com a nova realidade de dificuldades de emprego, econômica, e preocupação com a saúde pública”.

 

Por mudanças no sistema 

 

“No Brasil, nosso principal problema não é o fast fashion. Aqui, estou preocupada com o tráfico humano, com o agricultor que, agora, está sem comer porque a indústria parou. A moda não está só nas passarelas, está nas costureiras e na periferia também!”. Esse é o posicionamento de Iara Vidal, jornalista e representante do Fashion Revolution em Brasília, que nos provoca pensar a moda e seu sistema.

%u201CA máscara tem colocado comida na mesa das pessoas. Acredito que ela seja nossa nova camiseta e por onde vamos conseguir nos manifestar politicamente e esteticamente%u201D, diz Iara Vidal(foto: Arquivo pessoal )
%u201CA máscara tem colocado comida na mesa das pessoas. Acredito que ela seja nossa nova camiseta e por onde vamos conseguir nos manifestar politicamente e esteticamente%u201D, diz Iara Vidal (foto: Arquivo pessoal )

O movimento global do qual faz parte luta por uma reforma da indústria fashion e por maior transparência em toda cadeia de produção. Desde que assumiu a representação da capital, Iara focou na atuação política da área. “Aqui não temos indústria de confecção, temos moda autoral. Então, ocupamos o congresso e buscamos a construção de políticas públicas para que a moda seja menos impactante negativamente”, explica.

 

Na semana Fashion Revolution 2020, assuntos como objetivos do desenvolvimento sustentável, do que são feitas minhas roupas, moda e identidade e algodão agroecológico foram discutidos em lives devido à pandemia do novo coronavírus e a importância do isolamento social.

 

Essa nova realidade também foi a causa do congelamento das indústrias e de diversos outros setores de atividades não essenciais. Só não estão parados aqueles que passaram a produzir máscaras. “A máscara tem colocado comida na mesa das pessoas. Acredito que ela seja nossa nova camiseta e por onde vamos conseguir nos manifestar politicamente e esteticamente”.

 

A jornalista enxerga mudanças em camadas nesse novo cenário. Parte dos consumidores passarão a se preocupar mais com o que compram e poderão começar a se questionar sobre quem produz a peça, se a marca se preocupa com o meio ambiente, quais materiais usam, entre outros. “Acho que muita gente vai despertar. É individual, mas o coletivo pode dar uma força. O menos vai ser mais, vamos nos dar conta que é uma bobagem essa quantidade de coisas, mas, vai ter gente que vai continuar consumindo como antes. Eu sugiro que faça sua reforma íntima, porque não existe uma bula para o consumo”, afirma.

 

As transformações em escalas maiores, que, consequentemente, geram resultados mais efetivos, surgirão na marra. Um dos exemplos é a mudança geopolítica, que Iara informou ser chamada de glocalização. “Estamos na globalização que as cadeias produtivas se desintegraram. Não vai ser mais possível importar coisas com tanta facilidade. Então, vamos acabar tendo que nos voltar para o mercado local. Você estará conectado com o global, mas com o olhar para o local”.

 

Segundo ela, os atributos de produção de larga escala que trabalha com obsolescência imaginada da peça, ou seja, que vende já pensando no momento em que a roupa se tornará ultrapassada pelo surgimento de novas tendências, talvez estejam mudando. Porém, pensar em moda sustentável é utópico. “Eu não acredito em moda sustentável, esse é um delírio no capitalismo. A riqueza não mede pessoas ou recursos naturais para usar. Queria acreditar que a indústria da moda vai mudar, mas, só acredito nessas mudanças de camadas”, esclarece.

 

A jornalista defende que muitas dessas transformações não farão nem cócegas no sistema problemático e que, antes de tudo, é preciso arrumar a lambança que vinha sendo feita e defender mudanças estruturais. “A gente se separou do planeta. Não conseguimos ver o pé de algodão e achamos que a peça surgiu no cabide. Os acontecimentos são nossa responsabilidade, sim. Esse vírus veio das nossas ações. Mas, cadê as políticas públicas para financiar meios menos poluentes? Tecnologia existe”.

 

Moda é comportamento, identidade, cultura e reflexo do tempo. Não adianta falar em mudanças no consumo se não houver mudanças substanciais no modo de produção e na cadeia produtiva. Sua proposta para esse momento é que mostrem o que acontece nas pontas das cadeias, problematizem a quantidade de resíduos têxteis que produzimos e o porquê, por exemplo, deles não integrarem a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

 

A crítica de Iara não é ao vendedor do produto, que precisa da renda para pagar seus boletos, mas ao sistema que levou a essa situação e só reforça sua manutenção. Existem alternativas, como tecidos que são feitos à base de cascas de frutas, de algodão agroecológico. O que precisa é de incentivos para aumentar a escala dessas e de outras práticas positivas e gerar uma real mudança.

 

E esse é um problema de todos. “Temos que ter aliados para parar de ver a moda como futilidade. A moda é política, economia, geração de emprego. Isso atinge todo mundo, porque ninguém anda nu por aí”, afirma a representante do movimento Fashion Revolution.

 

Enquanto segue nessa luta, Iara mantém esperanças em dois pontos: na moda ética e na nova geração. “Eu acredito que existam moda ética e empreendedores assim, principalmente os locais. Além disso, acredito na nova geração, que parece lidar com o consumo de maneira diferente. É uma galera que não quer ter carro, que compra muito em brechós. Não são todos, mas, tem vários. Eles têm coragem de colocar o dedo na ferida, no sistema, e dizer que nós estamos matando o planeta”.

 

Sem excessos

A estilista Letícia Gonzaga apoiou o projeto DF Usa Máscara (foto: Arquivo pessoal )
A estilista Letícia Gonzaga apoiou o projeto DF Usa Máscara (foto: Arquivo pessoal )

A estilista Letícia Gonzaga acredita que o futuro da moda será marcado por roupas mais duradouras, atemporais e que cooperem para evitar o consumo em excesso. “Acho que todo mundo avaliou seus valores, pelo menos dizendo por mim, e, não é desmerecendo a vestimenta, mas acho que o excesso dela acaba incomodando um pouco. É bom você ter algo que possa durar muito e usar para se sentir bem. Acredito e incentivo minhas clientes a isso”, explica.

 

Ela conta que a nova realidade levou a mudanças para manutenção do seu negócio. “Foi um susto que não foi diferente para ninguém. Várias decisões foram tomadas este mês, como a de entregar o ponto da loja da 211 e fazer a mudança para o ateliê”.

 

Além dessa transferência, a equipe passou a dar um olhar especial para as compras on-line. Eles já tinham um site antes do início da pandemia, mas, como as vendas eram mais presenciais, a adaptação foi necessária.

 

Outra demanda percebida foi justamente a de confecção de roupas confortáveis para ficar em casa. Desse novo nicho nasceu a mais nova linha de Letícia, denominada comfort. “Por uma necessidade pessoal minha e da minha mãe, resolvemos fazer a linha comfort e a produção deu até uma animada nas funcionárias”, avalia ela.

 

As boas vendas da linha corroboram com a nova tendência de consumo. Porém, a estilista crê que o fato da matéria prima, que é a malha, ter um custo mais baixo que a seda e algodão egípcio que costuma usar e, consequente, o menor valor das peças também contribuiu para esse movimento. Outro ponto destacado por ela é que a procura por algo atemporal e que não se tem no armário. Isso demonstra uma compra mais consciente.

 

Partilhando do momento de união e solidariedade que a pandemia trouxe, a marca apoiou o projeto DF Usa Máscara e usou o valor das vendas das máscaras que produziram para comprar cestas básicas, que foram distribuídas pela organização da campanha a famílias em vulnerabilidade.

 

Para Letícia, essa foi uma iniciativa especial e que casa com a reflexão sobre seu papel e atuação no mercado. “Você consegue ver coisas que não enxergava e se sente ainda mais prestigiada pelo seu cliente te escolher”, declara.

 

 

* Estagiária sob supervisão de Taís Braga

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