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Correio Braziliense

Quando o coronavírus se for: planos para fazer na pós-pandemia

Projetos suspensos, vida incerta ou oportunidade para abrir novos caminhos? Muita gente aproveitou a pandemia para se reinventar, usufruindo as mudanças nas rotinas


postado em 23/06/2020 20:09 / atualizado em 25/06/2020 17:08

Ex-sedentário, Felipe Giunti está se preparando para, quando tudo passar, participar de competições de ciclismo(foto: Arquivo pessoal)
Ex-sedentário, Felipe Giunti está se preparando para, quando tudo passar, participar de competições de ciclismo (foto: Arquivo pessoal)
 

A pandemia do coronavírus colocou muita gente dentro de casa, interrompeu planos e tirou todo mundo, temporariamente, do comando da própria vida. De um dia pro outro, foi necessário readaptar a rotina, estabelecer outras condições de trabalho, outras dinâmicas familiares. Agora, depois de quatro meses e um pouco mais adaptados, mas ainda ansiosos para o fim, todos pensam: "Quando tudo isso acabar, eu vou...".

Segundo a psicóloga Beatriz Brandão, fazer plano é uma forma de retomar o controle sobre as situações. "Se tem algo que a pandemia nos mostrou é que não temos poder, então, a gente se cobra fazer planos para retomar a liderança da própria vida", explica. Para ela, isso traz segurança para as pessoas. Só é preciso tomar cuidado para não se frustrar, já que não sabemos como será o futuro.

Reencontrar a família, viajar, fazer uma festa, trocar de emprego, ir a um restaurante ou mesmo retomar um plano interrompido pela pandemia são alguns dos objetivos mais comuns. É importante, porém, ter em mente que não há previsão para quando poderemos fazer tudo isso.

Mas, para a psicóloga Flávia Teixeira, pensar no futuro de forma positiva é uma boa ideia. "Faz com que a gente desenvolva a resiliência, que é a capacidade de lidar com o inesperado e se reinventar", explica. A ansiedade, segundo ela, é normal, no entanto, é preocupante quando é paralisante. "Não dá para viver em função só do que vai acontecer lá na frente e não lidar com o hoje", afirma.

O técnico em informática Felipe Giunti, 36 anos, admite que tem andado com a "cabeça a mil". Com a pandemia, perdeu o emprego que tinha em um hotel, e o dono do apartamento que alugava pediu o imóvel de volta. Mesmo assim, ele exibe um otimismo admirável: "A minha característica é levar as coisas da melhor forma possível, mas nossa cabeça fica um pouco perturbada, porque impactou minha vida de muitas formas".

Desde o início do ano, ele vinha pedalando, com o objetivo de ficar mais saudável, pois foi diagnosticado com pré-diabetes, e conseguiu emagrecer. Apesar da pandemia, continuou colocando a bicicleta na rua. No entanto, os grupos com os quais corria foram desfeitos. "Fica mais perigoso correr em certos lugares e horários e dá menos ânimo, mas a gente se adapta", afirma.

Ele está se preparando para, quando tudo passar, participar de competições de ciclismo. Todas que forem possível. "Não pra vencer, mas pra uma pessoa como eu, que veio do sedentarismo, do tabagismo, terminar a prova já será bom", declara. Para isso, o plano é comprar uma bicicleta nova, pois a que usa atualmente é específica para trilha, não para estrada. "Eu sou muito pra cima, dificilmente fico abalado. Eu entendo que está difícil, mas busco acreditar que vai passar", torce.

Além dos planos envolvendo o ciclismo, ele brinca: "Também quero viajar. Rio de Janeiro, Porto Seguro, até onde o cartão de crédito aguentar". Nas últimas férias, em dezembro, não saiu de Brasília, por isso, está ansioso por uma oportunidade de escapar. Aos poucos, ele se reorganiza financeiramente e procura um novo emprego, para poder colocar todos os planos em prática.

Home office que faz bem

Paula de Melo Maia tomou uma decisão para a pós-pandemia: vai ter um cachorro(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Paula de Melo Maia tomou uma decisão para a pós-pandemia: vai ter um cachorro (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

Entre os ganhos e as perdas da pandemia, a administradora Paula de Melo Maia, 30, conta que teve um pico de trabalho muito grande quando tudo começou, mas a quarentena também promoveu a mudança necessária para que ela tenha a condição de realizar um de seus sonhos muito em breve: ter um cachorro.

"Eu trabalho muito, tinha pena de deixá-lo sozinho o dia inteiro", conta. A empresa em que trabalha já estava com uma política tímida de home office antes da pandemia. Agora, ela acredita que o sistema deve ser ampliado e ela não só terá companhia em casa, como será a companhia do pet.

No primeiro momento, ela conta que trabalhar de casa foi complicado porque a mudança ocorreu do dia pra noite. "A gente não teve tempo para se preparar, eu não tinha um escritório pronto em casa. Um mês depois, já estava adaptada e a empresa até mandou um encosto de cadeira para transformar a minha em ergonômica.” O resultado do home office foi bom, ela economizou, pelos menos, uma hora diária no trajeto para o trabalho e conseguiu usar esse tempo para se exercitar.

Paula contou com o apoio do namorado para tomar a decisão de, finalmente, ter um cachorro. "Ele está sempre na minha casa, então, seria complicado se ele também não gostasse, não quisesse", explica. No ano passado, ele até quis lhe dar um de aniversário, mas ela ainda não se sentia segura. Ela conta com o namorado para ajudá-la em casos de estar muito atarefada no trabalho ou outras emergências. O nome está escolhido: Lulu. Provavelmente, será da raça chow chow, que ela sempre quis. Mas, algumas pessoas tentam fazê-la mudar de ideia, e, por isso, ela anda pesquisando outras opções, como o spitz alemão.

Férias atípicas
Brasiliense, a administradora mudou-se para São Paulo há mais de sete anos. O home office permitiu que ela viesse passar a quarentena na capital, com a mãe. Há cerca de um mês e meio, ela começou a pensar e repensar a ideia. Para vir, ela fez exames para garantir que não traria o coronavírus. Voltando para São Paulo, procurará a Lulu.

De Brasília, Paula trabalhou a uma distância maior (da casa da mãe, e não da própria casa) por algumas semanas e logo começaram as férias dela. As primeiras em que não viaja a turismo. Está aproveitando para ler muitos livros e para focar em projetos pessoais e profissionais paralelos ao emprego que tem. Nos dias de folga, procura clientes para a start-up. "Tem momentos de frustração, mas não tem a pressão de alguém me cobrando, a não ser eu mesma", afirma.

No Instagram, a administradora tem o perfil @sao.paula, em que dá dicas de restaurantes principalmente na capital paulista e de cidades que visita. No próximo dia 26 de junho (sexta-feira), ela vai fazer uma live junina. Com uma banda e tudo. Até lá, passará receitas para que todo mundo providencie o seu arraiá em casa. Embora tudo isso dê trabalho, ela garante: "Nem parece que estou trabalhando".

Enquanto estas férias são atípicas, sem conhecer lugares novos, não faltam planos para as próximas, no ano que vem. Paula já tem passagens compradas para a Grécia e para Curaçao. Aproveitou a promoção de pacotes para garantir que não ficará em casa, nem em São Paulo, nem em Brasília.


Planos interrompidos
O doutor em biologia Pedro Gatts espera começar o pós-doutorado quando tudo isso passar(foto: Arquivo pessoal)
O doutor em biologia Pedro Gatts espera começar o pós-doutorado quando tudo isso passar (foto: Arquivo pessoal)

Antes da pandemia, o doutor em biologia Pedro Gatts, 30, esperava o resultado de três editais de pós-doutorado aos quais havia se candidatado. No início do ano, ele submeteu os projetos. "Por sorte, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), deu um andamento rápido ao processo, mesmo na quarentena, para que os candidatos entrassem e começasse a vigência. Se não, perderíamos a bolsa", conta, aliviado.

Já as outras duas universidade, a Federal do Maranhão (UFM) e a do Espírito Santo (UFES), adiaram os resultados e, até então, estão sem prazo. "Por conta dos projetos que eu enviei e dos lugares, elas me tirariam da minha zona de conforto", esclarece Pedro, embora a predileção seja justamente por elas. A grande expectativa ainda é a UFM. "O projeto ficou bem amplo, bem legal. Seria um salto na carreira. E me mudar para um lugar tão distante também seria bom", admite.

Ele revela que é uma pessoa que não costuma acumular coisas. "Nessa vida acadêmica, eu fui muito para lá e para cá", explica. Então, uma mudança não é tão complicada. Também não tomou nenhuma medida nesse sentido, pois sabe que pode se frustrar. "Medidas práticas, só tomo com o resultado", garante. Mas o plano de se mudar, seja para Alegre (ES), seja para São Luís (MA), continua na cabeça.

Os pós-doutorados de Pedro não foram as únicas projeções em suspenso. No momento, ele deveria estar voltando de uma expedição de um mês organizada pela Marinha do Brasil aos arquipélagos de São Pedro e São Paulo. Em fevereiro, ele e um grupo de pesquisadores de diversas universidades brasileiras foram a Natal, o ponto continental mais perto do conjunto de ilhas, para fazer um treinamento. "É um local que exige certos cuidados que não estamos acostumados, porque é uma região muito peculiar geologicamente e ainda com uma biota super diferente no meio do oceano", conta.

Um pouco antes da quarentena, no entanto, a Marinha cancelou as atividades de pesquisa, para evitar a exposição de todos. No início do mês de maio, eles adiaram as expedições para o ano que vem, mas ainda não há um cronograma. "Foi bem frustrante, porque cria-se expectativa, já que é uma coisa muito planejada, não acontece da noite pro dia", lamenta.

Novas possibilidades

Brendo Ramos Ferreira tem se dedicados aos estudos para retomar as pesquisas em campo depois da quarentena(foto: Arquivo pessoal)
Brendo Ramos Ferreira tem se dedicados aos estudos para retomar as pesquisas em campo depois da quarentena (foto: Arquivo pessoal)

Brendo Ramos Ferreira, 23, biólogo e estudante de mestrado da Universidade de Brasília (UnB), também ia à expedição e se frustrou. "Antes da pandemia começar, tínhamos planos de curto prazo, essa viagem em maio era uma", reclama. A ideia dele era recolher material para escrever seu projeto de doutorado, o qual submeteria no fim deste ano. "Lá, tem uma diversidade de vida marinha muito grande e isso muda muito os microrganismo dali, que é minha área de estudo. Nós íamos estudá-los, extrair DNA", explica.

Com um curso extremamente prático, ele se questiona se as aulas a distância são uma solução eficiente, e lamenta todas as mudanças: "A gente tinha uma rotina, ir pro laboratório, pra aula, encontrar os amigos e, de repente, tudo mudou". Agora, apesar de todas as incertezas, está se aperfeiçoando no Excel e em outros programas, trabalhando no projeto de mestrado: escrevendo, revendo a bibliografia.

E até pensando em outra opção para o doutorado, em fazer outro projeto e, como o cenário, está muito incerto, talvez algo remoto. "A gente vai se moldando de acordo com as condições que vão surgindo", afirma. Para ele, fazer alguns planos, estipular algumas datas, se preparar melhor para alguns processos seletivos, publicar artigos, pesquisar projetos fora do Brasil, é uma forma de se mover.

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