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O Tik Tok como aliado na luta contra a solidão do isolamento social

Com o isolamento, as redes sociais se tornaram, mais so que nunca, essenciais para que as pessoas interajam com o mundo externo. Nesse contexto, uma ferramenta tem atraído gente de todas as idades: o TikTok reúne crianças, jovens, adultos e idosos em um mesmo ambiente virtual

Ailim Cabral
postado em 07/07/2020 09:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
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(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )
Rose investe na produção para seus vídeos do Tik Tok
O isolamento social trouxe diversas mudanças nas nossas formas de interação com o mundo externo e com os outros. E não há como negar que as redes sociais se tornaram, mais do que nunca, uma ponte com a sociedade. Em alguns casos, para quem vive só, é uma das únicas formas de interagir com amigos e familiares.

Nessa busca, as pessoas conectaram-se em novas redes sociais e aplicativos, buscando entretenimento e interação, e uma plataforma que tem se destacado nesse processo é o TikTok. Com efeitos de vídeo e som, a possibilidade de criar conteúdo original ou dublar e recriar tendências e desafios, o aplicativo tem atraído usuários das mais variadas idades. O sucesso é tanto que o app, desenvolvido na China, fez o todo-poderoso Instagram correr atrás e criar uma ferramenta similar, o Reels.

Na página inicial do TikTok, em poucos minutos, é possível ver vídeos criados por crianças, adolescentes, jovens, adultos e até idosos, que, mais recentemente, descobriram o aplicativo. Além de ter produtores de todas as idades e classes sociais, os consumidores desses conteúdos também se diversificam.

O bancário e tiktoker, como são chamados os usuários da rede, Yan Carlo Pacheco de Lima, 30 anos, começou apenas assistindo aos vídeos e hoje tem um perfil com mais de 20 mil seguidores. Ele baixou o app em janeiro e, um mês depois, enxergou a possibilidade de vencer a timidez e investir nas encenações, pois sempre gostou de exercitar o lado artístico. ;Tornou-se uma ferramenta para que eu fosse me desinibindo aos poucos;, conta.

Com o início do isolamento social, a frequência de Yan no TikTok aumentou. ;Chegava em casa e só ia mexer com isso depois das 23h. Agora, consigo me dedicar mais e aprimorei meu conteúdo;. Com mais tempo, o número de seguidores e visualizações também aumentou. Yan investe em um dos queridinhos do TikTok, os vídeos de dublagem e humor. O bancário acredita que, no começo, as pessoas tinham um certo preconceito com o conteúdo da rede, achavam que era ;pagar mico;, pelo tom divertido e os filtros que têm a função de divertir e não embelezar.

;No Instagram, as pessoas preferem se mostrar sempre bonitas e glamourosas; no TikTok, não. A gente faz piada com a gente mesmo e não tem medo de parecer ridículo, porque a ideia é se divertir e tirar o foco dos problemas. Ser feliz consigo mesmo;, afirma.
Yan investiu no app como forma de vencer a timidez
Yan acredita que liberdade para ousar, brincar e se jogar sem se preocupar são alguns dos elementos responsáveis pelo grande sucesso do aplicativo com um público diversificado. Outro aspecto importante, para ele, é o engajamento do conteúdo: você não precisa estar entre os mais famosos do app para ter seu vídeo na página inicial, e isso permite que os usuários cresçam com mais facilidade.

Natureza humana


A psicóloga Fabiana Vieira Gauy afirma que, com o isolamento social, as pessoas têm buscado estratégias de conexão. E, pela facilidade de navegar e criar no TikTok, ele tem sido uma das ferramentas preferidas. Além de ser uma maneira de se conectar com os outros e lidar com o distanciamento, Fabiana acrescenta que a rede traz o alívio do tédio com o lado cômico e descontraído. E tem a vantagem de ser uma plataforma que inclui o público infantil, sem restrições de idade, como outras redes.

A profissional atribui o grande aumento no número de acessos e perfis justamente à diversidade e à facilidade de navegação. ;Ajuda as pessoas a lidar com a necessidade de interação social, que faz parte da natureza humana.;

Dos 12 aos 54


A vida útil de uma rede social costuma ; ou costumava ter ; uma certa lógica. Primeiro, a plataforma faz sucesso entre os jovens; depois de um período, a novidade passa. Os mais velhos, que tendem a demorar um pouco mais para se acostumar a novas funcionalidade e tecnologias, começam a criar seus perfis e se tornar mais ativos. Os mais jovens, então, continuam o ciclo e migram para a próxima novidade.
Catarina começou a fazer vídeos com a mãe, Luciana Ribeiro, e acabou dominando a rede
Ou seja, as faixas etárias costumam se dividir e ser mais ou menos presentes, a depender da rede. No TikTok, o fenômeno não se aplica. No app, todos estão ativos ao mesmo tempo e interagindo entre faixas etárias. Nestas páginas, por exemplo, temos tiktokers brasiliense de 12, 17, 30, 35 e 54 anos. A mais nova, a estudante Catarina Ribeiro Imbroisi, começou a fazer vídeos com a mãe, a empresária Luciana Ribeiro, 46 anos.

Em dezembro do ano passado, as duas faziam danças e desafios juntas. A ideia era uma diversão entre mãe e filha, mas logo a timidez de Luciana se fez presente e os vídeos individuais de Catarina se tornaram mais comuns. ;Ela ficava com vergonha de fazer as dancinhas e as dublagens. A gente ri muito quando eu danço, e ela tenta copiar;, conta a estudante.

Além das danças e dublagens, os mais de 5 mil seguidores de Catarina acompanham vídeos da rotina da jovem e de desafios, que se tornaram muito mais frequentes com o tempo livre extra que surgiu com o isolamento.

Luciana, que tem um perfil para acompanhar as publicações da filha, afirma que está sempre de olho nos comentários e no perfil dos seguidores. ;Já pedi para apagar um vídeo que tinha linguagem que não condizia com a idade. Além de monitorar, estou sempre orientando para não conversar com estranhos, por exemplo.;

Catarina se diverte no TikTok, interage com as amigas e segue diversos tipos de perfis, como o de idosos que produzem conteúdo com os netos. ;É muito legal, porque muitos idosos estão solitários no isolamento e sentem falta de carinhos. Nos comentários, as pessoas elogiam, incentivam e eles agradecem, interagem.; Para a estudante, a rede permite que as pessoas aprendam coisas novas, distraiam-se e até mesmo descubram talentos escondidos, além de interagir com os amigos afastados.

Em busca de oportunidade

Maria Eduarda enxerga o Tik Tok como diversão e oportunidade
Maria Eduarda Mol Mohamed, 17 anos, entrou no Tik Tok antes mesmo que a rede tivesse esse nome, há cerca de dois anos, e permaneceu no app depois das mudanças, que considerou positivas no quesito engajamento. A estudante cria vídeos chamados de ;POVs;, abreviação para a expressão em inglês point of view ; ponto de vista, em livre tradução ; e aposta na atuação e criação de pequenas histórias e narrativas.

Fã de comédias e POVs, Maria Eduarda acredita que o TikTok caiu nas graças do público por permitir que qualquer usuário com conteúdo de qualidade cresça e conquiste visibilidade. Com o sonho de ser atriz e investindo nas redes sociais profissionalmente, ela chega a passar cinco horas produzindo um vídeo, e acredita que o app valorize seu trabalho e traz oportunidades.

Durante o isolamento, afirma que suas visualizações aumentaram mais ainda e até o pai, que nunca tinha usado, passa o dia rindo dos vídeos de comédia no perfil recém-criado.

Quebrando preconceitos

Cadeirante e atleta, a assistente social Aline Cabral já conta com mais de 40 mil seguidores: desmistificando as limitações de pessoas com deficiência
Menos de 30 dias foi o tempo necessário para a assistente social, atleta de parabadminton e administradora Aline de Oliveira Cabral, 35, alcançar um número sólido de mais de 40 mil seguidores. Cadeirante, Aline usa seu perfil para fazer os desafios e danças e mostrar sua rotina, desmistificando estigmas sobre pessoas com deficiência e quebrando preconceitos. ;Essa visibilidade ajuda até mesmo pessoas que têm vergonha das próprias deficiências. Elas percebem que podem ser lindas, sexys, engraçadas.;

Com uma rotina atribulada, resolveu entrar no TikTok com o tempo livre do isolamento e para fazer parte do que as amigas tanto falavam e comentavam. ;Não tinha expectativa de ficar postando muito, mas peguei gosto e hoje posto de tudo: minha rotina, danças e meu trabalho.;

Um de seus vídeos com maior repercussão foi em que fez uma dança sensual. Ela ressalta que muitas pessoas têm dúvidas quanto à vida sexual de pessoas com deficiência e o quanto é importante desconstruir a ideia de invalidez que muita gente ainda preserva.

Para a atleta, o isolamento social ressaltou que não temos controle da vida e, por isso, precisamos aproveitar e valorizar cada momento. No TikTok, ela gosta de ver vídeos que a façam sorrir e se desligar da negatividade.

Fã dos filtros, que a livram de ter que usar maquiagem sempre que grava, avalia que as redes sociais têm ligado as pessoas ao mundo e permitido que se sintam menos solitárias. ;Vejo muitos idosos e acho válido, pois o divertimento deles era sair de casa, estar com os netos e amigos, e, graças à internet, podem se distrair e se sentir amados.;

Divertimento em família

Os vídeos produzidos por Roze; a filha, Maju; e o marido, João Henrique, têm ajudado o patriarca a se recuperar, após ter sofrido um AVC
Para a família da assessora Ruzielde Aparecida de Souza, 54 anos, o TikTok é uma fonte de diversão, mas vai muito além da distração. O aplicativo funciona, também, como forma de terapia alternativa durante o isolamento social. Na rede social há três anos, Roze, como é conhecida, tem feito diversos vídeos com a filha, a atriz Maju Souza, 20 anos, e o marido, o aposentado João Henrique Rucinski, 58, que sofreu um AVC e começou a recuperar os movimentos de um ano para cá.

Ela conta que as dublagens, os desafios e as danças ajudam João a trabalhar a área motora e cognitiva, além de os deixarem extremamente feliz. ;Alguns vídeos ele mesmo pede para fazer, pois o ajudam a se sentir mais seguro de si e confiante. Fica muito feliz com os comentários de incentivo, de apoio, e isso ajuda muito na superação. Tornou-se um app que me faz acreditar em um mundo melhor;, conta Roze.

Em junho, a família fez um desafio para trabalhar a coordenação motora fina e cognitiva. A cada erro cometido por Roze e Maju, João podia maquiá-las como quisesse. A terapia e a diversão foram garantidas. Além do processo terapêutico para João, o Tik Tok é onde Roze busca e ensina receitas diferentes e como se sente mais livre, mesmo estando dentro de casa. Poder mostrar para as pessoas o que sente, pensa e gosta faz com que a assessora se sinta menos solitária.

Vídeos mais sérios, de reflexão e lições de vida também são alguns dos conteúdos curtidos por Roze, além de imagens de grandes ondas e praias distantes. Para ela, a diversidade de material e de usuários permite uma interação benéfica entre idosos e jovens, por exemplo. ;Você vê uma troca genuína, as pessoas comentam, elogiam, são gentis, incentivam e fazem com que o outro se sinta lindo e amado.;

Cuidado com os excessos


Apesar de o TikTok trazer inúmeros desafios que reúnem a família e permite a interação entre os mais velhos e os mais jovens, é importante ficar de olho nos excessos. ;Não podemos esquecer que o uso excessivo de eletrônicos pode ser prejudicial para crianças e mesmo para os adultos. No momento em que vivemos, esse tempo aumentou naturalmente, mas precisamos tomar cuidados;, alerta a psicóloga Fabiana Vieira Gauy.

O home office e as aulas on-line já aumentam consideravelmente o tempo em que passamos em equipamentos eletrônicos, a isso somam-se as redes sociais e o lazer dos jogos, além das chamadas de vídeo com amigos e parentes distantes. Fabiana sugere o equilíbrio. É ótimo que a família se divirta virtualmente e crie conteúdo unida, mas também é importante investir em outras formas de entretenimento, como jogos de tabuleiro, assistir a filmes e até mesmo cozinhar juntos.

O endereço dos nossos entrevistados

Yan ; @yancpl
Catarina ; @catarina7778
Maria Eduarda ; @mariaa_mml
Aline ; @alineolica
Roze ; @roze5souza
Maju ; @maju4souza

Boicote ao Facebook

Uma campanha de boicote mundial ao Facebook ameaça a rede e o Instagram, ambos de Mark Zuckerberg. O protesto é liderado por ONGs norte-americanas que combatem o preconceito e o antissemitismo e exigem que as plataformas tenham mais ações contra racismo, discursos de ódio e disseminação de notícias falsas. O boicote conquistou apoio de marcas de moda esportiva, como a The North face e a Patagonia, de grandes conglomerados, como a Unilever, e de marcas como Starbucks, Coca-Cola e PepsiCo, que prometem suspender a publicidade nas redes, algumas podendo chegar até o fim do ano sem retomar os anúncios. A campanha já custou cerca de R$ 39 bilhões a Zuckerberg, que anunciou novas ações para combater publicações com discurso político que violem suas regras e medidas de proteção a minorias.


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