Jornal Correio Braziliense

Superesportes

Parada dura para o atletismo brasileiro em Pequim

Com 45 competidores, o Brasil enviará para os Jogos Olímpicos um número recorde de participantes na modalidade. Porém, para especialista, apenas quatro deles têm chances de chegar às finais de suas provas

O Brasil participará das competições de atletismo nos Jogos de Pequim com 23 homens e 22 mulheres. O total de 45 atletas é recorde ; supera os 42 que foram a Atlanta (EUA), há 12 anos. As provas da modalidade que deram origem às olimpíadas serão de 15 a 24 de agosto. Já no primeiro dia do evento três brasileiros disputarão a série preliminar dos 100m, no Estádio Nacional Olympic Green: Vicente Lenilson, José Carlos Moreira e Sandro Viana. Mantendo a tradição, a maratona encerrará o torneio de atletismo, prova de 42,195km em que o país estará representado por Marilson Gomes dos Santos, Franck Caldeira e José Telles de Souza. Comparativamente à primeira olimpíada do século, Sydney-2000, a equipe de atletismo cresceu, com destaque para a representação feminina, que saltou de 16 competidoras para 22. Os homens, que há oito anos eram 20, agora serão 23, em Pequim. Desses, apenas dois são de Brasília, Hudson Santos Souza, especialista nos 1.500m, que vai para a sua terceira olimpíada, e o maratonista Marilson Gomes dos Santos, que estréia nesse milenar evento. O crescimento da delegação não significa, necessariamente, mais possibilidades de medalhas. Ao contrário, dos 45 atletas selecionados 30 estrearão em Jogos Olímpicos, mas com poucas chances de chegar às finais. Surpreendentemente, no país em que são realizadas centenas de excelentes provas de rua, nenhum atleta se classificou, no masculino e no feminino, para os 5.000m e 10.000m. Um detalhado estudo realizado pelo professor Fernando Franco, que dirige o Centro de Estudos de Atletismo (CEA), em Brasília, identificou que das 22 provas que o Brasil terá atletas no masculino, 12 tiveram os índices de classificação facilitados, em comparação aos exigidos para os Jogos de Sydney. ;Nesse tempo, dois ciclos olímpicos, não tivemos atletas evoluindo nos tempos e marcas?; questiona Franco. Como exemplo, ele cita a prova mais rápida, os 100m rasos. Para os Jogos de Sydney, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) exigiu que no masculino o atleta fizesse 10s20 para integrar a delegação. Agora, para Pequim, o índice foi 10s21. Já nos 200m, o índice era 20s49, há oito anos, e aumentou para 20s59. Já os 1.500m, prova de Hudson Souza, o índice para Sydney foi de 3min36s39, tornou-se mais duro quatro anos depois, nos Jogos de Atenas, com 3min36s20, e voltou a ser facilitado para Pequim, com 3min36s60. Houve provas em que, apesar de o índice ter sido facilitado significativamente, o Brasil não conseguiu classificar ninguém. É o caso do lançamento de dardo, que teve índice de 83m, em 2000, e de 81m80cm, neste ano. Em outra provas, porém, os índices tornaram-se mais duros, como o salto em altura ; de 2,29m para 2,30m. Nessa prova o Brasil estará representado por Jessé Farias Lima. Em 1952, o Brasil ganhou medalha de bronze nessa prova, nos Jogos de Helsinque, com José Teles da Conceição, que saltou 1,99m. No estudo de Fernando Franco, apenas quatro brasileiros têm chances reais de chegar à fase final do torneio de atletismo, em Pequim, e tentar disputar medalha: Maurren Maggi, no salto em distância, Fabiana Murer e Fábio Gomes da Silva, no salto com vara, e Jadel Gregório, no salto triplo. ;Esses atletas têm mantido regularidade nas suas provas e estão entre os melhores no ranking;, diz o especialista. Maurren é a segunda do ranking mundial (6,99m) deste ano. Fabiana, por sua vez, está em terceiro (4,80m) na lista liderada pela russa Yelena Isinbayeva, de 26 anos, com 5,03m, recorde mundial obtido em 11 de julho. No salto com vara Jessé Farias fez 2,30m, em maio, 12ª marca da temporada. Finalmente, o triplista Jadel Gregório. ;Jadel está em nono, no ranking, com 17,28m. Ele terá de saltar 17,45m para tentar medalha. Não é difícil, mas neste ano ele ainda não mostrou essa marca;, avaliou Franco. Ele explica: ;Para chegar a uma final olímpica, o atleta deve estar entre os 20 melhores do mundo, um mês antes dos jogos. Caso contrário, não conseguirá uma evolução expressiva de uma hora para outra;. Crítico do sistema de índice para formar a delegação, Franco diz que esse critério engana. ;Nas provas de velocidade e de saltos horizontais, por exemplo, muitos atletas vão conquistar o índice em cidades de grande altitude, que facilita melhorar os tempos. Isso é enganoso, pois quando descem e competem em situação contrária o resultado não é o mesmo;. Para o professor, a CBAt deveria formar sua equipe com todos os atletas que, um mês antes da competição, tivessem tempos e marcas compatíveis com os registrados nas respectivas semifinais da olimpíada anterior. ;Assim, levaríamos apenas os que tivessem chance de ir à final.;