Superesportes

Clubes brasileiros descaracterizam seus uniformes em busca de aumento nas receitas

Camisas estão cada vez mais poluídas e desagradam torcedores

postado em 02/02/2010 08:26
São Paulo ; A cada ano que passa os uniformes dos clubes brasileiros ficam mais parecidos com carros de Fórmula 1: lotados de marcas de patrocinadores. O maior exemplo do loteamento de espaços é o Corinthians, que expõe a marca do laboratório Neo Química no peito e nas costas, o creme barbeador Bozzano nos ombros, o desodorante Avanço nas axilas e a marca de produtos de limpeza Assim nas golas. Em troca, recebe R$ 41 milhões anuais, o maior patrocínio da história do futebol brasileiro. E o clube ainda quer mais: pede cerca de R$ 12 milhões para ceder o espaço dos calções.

[SAIBAMAIS]De olho na renda recorde obtida pelo Corinthians pelo patrocínio no uniforme, outros clubes seguem o mesmo caminho. O Flamengo, por exemplo, acertou por R$ 28 milhões com a Batavo, empresa que patrocinava o Timão no ano passado por R$ 18 milhões, mas andava insatisfeita com a ;concorrência; de outras quatro marcas na camisa alvinegra, apesar de ser responsável por 90% do faturamento corintiano com o uniforme.

No fim da fila das maiores arrecadações com uniforme, o Palmeiras quer rever o contrato firmado com a Samsung em 2009, por R$ 15 milhões. Na época, foi um grande negócio. Mas o retorno de Ronaldo ao Brasil inflacionou o patrocínio dos uniformes brasileiros ; só o peito do uniforme corintiano hoje vale quatro vezes mais que em 2007. Como não tem um grande craque, não está na Libertadores da América e o contrato com a empresa sul-coreana vai até 2011, o alviverde busca rendas alternativas, como alugar o uniforme do técnico Muricy Ramalho.Com quatro anunciantes, o Corinthians recebe R$ 41 milhões por ano

São Paulo e Santos também querem mais. Os dois clubes romperam com as patrocinadoras de 2009 por não aceitarem os valores atendidos. O clube santista rompeu acordo de R$ 8,5 milhões com a Semp Toshiba e espera no mínimo dobrar este valor com a chegada de Robinho. Já o clube do Morumbi, que por meio de pesquisas descobriu que sua marca vale R$ 80 milhões, rompeu com a LG, que pagava R$ 15 milhões. Enquanto pede R$ 30 milhões e não fecha com nenhuma empresa, o tricolor espera vender 200 mil unidades da camisa ;limpa; e faturar R$ 3,2 milhões.

A corrida por patrocínios e o loteamento de espaços nos uniformes está se transformando na principal fonte de renda dos clubes brasileiros. Em 2007 e 2008, o patrocínio nos uniformes representava apenas cerca de 10% do faturamento, diante de aproximadamente 10% com bilheteria, 20% com cotas de televisão e 30% com transferências de jogadores para o exterior, além de outras receitas. Em 2009, o Corinthians recebeu R$ 12 milhões em bilheteria, R$ 15 milhões em transferências e R$ 31 milhões pelas cotas de TV e contra R$ 18 milhões pelo uniforme. Em 2010, pode alcançar a marca de R$ 50 milhões pelo uniforme e não precisara pedir adiantamento de cotas para a televisão.


Muricy abre espaço para treinadores


A fama de durão de Muricy Ramalho rendeu ao treinador e ao Palmeiras um contrato de patrocínio inédito no futebol brasileiro. Atenta à alta exposição do polêmico comandante alviverde na mídia, a Unimed Seguros vai pagar até o fim do ano a quantia de R$ 1,5 milhão para expor a sua logomarca na camisa e no boné do treinador, que estreou o novo visual no clássico contra o Corinthians. Deste montante, segundo uma revista semanal, mais da metade, R$ 840 mil anuais, vão para o próprio Muricy, que já recebe salários estipulados em R$ 400 mil. Mas o treinador nega que receba qualquer valor, e que exibe a marca para ajudar o clube.

Além de fazer do técnico turrão um outdoor ambulante, a Unimed Seguros vai expor sua marca em placas de publicidade no Palestra Itália, no toldo do banco de reservas e até nos carrinhos de maca. Aparentemente, Muricy não se incomoda em servir de modelo. ;Foi um pedido que me fizeram, mais um parceiro, o Palmeiras está precisando. Claro que aceitei, porque tenho que ajudar o clube;. O presidente do clube, Luiz Gonzaga Belluzzo, aproveitou o acordo inédito para ironizar o rival Corinthians: ;Não é nada tão exuberante quanto a camisa do nosso rival que completa 100 anos.;


Até os árbitros viram outdoors ambulantes


A Federação Paulista de Futebol é pioneira quando o assunto é ceder espaços na camisa da arbitragem. Durante o Campeonato Paulista 2010, árbitros e bandeirinhas vestem gratuitamente na parte da frente do uniforme o logotipo da campanha ;Futebol paulista contra a fome;, organizada pela FAO, entidade da ONU para Agricultura e Alimentação. Mas desde 2007 os juízes e assistentes da FPF levam nas mangas a marca da Motorola, empresa de telecomunicação que cede os rádios digitais que a arbitragem usa nas partidas, além da marca Topper, patrocinadora dos uniformes dos árbitros paulistas há sete anos.

O patrocínio na frente e nas costas do uniforme de árbitros é proibido pela Fifa em competições organizadas por ela mesma, só permitindo o patrocínio nas mangas de árbitros em campeonatos de confederações nacionais. Aproveitando que as regras da Fifa não falam nada sobre competições estaduais ; prática que resiste somente no Brasil ; as federações tratam de lucrar. No Campeonato Paranaense, árbitros usam camisas e calções com a marca da Faculdade Assis Gurgacz, de Cascavel, em troca de R$ 50 mil. No Gaúchão, a fornecedora de uniformes Lupo mantém sua marca escandalosamente no calção dos árbitros. No Mineirão 2009, o banco BGM pagou para expor sua marca na arbitragem apenas nos dois jogos da final entre Atlético-MG e Cruzeiro.


Flamengo topa tudo por dinheiro


Patrícia Trindade


Rio de Janeiro ;
O tamanho do patrocínio da Batavo, no uniforme oficial do Flamengo, não agradou ao torcedor. Mas é o preço que o rubro-negro paga por ter conseguido o maior investimento da sua história ; R$ 28 milhões anuais durante a gestão da presidente Patrícia Amorim, de 2010 a 2012. Esse valor é superior ao da Patrobras, que dava R$ 13 milhões aos cofres do clube por ano.

;O torcedor, que fala que a camisa está descaracterizada, que o patrocinador acabou com o romantismo no futebol e os uniformes bonitos, é o mesmo que cobra a contratação de um ataque que tem Adriano, Vágner Love e um jogador como Petkovic no meio;, alfineta o vice-presidente de marketing do Flamengo, Ricardo Hinrichesen.

Ele foi além. ;O torcedor também cobra títulos estaduais, brasileiros e internacionais. Ele precisa decidir o que quer. Porque ter a camisa limpa e montar um time de ponta é impossível no Brasil. Pode ser que daqui a uns anos a gente se torne uma Europa no futebol, um Barcelona, que se dá ao luxo de recusar investidores e manter o uniforme intacto, fazendo propaganda para a Unicef. Muito bonito, mas hoje nossa realidade é outra;, disse o dirigente.

O repatriamento de craques do futebol brasileiro como Adriano, Vágner Love, Ronaldo, Roberto Carlos e Robinho obrigou as gestões e os departamentos de marketing dos grandes clubes e serem mais flexíveis e permissivos em relação ao maior ;outdoor/; e principal cartão de vistas do time, a camisa. O azul da Batavo, por exemplo, não combina com a tradição rubro-negra, mas os cartolas não estão nem aí para isso. ;O patrocinador hoje tem mais liberdade para escolher e impor algumas regras. A cor do patrocínio, por exemplo, é algo que os clubes brigavam muito. Se minha camisa é rubro-negra e o do cara que está pagando as contas é verde, não tem mais discussão: vai ser verde, porque é ele que honra o salário de funcionários, jogadores e não deixa a luz atrasar. Evoluímos muito. Há três anos, a proposta da Petrobras era de R$ 13 milhões e a da Nike, R$ 7 milhões. Agora, a Bozzano e a Olympikus vão nos dar mais de R$ 50 mil pela temporada. Não dá nem para discutir;, decreta Ricardo.

A nova fornecedora de material esportivo vai pagar quase três vezes mais que a anterior (R$ 20,6 milhões por ano), além dos royalties relativos a 10 lojas espalhadas pelo país. O rubro-negro espera faturar até dezembro de 2013 cerca de R$ 170 milhões só por por meio desse acordo. Mas, antes de a torcida de empolgar muito, é bom lembrar que a dívida rubro-negra com governo, passivos trabalhistas e ações na Justiça também é astronômica, na casa dos R$ 350 milhões.

;Acho que nunca o patrocínio foi tão importante para os clubes como agora. É ele que vai nos dar segurança para quitar as dívidas e aí sim, investir e passar a contar, no futuro, com programas como o sócio-torcedor. O objetivo é fazer com que o clube se sustente sem precisar disso. Mas, para isso, a torcida precisa estar com o clube, ser uma fonte certa de renda. O Flamengo, especificamente, trabalhará com essa meta: fidelizar boa parte dos 35 milhões de rubro-negros espalhados no Brasil", afirma o vice de Marketing.


O número

R$ 170 milhões - Valor que o Flamengo quer faturar com patrocínio até 2013

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação