Jornal Correio Braziliense

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Esnobar Ronaldinho e Riquelme pode custar caro

Dunga e Maradona ameaçam deixar Ronaldinho Gaúcho e Riquelme fora da lista final de Brasil e Argentina. Saiba quando os craques perderam espaço e quais seleções dariam o mundo para tê-los vestindo a camisa 10

Às vésperas da Copa de 2006, as escalações do Brasil e da Argentina eram eles e mais dez. Eleito o melhor do mundo em 2004 e 2005, Ronaldinho Gaúcho vivia um ano de Messi. No auge da carreira, levou o Barcelona ao título da Liga dos Campeões 23 dias antes da abertura do Mundial da Alemanha. A final foi contra o Arsenal, mas poderia ter sido contra o modesto Villarreal. Juan Román Riquelme gastou a bola, carregou o time espanhol nas costas até as semifinais, mas deu adeus diante do time inglês.

A Copa de 2006 chegou e ambos foram inscritos com o número dos deuses de seus respectivos países. Ronaldinho ganhou do técnico Carlos Alberto Parreira a camisa 10 eternizada pelo Rei Pelé. José Pekermann entregou ao maestro Riquelme o algarismo consagrado por Diego Armando Maradona.

Quando a bola rolou, ambos decepcionaram. Nos 431 minutos em campo, Ronaldinho foi um jogador comum. Sem encanto, magia, diversão e muito menos arte, não balançou a rede nem uma vez e entregou apenas um gol de bandeja. O felizardo foi o lateral-esquerdo Gilberto, nos 4 x 1 sobre o Japão. Riquelme brilhou um pouco mais em 455 minutos. Deu três assistências letais e foi equivocadamente substituído no segundo tempo da derrota por pênaltis para a Alemanha, nas quartas de final.

Apesar do fracasso, ambos começaram o novo ciclo de Copa cheios de moral. Dunga ensaiou um castigo a Ronaldinho, mas logo devolveu a camisa 10 ao craque. No entanto, a confiança não foi correspondida. Refém dos problemas particulares e irregular com a amarelinha, o Gaúcho abriu mão de disputar a Copa América, fracassou nos Jogos Olímpicos de Pequim, e demonstrou insatisfação com a reserva em algumas partidas das Eliminatórias. A sucessão de pecados fez com que ele perdesse espaço para Kaká e desse brecha a Júlio Baptista. Nem a temporada regular no Milan garante o perdão.

Na Argentina, Alfio Basile convenceu Riquelme a voltar à seleção na Copa América da Venezuela, em 2007. Após a Copa do Mundo de 2006, o craque tinha dado adeus à alviceleste a pedido da mãe. Revigorado pela conquista da Taça Libertadores, o meia topou retornar. Fez cinco gols no Sul-Americano, mas na final, contra o Brasil, apresentou os apagões recorrentes em sua carreira.

Em 2008, nos Jogos de Pequim, Riquelme esteve frente a frente com Ronaldinho. Mais comprometido ; palavra recorrente no discurso de Dunga ; do que o brasileiro, levou a Argentina do técnico Sergio Batista ao ouro olímpico. No meio do caminho para a Copa, Alfio Basile perdeu o emprego na seleção principal. Diego Maradona assumiu e o ;santo; do meia não bateu com o de D10S.

Riquelme atribuiu sua renúncia à incompatibilidade de gênios com Maradona e a uma crítica pública do técnico. ;Ele (Riquelme) me serve bem fisicamente. Quero que desequilibre nos últimos 20 metros e que se comunique com Messi, Aguero e Tevez. Não quero que ele recue e pegue a bola dos pés do zagueiro Demichellis ou gire ao redor de Mascherano e Gago (volantes). Eu preciso dele driblando perto da área.; Nos bastidores, há outra versão. A preferência de Maradona em transformar Messi em protagonista teria gerado ciúmes. Após o racha, a camisa 10 de Riquelme caiu nas costas do melhor do mundo.


O que eles disseram


"A saída de Riquelme dói, mas não me surpreende. Toda família tem problemas. Nesses 30 anos de AFA, passei por várias situações parecidas e tudo teve solução. O futebol tem dessas coisas"
Julio Grondona, presidente da Associação Argentina de Futebol

"Riquelme ainda convive com altos e baixos na carreira. É muito instável emocionalmente. A favor da volta dele, só o dom nas bolas paradas"
Caniggia, ex-atacante da Argentina

"Ronaldinho tem uma técnica excelente, mas nesse período em que ele jogou pela Seleção, só fez uma boa partida: contra a Inglaterra (na Copa de 2002)"
Zagallo, ex-técnico e coordenador da Seleção Brasileira

"Foi o Ronaldinho quem se desconvocou. Ele voltou a jogar bem agora, mas é tarde. O Dunga tem uma equipe formada e não dá para levar mais de 23"
Pelé, o Rei do futebol

"A qualidade do Ronaldinho é indiscutível. Ele atravessou um momento ruim. Todo mundo passa por isso. Quando o Ronaldinho superar o momento difícil e voltar a mostrar futebol, Dunga pode convocá-lo"
Romário, ex-atacante da Seleção Brasileira


Pressão popular aqui e lá

O clamor pela convocação de Ronaldinho Gaúcho é uma onda que vem e vai no Brasil. Culpa dos altos e baixos do próprio jogador na temporada. O craque disputou 36 das 40 partidas do Milan na temporada, fez 12 gols, mas aos 30 anos não consegue ser tão decisivo quanto há quatro anos. Mesmo assim, seus lampejos criativos interessam ao time de Dunga devido à montanha-russa vivida por Kaká e Robinho.

A falta de comprometimento seria uma das razões para Dunga tê-lo afastado do grupo, mas Ronaldinho rebateu o argumento de primeira em sua última entrevista. ;Desde os meus 15 anos nunca fiquei um ano sem vestir a camisa da Seleção. Para mim, não existe comprometimento maior;.

Os 11 meses sem ser convocado deixam Ronaldinho aflito. A ponto de topar ser meia, atacante ou até ;goleiro; para ir à África do Sul. ;São funções que pra mim não têm problema nenhum. Na época em que eu comecei, com o Vanderlei Luxemburgo, era mais atacante. Com o Felipão, fui meia, atrás do Rivaldo e do Ronaldo. E nos clubes pelos quais passei tive a felicidade de fazer outras funções e ter um bom rendimento;.

Depois de 83 dias longe dos gramados, Riquelme comeu a bola no último superclássico argentino. Maradona viu a vitória do Boca Juniors por 2 x 0 sobre o River Plate de camarote. De lá, ouviu a torcida clamar pela convocação do craque. Nem os dois gols do chileno Medel fizeram D10S ignorar a voz do povo e a exibição do maestro do seu clube do coração. ;Se Medel fosse argentino, já estaria convocado para a seleção. Ele jogou uma grande partida, mas quem arrebentou foi Riquelme;, derreteu-se.

Nos bastidores da partida, comentaristas chegaram a especular sobre uma eventual reaproximação entre Maradona e Riquelme às vésperas da Copa do Mundo, mas as palavras do camisa 10 do Boca no ato da renúncia aparentam ter encerrado a relação. ;Eu e Maradona não temos o mesmo código de ética.;


Ronaldinho Gaúcho

Nome: Ronaldo de Assis Moreira
Nascimento: 21/3/1980, em Porto Alegre (RS)
Idade: 30 anos
Altura: 1,81m
Peso: 80kg
Clube: Milan-ITA
Posição: meia-atacante
Seleção: 92 jogos, 34 gols
Títulos: Mundial Sub-17 (1997), Copa América (1999), Copa do Mundo (2002), Copa das Confederações (2005)
Última partida: Brasil 3 x 0 Peru, em 1 de abril de 2009
Contra a Argentina: 4 jogos, 3 vitórias, 1 derrota, 1 gol
Inesquecível: colocou a Argentina na roda na decisão da Copa das Confederações, em 29 de junho de de 2005, na Alemanha. De quebra fez um gol no massacre por 4 x 1.

Riquelme

Nome: Juan Román Riquelme
Nascimento: 24/6/1978, em Buenos Aires
Idade: 32 anos
Altura: 1,82m
Peso: 75kg
Clube: Boca Juniors-ARG
Posição: meia
Seleção: 54 jogos, 18 gols
Títulos: Mundial Sub-20 (1997),
Sul-Americano Sub-20 (1997), Jogos Olímpicos (2008)
Última partida: Argentina 1 x 0 França, em 11 de fevereiro de 2009
Contra o Brasil: 4 jogos, 1 vitória, 3 derrotas, 1 gol
Inesquecível: fez gato e sapato do Brasil de Carlos Alberto Parreira em 8 de junho de 2005, em Buenos Aires, pelas Eliminatórias para a Copa de 2006. Fez um gol e deu passe para dois de Crespo.


Toma-lá-dá-cá


;Eu sou muito positivo. Nem penso em não ir (à Copa), só em fazer o meu melhor não só nesse Mundial, mas no de 2014 também. É um sonho meu;
Ronaldinho Gaúcho, atacante do Milan

;Cada um teve a sua chance e demonstrou aquilo que tinha. Ronaldinho teve toda a Olimpíada. Agora, cabe
a mim decidir;
Dunga, técnico da Seleção Brasileira, em 3 de fevereiro
de 2010

;Vai me doer muito ver (a Copa) pela tevê, mas hoje eu e Maradona não pensamos igual, não temos os mesmos códigos de ética e a Seleção acabou pra mim. Em junho, estarei de férias;
Riquelme, meia do Boca Juniors

;Um jogador que sai da minha seleção não volta mais. Não importa quem é o técnico ou quais são os métodos, não se abandona a camisa a seleção;
Maradona, técnico da Argentina