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Pelo direito de ser menina

Torneio de futsal em Santa Catarina proíbe inscrição de garota de 10 anos. Mãe da atleta usa as redes sociais para conquistar apoiadores e campanha viraliza. Após repercussão, caso vai parar na Justiça

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 03/09/2019 04:06
Torneio de futsal em Santa Catarina proíbe inscrição de garota de 10 anos. Mãe da atleta usa as redes sociais para conquistar apoiadores e campanha viraliza. Após repercussão, caso vai parar na Justiça






Em abril de 1941, durante o Estado Novo, Getúlio Vargas assinou decreto estabelecendo que ;às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza;. Baseado na premissa de que o futebol feria a ;natureza feminina;, o presidente eliminou qualquer chance de atletas mulheres se profissionalizarem, além de criminalizar o esporte. Quatro décadas depois, a regulamentação da modalidade ocorreu em 1983, graças à luta de jogadoras. A proibição, no entanto, tem reflexos negativos até hoje.

Por ser menina, a goleira Clara Ribeiro, 10 anos, foi proibida de participar da 17; Supercopa América de Futsal 2019. A Tuna Lusa Portuguesa, time em que a garota atua no Pará, enviou a lista de inscritos e recebeu de volta a resposta de que Clara não poderia jogar. Renata Ribeiro, mãe da garota, expõe a justificativa da organização do torneio: ;Nunca abrimos para meninas e não será desta vez;.

Indignada com a situação e buscando sensibilizar os organizadores para liberarem a inscrição da garota, Renata gravou um vídeo da menina emocionada pedindo ajuda para um abaixo-assinado. A petição teve rápido compartilhamento nas redes sociais e contou com mais de 4 mil assinaturas, ultrapassando as 22 mil visualizações. Mas, mesmo após a mobilização, a empresa Super Esporte 10, de Balneário Camboriú (SC), manteve a proibição.

Clarinha, como é conhecida, praticou judô na cidade natal, Ananindeua, no Pará, mas trocou de modalidade. Aos sete anos, tirou o quimono e optou pela bola. ;Eu não gosto de perder e, no judô, eu não ganhava muito. Por isso, escolhi o futsal;, contou a menina. No início, não era bem-aceita pelos colegas e costumava ficar mais no banco do que em quadra. Chateada com a reserva, escolheu a trave e as luvas como novas companheiras. Clara seria goleira.

Rapidamente, destacou-se e virou titular da equipe, na qual é a única menina. Ao saber do torneio em Santa Catarina, ficou animada. A mãe, Renata Ribeiro, fazia docinhos para ela e a filha venderem e conseguirem custear a ida de Clara ao tão sonhado campeonato.

;Foi muito difícil explicar para ela que não podia jogar por ser garota. Quando ela disse para mim que não sentia mais vontade de ser menina, aquilo doeu. É uma coisa que não passa na nossa cabeça. Não sabia nem como falar para ela;, contou, emocionada, a vendedora. ;Eles estavam quebrando meu sonho e eu não gosto de perder nunca;, disse Clarinha, com os olhos marejados.


;Eles estavam quebrando meu sonho e eu não gosto de perder nunca;

Clara, goleira infantil



;Foi muito difícil explicar para ela que não podia jogar por ser garota. Quando ela disse para mim que não sentia mais vontade de ser menina, aquilo doeu. Não sabia nem como falar para ela;
Renata Ribeiro, mãe da atleta

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