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Correio Braziliense

Dois dos mil gols marcados por Pelé foram no DF

No dia em que o feito do Rei faz 50 anos, o Correio recorda os dois gols marcados no DF pelo melhor craque de todos os tempos. Ex-jogadores da cidade lembram como foram os históricos jogos na capital do país


postado em 19/11/2019 04:36 / atualizado em 19/11/2019 08:44


Dezenove de novembro de 1969. Rio de Janeiro. Maracanã. Edson Arantes do Nascimento marca o milésimo gol na carreira. A histórica cobrança de pênalti na vitória sobre o Vasco do saudoso goleiro Andrada, por 2 x 1, pela Taça Brasil, comove o país. Cinquenta anos depois daquele feito, a planilha do Rei com sua coleção de 1.283 bolas na rede registra dois marcados no Distrito Federal. Um antes e outro depois do milésimo.

Personagens das duas vezes em que Pelé jogou — e fez gol — no Distrito Federal, os ex-zagueiros Pedro Pradera e Melo, o Melão, falaram sobre os duelos históricos contra o eterno camisa 10 no caderno Pelé, 70 anos, publicado pelo Correio Braziliense em 2010. Um evitou que o craque perdesse a majestade num confronto com a Seleção de Brasília. O outro quase viveu dia de cinderelo depois de peitar o melhor jogador dentro das quatro linhas.

O primeiro gol de Pelé no DF saiu em 25 de maio de 1967, no demolido estádio batizado com o nome dele, o Pelezão. Capitão da Seleção de Brasília, Melo tirou cara ou coroa com o Rei. Posou para fotos e, quando a bola rolou, quase virou piada. “Lembro, até hoje, que o Pelé tentou colocar a bola entre as minhas pernas para fazer graça com a torcida, mas eu me recuperei a tempo. Gesticulei com ele e ouvi: ‘Você abriu as canetas, pô’”, lembra o militar aposentado Moacir Tremendani dos Santos, o Melo, apelido de família.

Além de zagueiro central, Melo fez o papel de pacificador. “Durante o jogo, o Pelé veio reclamar comigo que o Luís estava entrando demais de carrinho. Ele veio na minha direção e falou: ‘avisa para o teu colega que se ele continuar entrando de carrinho em mim eu vou cair por cima dele de cotovelo’”, recorda. Melo deu o recado. “O Luís virou pra mim e disse: ‘Pô, Melo, eu só estou jogando a minha bola”, contou o beque. “Eu respondi: Cara, eu só estou te avisando, se você continuar com essas jogadas o negão falou que vai te partir no meio”.

O concerto do Santos terminou 5 x 1. Apesar da forte marcação de Luís, Pelé marcou um gol. Coutinho, Toninho, Douglas — substituto do Rei, que saiu aplaudido — e Wilson completaram o placar segundo a ficha técnica fornecida à reportagem por Guilherme Gauche, do departamento de história e estatística do Santos Futebol Clube. O lateral-esquerdo Aderbal fez o de honra no combinado candango. “Nossa seleção era formada praticamente por jogadores do Rabelo. Fizemos o possível para segurar o Santos, mas o time deles era uma academia. Tivemos uma aula. O Pepe chutava forte demais, meu Deus!”, lembra Melo.

Deu bolo

O primeiro gol de Pelé na cidade poderia ter saído em 21 de abril de 1961, na comemoração do primeiro aniversário de Brasília. O Peixe venceu por 4 x 0, mas Pelé não jogou. Leia o que diz a justificativa na edição do Correio: “Pelé foi demoradamente aplaudido quando entrou em campo. Mas o público ficou decepcionado: o famoso craque brasileiro estava sem o uniforme de jogo. O técnico Lula e os médicos do clube revelaram que ele estava contundido”.


“Durante o jogo, o Pelé veio reclamar comigo que o Luís estava entrando demais de carrinho. Ele veio na minha direção e falou: ‘avisa para o teu colega que se ele continuar entrando de carrinho em mim eu vou cair por cima dele de cotovelo’”
Melo, zagueiro da Seleção de Brasília em 1967


O primeiro gol no DF


Data: 25/5/1967
Local: Estádio Pelezão

Seleção de Brasília 1

Zé Válter; Didi, Melo,  Varnesi e Aderbal; Luís e Beto (Paulinho); Sabará, Zé Maria, Edinho (Cid)
e Arnaldo.
Técnico: Samuel Lopes

Santos 5


Cláudio; Lima, Joel, Orlando (Oberdan) e Rildo; Zito (Bougleaux) e Clodoaldo; Wilson, Coutinho, (Toninho), Pelé (Douglas) e Abel (Edu).
Técnico: Antoninho

Gols: Pelé, aos 3, e Coutinho, aos 40 minutos do primeiro tempo. Wilson, aos 18, Douglas, aos 35, e Aderbal, aos 38, e Toninho, aos 44 minutos do segundo tempo.


...e depois do milésimo


O segundo gol de Pelé no Distrito Federal foi em 20 de março de 1974, no velho Mané Garincha. O extinto Ceub perdeu por 3 x 1 pelo Campeonato Brasileiro. Pedro Pradera ousou peitar o rei durante a partida em defesa do lateral-esquerdo Rildo, com quem Pelé jogara na Copa do Mundo de 1966. No dia seguinte, quase calçou uma chuteira dos sonhos.

Na véspera da partida, o técnico do Ceub, Cláudio Garcia, deu entrevista dizendo que Pelé, aos 34 anos, estava desmotivado. Segundo Pradera, o craque interpretou que havia sido depreciado e entrou em campo aborrecido. “Houve uma falta perto da área e ele (Pelé) começou a bater boca com os caras do nosso time. Aí, o Rildo virou pra ele e perguntou: ‘Vem cá, por que tu tá irritado’. Ele respondeu: ‘o teu técnico tá dizendo que eu sou uma m…’”.

No meio da confusão, sobrou para Pradera. “Ele me disse alguma coisa que não lembro e não gostei. Eu era atrevido pra caramba. Olhei pra ele e fui comendo o fígado dele de colherzinha: ‘Vem cá, tu é Pelé para as tuas negas, trata de baixar a tua bola aqui dentro. Você é grande, mas não é dois’. A partir dali, ele não falou mais nada comigo, mas me mandou dois presentes”, revelou em entrevista ao Correio.

Apesar da intimidação, Pelé deixou a marca dele na arena que leva o nome do compadre Garrincha. Nenê e Léo completaram o placar. Gilberto descontou para o time do DF. Após o jogo, Pelé saiu com o amigo Rildo do Ceub. Durante o encontro, elogiou Pradera. “Palavras do Rildo, que hoje mora nos EUA e foi quem me contou: “Gostei muito daquele zagueiro do teu time, é forte e tem muita personalidade. Leva esses presentes e entrega para ele”.

As lembranças eram uma camisa autografada do Santos e um par de chuteiras. “Cara, era uma chuteira da Puma, sonho de qualquer jogador na época”, lembra Pradera. O brinde não ficou com ele. “Não coube nos meus pés. Dei para alguém, só não lembro quem”, divertiu-se o zagueiro. Desapegado, Pradera não guarda nem a camisa. “Está com o meu pai”. (MPL)



“Não coube nos meus pés (a chuteira que Pelé deu de presente). Dei para alguém, só não lembro quem. Cara, era uma chuteira da Puma, sonho de qualquer jogador na época”
Pedro Pradera, zagueiro do Ceub no duelo de 1974


O segundo gol no DF


Data: 20/3/1974
Local: Estádio Mané Garrincha

Ceub 1


Valdir; Luiz Carlos, Pedro Pradera, Emerson e Rildo; Alencar e Rogério (Gilberto); Cardosinho, Renê, Juraci (Carlos Roberto) e Dário.
Técnico: Cláudio Garcia

Santos 3

Wilson; Hermes, Oberdan, Vicente e Turcão; Nelsi, Leo e Nenê (Brecha); Mazinho, Pelé e Edu (Eusébio).
Técnico: Pepe

Gols: Nenê, aos 20 minutos do primeiro tempo. Pelé, aos 23, Léo, aos 28, e Gilberto, aos 33 minutos do segundo tempo.


O DISCURSO DO REI*


Corri para a marca (do pênalti), dei uma paradinha, e chutei. Goooool!


Corri direto para o fundo da rede, peguei a bola e dei um beijo nela. O estádio explodiu, com rojões e aplausos. De repente fui cercado por uma multidão de jornalistas e repórteres. Colocaram microfones na minha frente e eu então dediquei aquele gol às crianças do Brasil. Disse que tínhamos de dar atenção para as criancinhas. Comecei, então, a chorar, fui colocado sobre os ombros de alguém e ergui a bola para o alto. O jogo foi suspenso por 20 minutos, enquanto eu dava uma volta olímpica. Alguns torcedores do Vasco correram em minha direção e me deram uma camisa do time com o número 1.000. Achei estranho, mas não tive alternativa a não ser vesti-la ali mesmo.

Por que falei das criancinhas? Naquele dia, era aniversário de minha mãe, então talvez eu devesse dedicar o gol a ela. Não sei por que não pensei nisso. Mas, diferentemente, na hora, pensei nas crianças. O que aconteceu foi que me lembrei de um acidente que tinha acontecido em Santos alguns meses antes. Eu tinha saído do treino um pouco mais cedo e vi alguns garotos tentando roubar um carro que estava perto do meu. Eram muito pequenos, do tipo para quem se costuma dar um dinheirinho para tomar conta do carro.

Chamei a atenção deles para o que faziam, e eles replicaram que eu não precisava me preocupar, pois só roubariam carros com placas de São Paulo. Mandei-os sair dali, dizendo que eles não roubariam carro de nenhum lugar. Lembro-me de ter comentado, mais tarde, com um companheiro de time, sobre a dificuldade de se crescer e educar no Brasil. Já então me preocupava com a questão da educação das crianças, e essa foi a primeira coisa que surgiu em minha cabeça quando marquei o (milésimo) gol.

Acho que muita gente não entendeu o que eu estava querendo dizer. Fui um pouco criticado, com pessoas me chamando de demagogo. Acharam que eu não tinha sido sincero. Mas isso não me incomodou. Acredito ser importante que pessoas como eu mandem mensagens sobre a questão da educação. Não haverá futuro se você não educar os jovens. Hoje, quando você anda pelo Brasil e vê os problemas que temos, com gente morando nas ruas e gangues em ação, elas também já foram crianças. Agora, dizem que o Pelé estava certo. Não tenho medo de falar com o coração.

*Texto publicado por Edson Arantes do Nascimento na página 52 da autobiografia ilustrada Pelé, minha vida em imagens





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