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Correio Braziliense

Dois dias épicos de vencer, vencer, vencer

Torcida rubro-negra recebe os jogadores em berço esplêndido e festeja duas vezes: o título da Libertadores e o antecipado do nacional, com a vitória do Grêmio. Mas o que seria só festa terminou em tumulto


postado em 25/11/2019 04:06 / atualizado em 25/11/2019 10:44

(foto: Carl de Souza/AFP )
(foto: Carl de Souza/AFP )

Diz o clichê que o Rio de Janeiro é futebol e carnaval, e o que se viu ontem, no Centro da cidade, foi exatamente a união disso. Centenas de milhares de rubro-negros se aglomeraram na Avenida Presidente Vargas para receber o elenco do Flamengo, campeão da Copa Libertadores e, também, campeão brasileiro antecipado por causa da vitória do Grêmio sobre o Palmeiras, por 2 x 1, em São Paulo. A equipe agora entra em campo quarta-feira para o jogo das faixas contra o Ceará, pela 35ª rodada, às 21h30, no Maracanã.

Mas nem tudo foi festa. Vinte e três pessoas ficaram feridas num tumulto entre policiais militares e torcedores no fim da recepção. PMs jogavam bombas de gás e de efeito moral na multidão, e eram atacados com pedras, garrafas e outros objetos. Um guarda municipal foi atropelado por uma caminhonete da corporação que dava ré, mas se levantou rapidamente e não teve ferimentos graves – foi atendido numa UPA da Tijuca. Os demais foram levados para o hospital Souza Aguiar, perto de onde aconteceu o tumulto.

Em entrevista à TV Globo, o porta-voz da PM, coronel Mauro Fliess, disse que os policiais que atuavam na região identificaram algumas pessoas como agressores e torcedores banidos de uma torcida organizada. Segundo a corporação, 1,3 mil homens estavam disponíveis para fazer a segurança no local. Alguns policiais, porém, sacaram armas letais como forma de intimidar os torcedores que os atacavam.

 

A confusão ocorreu perto da estátua de Zumbi dos Palmares, pelas 16h30. O trio elétrico com os campeões tinha feito uma curva antes do monumento, para tomar a direção da Zona Sul e, assim, encerrar o desfile iniciado cerca de quatro horas antes.

O anunciado era que o time iria até o memorial de Zumbi, na Cidade Nova, para acabar oficialmente com a celebração, o que não aconteceu. Pouco depois que o veículo foi embora, a PM jogou a primeira bomba na multidão, aparentemente para dispersá-la, mas isso não foi esclarecido. Houve correria e alguns torcedores atiraram objetos nos PMs.

O tumulto, então, piorou, mas após cerca de meia hora tinha se reduzido e logo acabou. Pelo menos um homem foi detido. Até a confusão, não havia registros de conflitos entre policiais e corredores, só registros de furtos de celulares.

 

Recepção de gala

O time chegou ao Rio de Janeiro no fim da manhã, menos de 24 horas após derrotar o argentino River Plate de forma épica em Lima, no Peru, e foi direto ao encontro do seu extasiado torcedor. O atacante Gabriel, autor de dois gols na decisão e artilheiro da Libertadores, foi de certa forma também o mestre de cerimônias extraoficial da festa rubro-negra. Mesmo com todo o elenco em cima de um trio elétrico, foi o atacante quem mais se dispôs a empunhar o microfone e inflamar a torcida, principalmente repetindo os cânticos comuns nas arquibancadas do Maracanã.

Sobrou também provocação para os rivais, mesmo de outros estados, como quando Gabigol falou que “o Palmeiras não tem Mundial”. A fala fez o torcedor rubro-negro vibrar — o time paulista é o principal rival do Flamengo no Brasileirão nestes últimos anos. Serviu ainda para antecipar o apoio da torcida ao Grêmio, horas depois. Pelo jeito, deu certo.

A festa pela conquista da Libertadores iniciou pouco antes das 13h, com três horas de atraso ao que estava previsto. O avião fretado que trouxe a delegação do Flamengo teve escolta de caças da Força Aérea Brasileira (FAB) ao chegar ao Rio, e pousou às 11h no aeroporto do Galeão. O elenco só deixou o local uma hora depois.

O trajeto entre o aeroporto e o centro da cidade foi rápido, graças a um forte esquema de segurança, algo que não se viu na partida para Lima. Motociclistas com camisas e bandeiras do Flamengo que seguiam logo atrás do comboio, porém, trataram de garantir que o percurso de 15 quilômetros fosse também de festa. À beira da via ou em cima de viadutos, centenas de pessoas gritavam pelo time.

No centro da cidade, milhares de torcedores aguardavam desde as primeiras horas da manhã. A comemoração atraiu flamenguistas de todas as idades, que entoaram gritos de guerra e canções que exaltavam a equipe.

A vontade de comemorar o título da América, 38 anos depois da primeira conquista, fez com que nem mesmo a dificuldade de caminhar detivesse o entusiasmo do aposentado Ciro Corrêa, de 71 anos. Ele acompanhou o desfile do time de coração com a ajuda de uma muleta. “Vi o jogo ontem (sábado) à noite, não podia perder a festa. Vou andar o que eu puder, o que eu conseguir. Dá para festejar”, afirmou.

Após os festejos que entraram pela noite de sábado, o casal de estudantes Letícia Souza, de 18 anos, e Allan dos Santos, de 23 anos, fez questão de levantar cedo para continuar as comemorações pelo título. “Vamos ficar até o fim (da festa), com certeza”, garantiu Allan. “Pena que choveu ontem, mas fomos comemorar na chuva mesmo. Fiquei toda molhada. Hoje nem passei maquiagem para não borrar na chuva”, lembrou Letícia.

As irmãs Eliane Martins, de 59 anos, e Eni Nascimento, de 55 anos, também foram à Presidente Vargas. “Foi uma festa maravilhosa, de muita alegria, tudo muito pacífico, muitas famílias por aqui”, comemorou a professora aposentada Eliane. “A emoção foi enorme quando a taça passou no caminhão”, completou a torcedora.

 

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