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Correio Braziliense

De Brasília ao brilho no Corinthians

Atacante fala do sonho de "rodar o mundo" jogando futebol, das propostas de clubes do Brasil e da Europa para 2020 e se mostra uma voz na luta pela igualdade de gênero


postado em 29/11/2019 04:17 / atualizado em 29/11/2019 08:36

(foto: Bruno Teixeira/Agência Corinthians)
(foto: Bruno Teixeira/Agência Corinthians)

Victória Albuquerque era considerada uma joia do Minas Icespe, de Brasília. A atacante ajudou o time a vencer o Campeonato Brasileiro A2 em 2018 e, portanto, a colocar pela primeira vez uma equipe brasiliense na primeira divisão do futebol feminino. No ano seguinte, com o objetivo de conquistar espaço, chegou ao Corinthians, aos 20 anos, mas alcançou metas ainda maiores. Titular, foi vice-campeã brasileira, campeã da Copa Libertadores da América e fechou a temporada com três troféus individuais na conquista do Campeonato Paulista — além de artilheira, com 11 gols, foi eleita melhor atacante e a craque da competição. Para fechar o ano, foi convocada pela terceira vez por Pia Sundhage para a Seleção Brasileira nesta semana. “Descrevo minha temporada como uma bomba do bem, muito eletrizante.”


Qual a sensação de fechar o ano com o título Paulista e ainda com três troféus individuais?

A sensação é de muita gratidão. Sou muito feliz por conseguir ajudar o Corinthians da forma que foi. Individualmente e coletivamente, principalmente. A palavra que define tudo é gratidão.

Fale um pouco da emoção de abrir o placar na final do Paulista, contra o São Paulo, diante de 28.862 pessoas em Itaquera, recorde de público para um duelo entre clubes femininos no Brasil.
A sensação foi de explosão de sentimentos. Não consigo descrever exatamente o que eu senti na hora, mas foi uma alegria, com euforia, com vontade de chorar. Ter feito o primeiro gol assim para dar uma sacudida no estádio foi surreal.

No discurso da premiação, você falou de igualdade de gênero. Qual a importância de cada vez mais atletas falarem sobre isso?
A importância é gigantesca. O posicionamento que nós, atletas, devemos tomar em relação ao que lutamos é importante, pois quanto mais as pessoas souberem, quanto mais expormos isso, mais retorno teremos. Sou sempre a favor de lutarmos pelo que merecemos ter.

Outro título marcante foi o da Libertadores. Como foi disputar a primeira competição internacional com o Corinthians?
Eu disputei a Libertadores no ano passado pelo Audax, emprestada, mas pelo Corinthians foi a primeira. Então, para mim e para o currículo de toda atleta, é muito importante. Não só disputar uma Libertadores, mas ser campeã é um estímulo de valorização para a atleta, marca a carreira e é muito importante que consigamos ter isso. Foi incrível desde o início. Foi bem difícil e bem conturbado pela situação do país (Equador), mas no final foi muito gratificante.

Como avalia a Conmebol ter mantido a Libertadores em Quito, no Equador, em meio aos protestos no país?
A final da Libertadores masculina que seria no Chile mudou de sede. Para nós que estávamos lá, em relação ao povo, fomos muito bem acolhidas e recebidas. Porém, em termos de estrutura, eu não concordo que a competição deveria acontecer lá, porque fomos prejudicadas em termos da parte física, de descanso, de alimentação, por conta de não ter acesso a todas as coisas, de não poder sair do hotel e tudo mais. Eu vi um pouco de desigualdade nessa questão e espero que não aconteça de novo.

Como descreve a sua temporada em 2019?
Como uma bomba do bem. Foi muito eletrizante, mas eu tinha as pessoas certas ao meu lado, eu tive um preparo tanto mental quanto físico para suportar todas as coisas que aconteceram. Além de tudo, teve o meu trabalho e o meu esforço, que foi muito bem recompensado no fim, espero continuar dando muitos frutos bons.

O que você esperava quando chegou ao Corinthians para o primeiro ano na elite do futebol?

Esperava conquistar um espaço, que talvez não tenha sido um sonho tão grande assim. Por isso, que eu fico um pouco surpresa com tudo o que aconteceu, porque o time do Corinthians tinha uma qualidade absurda. Quando eu cheguei, queria um espaço, que talvez seja algo pequeno para o que eu tenho hoje. Então, foi bem surpreendente.

Como foi a sua adaptação no Corinthians e a experiência de morar fora de Brasília pela primeira vez aos 20 anos?
Eu me adaptei bem rápido não só ao Corinthians como a São Paulo inteira. Eu fui muito bem acolhida pelas pessoas, pelas atletas, pelos funcionários do clube, pela comissão técnica. Não tive muita dificuldade de me adaptar, pelo contrário, recebi incentivos e pessoas de bem comigo. Eu amo o Corinthians e amo morar em São Paulo também.

Como foi o trabalho até conquistar a vaga de titular no Corinthians?
O trabalho foi muito árduo, intenso. Houve algumas baixas no time e criaram muita expectativa em mim e eu consegui suprir essas expectativas, consegui responder à altura dessas baixas que tivemos no time. A confiança e fidelidade que as pessoas, os treinadores, a Cris, que é diretora do clube, tiveram comigo foram excelente. Espero continuar dando muitas alegrias ao Corinthians.

Quais os principais aprendizados e dificuldades de 2019 para você?
O maior aprendizado é de que nada supera o trabalho. Nós trabalhamos muito neste ano. Tivemos foco total na temporada e sabíamos que seria muito difícil, que éramos o time a ser batido. Então, precisávamos estar preparadas para todo o tipo de situação e passamos por muitas coisas. O trabalho e dedicação foram essenciais para tudo dar certo e ser como foi.

Como estão os planos para o ano que vem?
Eu não sei da minha continuidade no Corinthians. As conversas sobre renovações ainda não começaram. Tenho várias propostas no Brasil, outras na Europa… São muito boas, mas precisam ser analisadas e não só questão de valores, mas também de estrutura, de liga, de treinadores. Vou escolher uma coisa que ache que seja bom para minha carreira não só futuramente, mas para o meu momento atual também.

Sonha em jogar fora do Brasil? Qual seria o melhor momento para isso?
Sonho em jogar fora do país, acho que os momentos são muito aleatórios. Não tem uma idade ou tempo certo, vai muito da vontade e do momento que a atleta vive. Depende também das propostas, se vale a pena ou não, se vai ser feliz, se vai jogar. É muito complexo, mas tenho o sonho de talvez rodar até o mundo inteiro para ter todos os tipos de experiências que o futebol feminino pode me dar.

Como vê a perspectiva na Seleção Brasileira? Dá para sonhar com as próximas Olimpíadas?
Tenho boas expectativas na Seleção. Sei que sou bem nova e tenho um espaço muito grande ainda para conquistar. Com certeza, eu tenho sonhos muito grandes com isso: Olimpíadas e Mundial fazem parte deles. Mas estou disponível para que eu consiga agarrar as oportunidades quando eu for solicitada. Com certeza, é um sonho muito grande ir para as Olimpíadas e, se for para ser, será.


“O posicionamento que nós, atletas, devemos tomar em relação ao que lutamos é importante, pois quanto mais as pessoas souberem, quanto mais expormos isso, mais retorno teremos”


“Tenho várias propostas no Brasil, outras na Europa. São muito boas, mas precisam ser analisadas. Tenho o sonho de rodar o mundo inteiro para ter todos os tipos de experiências que o futebol pode me dar”



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