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Correio Braziliense

É pau, é pedra, é o fim do caminho

No Mineirão, Cruzeiro perde para o Palmeiras e cai para a Série B pela primeira vez. Torcida celeste transforma o estádio em praça de guerra. Polícia intervém com bombas e força para conter o tumulto


postado em 09/12/2019 04:35 / atualizado em 10/12/2019 08:49

Ídolo cruzeirense, o goleiro Fábio esbraveja diante de um time desmoralizado: dívidas milionárias a resolver(foto: Douglas Magno/AFP )
Ídolo cruzeirense, o goleiro Fábio esbraveja diante de um time desmoralizado: dívidas milionárias a resolver (foto: Douglas Magno/AFP )
 
O dia 8 de dezembro vai ficar marcado como a data da maior decepção dos 98 anos de história do Cruzeiro. Ontem, o time mineiro foi rebaixado à Série B do Campeonato Brasileiro com a derrota por 2 x 0 para o Palmeiras, no Mineirão. Foi a primeira queda do clube. É o pior capítulo da história quase centenária — vai completar 99 anos no dia 2 de janeiro.

Os torcedores se dividiram entre a tristeza e a revolta. Assentos das cadeiras do Mineirão foram quebrados e atirados em direção ao gramado. A polícia se dirigiu às arquibancadas para conter os atos de vandalismo. Sons de bombas eram ouvidos dentro do Estádio do Mineirão. Por conta do tumulto, o jogo foi encerrado antes dos 40 minutos do segundo tempo. Mesmo assim, torcedores corriam assustados com crianças no colo para fugir do tumulto.

O time mineiro chegou à última rodada com a obrigação de vencer o Palmeiras. Além disso, tinha de torcer por derrota do Ceará diante do Botafogo no Rio. Não conseguiu nem uma coisa nem outra. No Estádio do Engenhão, o resultado foi o empate por 1 x 1.

Obviamente, a queda não foi definida ontem. O Cruzeiro caiu ao longo da temporada, a cada troca de treinador — a sequência teve Mano Menezes, Rogério Ceni, Abel Braga e Adilson Batista —, e também por conta da grave crise financeira e das irregularidades na venda de jogadores que ainda podem gerar sanções na Fifa. A queda se definiu por um processo lento ao longo de 2019.

Havia esperança da torcida no início do jogo. Na hora do Hino Nacional, os torcedores rezaram e foram acompanhados pelo técnico Adilson Batista. Os cruzeirenses tinham uma esperança miúda, que foi se diluindo no decorrer da partida em que o time mais uma vez criou e não mostrou força para evitar o rebaixamento.

Não foi um jogo de rigorosa obediência tática. Nem poderia ser. A bola queimava no pé dos cruzeirenses nas jogadas mais agudas. O time da casa também teve dificuldades para superar os desfalques. Dedé, Robinho e Rodriguinho estavam contundidos; Ariel Cabral, Edilson e Egídio, suspensos. Thiago Neves foi afastado do grupo.

Além do nervosismo e da ausência de peças importantes, o Cruzeiro teve de resolver uma questão tática delicada. A equipe não quis acelerar o jogo e atacar com muitos jogadores para não correr riscos de sofrer o contra-ataque — sofrer um gol seria um golpe quase mortal. Foi esse drama que o time viveu aos 44 minutos, quando cruzou e o zagueiro Cacá afastou.

Melhor tecnicamente, o Palmeiras tomou a iniciativa em vários momentos. Teve mais tranquilidade para atacar. As chances, no entanto, foram raras. Nesse contexto, o jogo se arrastou morno. A grande alegria da torcida cruzeirense veio do Rio de Janeiro. Por volta dos 39 minutos, o Botafogo abriu o placar diante do Ceará, resultado fundamental para o time de Belo Horizonte. Cruzeirenses vibravam como se o gol tivesse saído no próprio Mineirão. Metade do caminho estava percorrido. Mas o time não conseguiu fazer a parte que lhe cabia.

No início do jogo, Adilson Batista optou por um ataque mais rápido com Ezequiel e Pedro Rocha, mas a bola não chegava. Ele trocou Ezequiel por Sassá para conseguir maior efetividade e passou a atacar mais. O castigo veio ligeiro, em um contra-ataque. Aos 12 minutos do segundo tempo, Dudu deu belo toque de calcanhar, Diogo Barbosa cruzou e Zé Rafael calou o Mineirão: 1 x 0.

O rebaixamento do Cruzeiro começava a se confirmar. Dez minutos depois, o silêncio se tornou absoluto: no jogo do Rio, o Ceará empatou. Com isso, a combinação de resultados necessária para se salvar estava duplamente comprometida. O segundo gol do Palmeiras, com cabeçada no ângulo de Dudu, acabou com qualquer chance de reação.

O clima ficou tenso com tumulto nas arquibancadas e a partida foi interrompida. Sons de bombas eram ouvidos dentro do estádio. Diante da tensão nas arquibancadas, o árbitro carioca Marcelo de Lima Henrique decidiu encerrar a partida antes dos 40 minutos.


“Foram temerárias as coisas que foram feitas. Em busca de ganhar um título, ser bicampeão brasileiro, não pensaram nas consequências. Isso tem um preço. Uma hora essa conta chega. E a conta chegou. Infelizmente, o time caiu e agora temos que pensar em recomeçar. Mas agora me coloco à disposição para ajudar. Quem vai decidir isso é a torcida”
Zezé Perrella, gestor de futebol do Cruzeiro

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