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Correio Braziliense

Do tetra ao Flamengo

Há 25 anos, o astro do amistoso retrô entre as seleções de Brasil e Itália era anunciado como reforço rubro-negro. Romário iniciava os trâmites para deixar o Barcelona numa transação bombástica


postado em 10/01/2020 04:14 / atualizado em 10/01/2020 08:19

Na partida de ontem, Romário comemorou um gol, mas o lance foi anulado por impedimento(foto: Lucas Figueiredo/CBF )
Na partida de ontem, Romário comemorou um gol, mas o lance foi anulado por impedimento (foto: Lucas Figueiredo/CBF )

Fortaleza —
Eram 16h35 da tarde de ontem. Acredite se quiser: Romário não foi o último a fazer o check-in na concentração da Seleção Brasileira Master para o duelo retrô contra a Itália, no Estádio Presidente Vargas, entre os finalistas da Copa de 1994. Mais atrasado do que o Baixinho para o evento batizado pela CBF de “Seleções de Lendas”, somente o ex-lateral-esquerdo Branco. Eleito número 1 do planeta depois do Mundial nos Estados Unidos, o atacante e hoje senador causou alvoroço na porta do hotel proporcional ao de 10 de janeiro de 1995. Há exatos 25 anos, os jornais chegavam às bancas com a notícia de que o ex-jogador do Barcelona havia sido anunciado oficialmente pelo então presidente Kleber Leite como reforço do Flamengo.

Autor de cinco gols na Copa de 1994, Romário estava próximo de completar 28 anos. Atingira o auge da carreira e trocou o clube catalão, comandado à época por Johan Cruyff, pelo projeto do professor Vanderlei Luxemburgo. O mandatário do Barcelona, Joan Gaspart, pediu US$ 4,5 milhões. O clube carioca garantiu o pagamento com o auxílio de um pool de empresas. “A minha volta foi uma das decisões mais importantes que tive na vida e, se fosse hoje, teria feito exatamente o mesmo”, disse Romário ao Correio.

A melhor definição do alto nível do craque foi dada pelo tetracampeão Branco, ontem, na chegada ao hotel para o duelo com a Itália. “Romário não jogava, dava show no Barcelona e na Seleção. Aliás, eu e ele”, brinca o ex-lateral-esquerdo. Ele também foi contratado pelo Flamengo para integrar o badalado elenco no ano do centenário.

Parceiro de Romário no time titular na campanha do tetra, o volante Mazinho afirma que não se surpreendeu com a decisão do craque. “Conhecendo o Romário como eu (desde os tempos de Vasco), nada vindo da cabeça dele era surpresa para mim”, riu o contemporâneo do Baixinho. “Aquilo foi bom para o futebol brasileiro, para todos nós”, emendou Branco.

Ex-agente de jogadores, o terceiro goleiro Gilmar Rinaldi lembra da transação com a frieza de quem conhece o mercado da bola. “Foi o fechamento de um ciclo, natural. Lembrou muito o retorno do Falcão ao Brasil em 1985, quando eu jogava no São Paulo. O Flamengo fez um negócio gigante, mas a valorização do real ajudou (a nova moeda entrou em vigor em 1994)”, pondera.

Negociação

Mentor da engenharia financeira, o ex-presidente Kléber Leite recorda os momentos que antecederam o anúncio oficial, em 10 de janeiro de 1995. “Plagiando o Bruno Henrique, foi o momento em que o Flamengo mudou de patamar, passou a ter a noção do tamanho exato dele. Procuramos o máximo que pudéssemos alcançar, que era ter o melhor jogador do mundo, e conseguimos. O Romário estava na forma plena dele. Fiz o meu primeiro contato com ele e senti firmeza. Ele desejava retornar ao Brasil. O caráter dele foi impressionante. Isso me animou para correr atrás do dinheiro”, recorda o ex-dirigente.

Kléber Leite lembra que o pool de empresas era formado pela Cervejaria Brahma (atual Ambev), Multiplan, Banco Real e Banco Bozano Simonsen. “A prefeitura e a Petrobras também participariam da ação, mas desistiram”, explica. “Viabilizamos o negócio, fomos até Barcelona tratar com o Joan Gaspart, e ele não botava fé de que teríamos dinheiro. Perguntou até como pagaríamos. Respondi: ‘Em plata’. Mesmo assim, tentaram colocar obstáculo. A contratação dele foi um marco. Tínhamos 4 mil sócios e passamos a 40 mil. O restante da história é conhecida. Tudo aquilo só foi possível por causa da retidão de caráter do Romário. Ele foi decisivo ao dizer ao Barcelona que desejava retornar ao Brasil”, elogia Kléber Leite.

Massaro: de vilão em 1994 a carrasco em 2020 

Foram 120 minutos de 0 x 0 na final da Copa de 1994, mais 68 minutos na reedição da decisão, ontem, no duelo entre as seleções masters de Brasil e Itália, no Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza, na festa que marcou a retomada da Seleção de veteranos. Coube ao vilão Massaro, que teve o pênalti defendido por Taffarel na decisão do Mundial dos Estados Unidos, o papel de carrasco verde-amarelo no triunfo da Squadra Azzurra por 1 x 0. O duelo teve dois tempos de 35 minutos e a rede só balançou aos 34 da etapa final. Berti tentou finalizar de calcanhar, a bola desviou em Cafu e sobrou para Massaro fuzilar Gilmar Rinaldi. O terceiro goleiro na campanha do tetra substituiu Taffarel durante o clássico.

Depois da partida com presença de 18.726 pagantes, o presidente da CBF revelou a intenção de repetir eventos como o de ontem na capital cearense.  “Estamos resgatando o reconhecimento aos grandes jogadores da história do Brasil. Trazendo de volta a Seleção de masters em termos oficiais. Está resgatada para sempre. É a primeira degustação com um grande evento, investimento. É mais um jogo para valorizar os jogadores”, explicou Rogério Caboclo.

Relator da CPI da CBF no Senado, Romário foi uma das atrações do jogo, mas o mandatário da entidade nega qualquer tipo de toma lá dá cá. “Romário é o grande ídolo, o artilheiro, o cara de um momento histórico da Seleção. A presença dele é muito importante, mas relações pessoais não mudam por causa disso. Não existe nenhum tipo de troca. Eu sou o tipo de pessoa que não pede nada em troca. Ele sabe disso. Nunca pediria favor para nada, nem para ele nem para ninguém. É um prazer tê-lo em campo em uma relação com a torcida”, disse.



“A minha volta foi uma das decisões mais importantes que tive na vida e, se fosse hoje, teria feito exatamente o mesmo”
Romário, em entrevista ao Correio


US$ 4,5 milhões

Valor da transferência de Romário para o Flamengo


Dali em diante...

Romário desembarcou no Rio às 7h05 da manhã de 14 de janeiro de 1995. Desfilou pelas ruas da Cidade Maravilhosa até a Gávea, onde foi apresentado oficialmente. A estreia foi em um amistoso oficial contra o Uruguai, no Serra Dourada, em Goiânia, em 27 de janeiro.


Quatro perguntas para o Baixinho


Você não participou da primeira festa do tetra em 2019. Por que mudou de ideia agora?

Ano passado não foi jogo. Agora, sim. Meus companheiros me chamaram e vim amarradão. É um momento histórico, para o Brasil, para a Itália, para o futebol mundial. Estou feliz por reencontrar jogadores que viraram amigos para sempre. Para a minha história, para os meus filhos verem. É muito bom estar aqui.

É uma reaproximação da CBF depois de ser relator da CPI?
Não tem nada a ver com minha relação de senador com CBF. Está aqui o ex-jogador de futebol, que foi campeão do mundo e que fez história com a Seleção. Estou aqui para dar chance a uma geração que nunca viu, não o Romário de 25 anos atrás, claro, mas pelo menos ver essa geração vitoriosa. Importante ter esse jogo para uma geração que nunca viu.

Conversou com o presidente da CBF, Rogério Caboclo, e com o secretário-geral, Walter Feldman?

Conversei uns 10 minutos com o presidente, com o Walter, disse a eles que fiquei feliz de ser convidado, ele agradeceu, foi nesse tom a conversa. O convite partiu dos amigos. Jorginho me ligou, o Ricardo Rocha, esse pessoal me ligou e me falou que seria importante estar aqui.

Você e o Dunga travam uma batalha judicial. O capitão e companheiro de quarto no tetra faz falta nesse evento?

Dunga é um cara importante de 1994, pena que não estar aqui, pela importância que ele teve em 1994, não pôde vir.

 

*O repórter viajou a convite da CBF 

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