Superesportes

Esporte salva vidas, tira gente da miséria

Medalha de ouro nos Jogos de Havana-1992 e líder no ranking nacional por dois anos, a segunda maior tenista do Brasil aponta alternativas para o país virar uma potência

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 12/01/2020 04:06
Depois de Maria Esther Bueno, a brasiliense Cláudia Chabalgoity é reconhecida como uma das maiores tenistas do país. Embora hoje se dedique ao projeto Tô no Jogo, que pretende, pelo tênis, desenvolver e incluir pessoas com deficits físicos e intelectuais, continua sendo uma observadora privilegiada do esporte, sobretudo aquele no qual brilhou ; foi campeã pan-americana nos Jogos de Havana e líder do ranking brasileiro por dois anos consecutivos. E o que enxerga não é bom, embora perceba esforços isolados para que o país vá além de modalidades nas quais já é referência, e se torne uma potência esportiva. A seguir, trechos da conversa com o Correio, numa tarde de chuva torrencial, em Brasília.



Em 2020, o Brasil terá somente um torneio da ATP, enquanto a China terá quatro. O Brasil teve Maria Ester Bueno, Gustavo Kuerten, você, Patrícia Medrado, e outros tenistas de expressão. Por que a China, que não tem a tradição brasileira, está com mais importância no circuito internacional?
O Brasil foi um dos países a terem mais torneios ranqueados. Se a gente for falar de economia, nada é desprendido. A gente fala de todo um sistema econômico, cultural e de amor ao esporte, da importância dada ao esporte. Mas o que o Brasil estruturou quando teve vários torneios? Nada, eram só torneios. É uma cultura que ainda enxerga, aqui, o tênis como esporte de elite. Não é mais!

Olhando para a América do Sul, a impressão que se tem é que a Argentina tem mais tenistas de expressão que nós. A sensação hoje é Diego Schwartzman (14;). Tem ainda o Guido Pella (25;). O brasileiro mais bem colocado é Thiago Monteiro (89;). A Argentina é mais pobre, numa situação econômica pior que a do Brasil. Como pode?
É outra estrutura. As pessoas lá gostam do tênis, assistem tênis. Nossa ;diferença; com os argentinos é global: é no futebol, na literatura, nas artes... Essa concorrência entre Brasil e Argentina tem que existir, é legal para poder crescer. Só que a Argentina cresceu e a gente começou agora a crescer, a fazer trabalho de base.

No esporte brasileiro, quem tem estrutura está separado do todo. É o vôlei, o futebol... a natação era genial, até descobrirem que o presidente está sendo investigado em 8 de outubro, a imprensa noticiou que o Tribunal Regional Federal de São Paulo condenou o ex-presidente da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, Coaracy Nunes, a 11 anos e oito meses de reclusão e a três anos de detenção por desvios de recursos públicos na entidade. Ele foi condenado ainda ao pagamento de 487 dias-multa. A decisão foi proferida em primeira instância e a defesa anunciou então que recorreria. O esporte ainda tem que conviver com essas nuances, esses interesses. Quem ama o esporte não rouba ; isso é o que eu acredito. Quer que o dinheiro do esporte seja reinvestido no próprio esporte. No Brasil, ainda não dão valor para a psicologia do esporte porque não vai fazer o campeão. Mas vai fazer uma pessoa, e essa pessoa, quando ela é inteira, com autonomia, com conhecimento do que está sentindo, sobre o que está vendo, vai saber jogar melhor. Vai ter mais chance de atingir o total potencial do que quem é comandado.

O Brasil está abrindo os olhos para coisas assim, mas ainda vai depender muito de quem está no comando.

Em 2010, circulou na internet um vídeo de um menino cobrando do então governador Sérgio Cabral e do ex-presidente Lula uma quadra de tênis, prevista para a comunidade de Manguinhos, em que morava, no Rio. Lula, como resposta, disse que tênis era ;esporte de burguês;. Essa visão ainda persiste?
É desconhecimento. Porque o esporte de burguês está nos países da África em piso de terra, com raquete de madeira. Se não é com a raquete do (Novak) Djokovic, OK, mas pode estar ali um jogador. A Federação Internacional (ITF) faz um trabalho justamente para acabar com essa ideia de que o tênis é um esporte de burguês, e isso já tem anos. Vão dizer que o material é caro, mas quem quer joga com raquete de madeira, improvisa. Hoje, tem muita gente saindo de comunidade carente, aqui e lá fora, ganhando campeonato; tem muito trabalho social trazendo o tênis para a meninada. Eu não sou burguesa! E o que é ser burguês?

Num país que teve Maria Ester, Patrícia Medrado, Nanda Alves, você e poucas outras, Bia Haddad (119; da WTP) é mais uma ave rara?
As mulheres são vistas como aves raras não somente no esporte, mas em vários ramos de atividade. No esporte, eram vistas como homens. Ninguém olhava a tenista como mulher. Já escutei absurdos, tais como o de que toda mulher fica masculinizada no tênis. Imagina! Há mulheres lindas no tênis, femininas. Ver diferentemente disso é falta de cultura, preconceito falar que a mulher se transforma no esporte. Esporte salva vidas, tira gente da miséria.

Falta visão à cartolagem do esporte brasileiro, e do tênis em particular, para buscar iniciativas de popularização, e ganhar apoio de governos e da iniciativa privada? Ou o sistema existente distorce e obriga quem nele entra a jogar de forma que só uns poucos ganham, em detrimento da sociedade?
Uma iniciativa privada séria só vai investir em algo sério. Os governos não sabem o quanto é necessária uma Bolsa-atleta, porque entram e tiram várias delas de pessoas que precisavam para desenvolver suas atividades. Numa transição de governo, as pessoas devem estudar não o que foi feito pelo outro, mas o que está dando certo no esporte. Por que derrubar? No esporte tem dinheiro, mas o poder público tem que sinalizar corretamente. Veja o caso da Olimpíada do Rio: todos nós gritamos ;o que vão fazer depois?; Ninguém ouviu. Está tudo largado, gastaram um dinheirão, gente foi presa. Coisas assim só contribuem para afastar o investidor.

Brasília tem um projeto ambicioso para a região do Mané Garrincha. A ideia dos futuros administradores do complexo é, inclusive, investir em quadras de tênis, aumentando a quantidade das que estão lá, abandonadas. Dá para ter esperança de que iniciativas assim ajudam a popularizar o tênis?
Não tem problema a iniciativa privada investir, mas em parceria com o governo. Porque o investidor vai, legitimamente, querer retirar aquilo que aplicou. Mas tem que haver a participação da sociedade, a aula grátis, o espaço para a inclusão. E deve ser proporcionado tudo do bom e do melhor nesse processo. O governo deve fazer valer sua obrigação de ser o agente social. Acho ótimo que o empresário aplique seu recurso, mas quem vai comandar o processo? Quem está olhando para o negócio? Se está falando de esporte, tem que haver alguém com esse olhar ali dentro. A iniciativa privada deve participar de acordo com o ideal do governo. Há que se manter os objetivos da sociedade nessas parcerias entre a iniciativa privada e o poder público. O esporte transforma vidas e o investidor deve ter também essa pretensão. Se quem aplica dinheiro for convencido disso, arrisco dizer que daríamos um grande passo para acabar com coisas como o tráfico de drogas. Que criança não prefere uma bola a traficar?

Se no tênis ;comum; o Brasil tem imensas dificuldades, no paralímpico esses problemas são exponencialmente maiores. Você tem um projeto para deficientes intelectuais e físicos. Já pensou alguma vez em desistir diante de tamanhas barreiras?
Jamais, porque é isso que me dá vida. Não sou eu que levo vida para eles. Depois que parei de jogar, foi o projeto do tênis em cadeira de rodas que fez meu olho brilhar. E veio quando eu menos esperava. Me perguntei: ;O que é que vou fazer? Não quero ser professora de tênis, diretora de escola de tênis;.

Eu queria mais do que quatro linhas, a gente tem potencial para enxergar o mundo além delas. E eu me sentia muito limitada ali. O projeto Tô no Jogo trouxe o projeto de tênis em cadeira de rodas junto com o desenvolvimento da modalidade e, junto com isso, tive a sorte de ter um presidente do Comitê Paralímpico, o Andrew (Parsons), que fez um trabalho estratégico maravilhoso, e hoje o nosso paralímpico é melhor que o olímpico. O Brasil é um dos poucos países cujo desempenho do paralímpico ultrapassa o olímpico. Esse é um trabalho estruturado.

O novo presidente, Mizael Conrado, está olhando para as escolas, que vão complementar todo esse trabalho bem feito olhando a base. Temos atletas magníficos e conhecidos internacionalmente.

Por isso, não penso em desistir porque isso não é o tênis. O que eu faço no projeto é pegar toda essa experiência para desenvolver o ser humano. Foram eles (os deficientes) que me reincluíram, porque eu estava perdida, até que vi o tênis em cadeira de rodas.

Estamos em negociação para 2020 com a Caixa (Econômica Federal) para o tênis voltado para o deficiente físico e intelectual, para o autista, para o Down, para o cego, para o surdo. A ideia é incluir todos que quiserem. O tênis é só uma ferramenta.
Temos uma pessoa forte encabeçando o trabalho social, que é a primeira-dama (Michelle Bolsonaro). E hoje (a entrevista foi feita em 18 de dezembro), eu tive a certeza de que ela está realmente envolvida. Isso me deu muito mais força.

Raros são os atletas que atingem o auge em Brasília, pois, geralmente, vão para o Rio ou São Paulo, senão para o exterior, em busca de melhores condições de desenvolvimento (o exemplo mais recente é o do jogador Reinier, que foi para o Flamengo e, há dias, negociado com o Real Madrid). O que falta para a capital do país ser um polo esportivo, sobretudo agora que a cidade está às portas dos 60 anos?
Talvez precisemos de um líder com essa visão. A Carmem de Oliveira (ex-maratonista) está aí, a Ricarda (Lima, jogadora de vôlei) voltou, a Leila (Barros, ex-jogadora de vôlei) está no Senado. Brasília é uma cidade perfeita para treinamento. Em São Paulo, você anda muito entre a casa e o treino. Aqui é vasto, é plano, logística favorável com mais facilidade do que no Rio ou em São Paulo. É uma torcida que eu tenho pela nossa cidade. Tivemos bons treinadores e atletas e, de repente, parou. A gente merece muito mais.

Fale sobre seu projeto, o Tô no Jogo?

Estamos negociando com a Caixa para 2020 e estou muito feliz com isso. Geralmente, os ex-atletas montam projetos na periferia, mas preferi focar no deficiente, e de forma natural. Então, nada melhor para incluir que o próprio banco da inclusão social.

A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, é do Distrito Federal. Ela tem envolvimento com a comunidade dos surdos-mudos, um traço de união com outras comunidades de deficientes. É um ponto favorável, é uma nova visão, uma sensibilidade? Isso te anima?
Me deixou muito motivada. Vim do lançamento do Projeto Sinais (lançado em 18 de dezembro, é promovido conjuntamente pelos ministérios da Cidadania e da Educação) e ela está envolvida. O projeto não vai levar apenas esporte, mas também arte e cultura. Desejo demais que ela siga fazendo esse trabalho. O primeiro discurso que ela fez foi em libras e essa parcela da população participou. Isso é emocionante. O social vai vir à tona, o esporte para deficiente vai ganhar o espaço que merece. Teremos o centro de surdos aqui, em Brasília, que ela negociou; a Confederação Brasileira de Desporto para Surdos vem para cá... Estou botando muita fé que, em 2020, as coisas vão seguir em frente.

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