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Correio Braziliense GAMES

Dragon Age: Origins tem história longa e universo rico em detalhes, mas as lutas são ofuscadas pela IA fraca

Título remete a Dungeons and dragons, um clássico do RPG


postado em 05/01/2010 07:00 / atualizado em 05/01/2010 11:01

Existe um processo bem estabelecido em RPGs ocidentais: você cria um personagem, dando a ele o nome, os atributos físicos e a aparência que quiser. Durante o jogo, algo revela que você é o protagonista de uma trama que envolve, entre outras questões, o futuro da terra em que vive. Sua missão é salvar o mundo, cumprindo missões em diversos cenários, de preferência com muitas lutas e sangue. A ‘fórmula’ se encaixa muito bem em Dragon age: origins, novo game da BioWare.

Aqui, o mundo de Thedas está prestes a ser invadido por demônios chamados de darkspawn. O acontecimento é conhecido pelo povo como Blight e já ocorreu quatro vezes. A lenda da primeira aparição destas criaturas malignas é o ponto de partida da narrativa do jogo. Na época, foi criada uma aliança entre seres de várias raças e reinos: os Grey Wardens, que foram os responsáveis por salvar a civilização da catástrofe. Quatrocentos anos depois, você se torna um dos guardiões que juraram combater a darkspawn, e está no epicentro da nova invasão: o país de Ferelden.

 

(foto: EA/Divulgação)
(foto: EA/Divulgação)
 

 

É de se esperar que o título seja repleto de velhas sensações para os fãs do gênero. Afinal, a própria BioWare foi uma das responsáveis por criar alguns desses padrões quando ajudou a trazer para o videogame o conhecido RPG de mesa Dungeons and dragons, com o jogo Baldur’s gate, no fim da década de 90. As semelhanças entre esses dois jogos são propositais. Durante a produção de Dragon age, a desenvolvedora chegou a dizer que o jogo seria o sucessor espiritual da série criada há 12 anos.

O que chama a atenção no game é a variedade de escolhas oferecidas ao jogador. Você pode escolher sua raça (humano, elfo ou anão), sua classe de luta (guerreiro, mago ou ladrão) e sua origem, que varia de acordo com as duas primeiras opções. Essas decisões são cruciais para o restante do jogo, pois determinam a reação dos NPCs à sua presença e à sua visão de mundo. Cada uma delas dá uma história diferente para o personagem até ele se tornar um dos Grey Wardens.

Um elfo, por exemplo, é tratado como um subcidadão, já que esta raça foi escravizada pelos humanos durante um período anterior ao início do jogo. Alguns dos elfos se recusaram a se tornar servos do homem e se isolaram da civilização, vagando como nômades em florestas anciãs. As classes também interferem na interação entre o personagem do jogador e os demais participantes da história. Magos são vistos como seres perigosos em geral, pois as pessoas temem que seus poderes fujam do controle.

No total, o personagem pode ter seis origens diferentes. Ao longo do jogo, o enredo se torna apenas um pano de fundo para mostrar as divisões sociais e raciais marcantes em Thedas. É um mundo com problemas tão complexos quanto os da própria realidade. Para citar alguns, há luta de classes, preconceito racial e corrupção na política. Independentemente da origem, seu herói deve estar preparado para enfrentar não só demônios e outras criaturas ferozes, mas as mazelas da própria sociedade.

Isso é bastante positivo, pois permite que o jogador comece várias partidas movido apenas pela curiosidade de observar como a trama se desenrola com um personagem diferente. Para coroar tal variedade, todo o game teve um bom trabalho de dublagem.

Presentes
É necessário dar crédito ao vasto mundo criado para esta nova franquia. Ainda que as influências de Dungeons and dragons e Senhor dos anéis sejam visíveis, não é exagero dizer que Thedas tem vida própria. Mais do que isso: durante o curso da história, é possível notar que todos os lugares já parecem ter uma tradição própria. A quantidade de contos, lendas e termos chega a ser exagerada. Para não deixar ninguém perdido, o game tem o Codex, um índice que guarda todas as histórias relativas à cultura de Dragon age e os diálogos que você já teve.

Assim como em RPGs antigos da BioWare, você precisará achar os personagens para seu grupo. Recrutá-los, no entanto, não garante que eles o ajudem para sempre. Cada um dos guerreiros tem uma visão diferente sobre você, que é mostrada em um índice de aprovação no menu. Tudo o que você falar e decidir durante o jogo terá um impacto diferente sobre eles. Uma boa aprovação pode fazer com que um personagem revele mais sobre seu passado para você, aumentando alguns atributos de batalha. Se a pessoa for do sexo oposto, pode até rolar um romance.

O contrário também pode acontecer: um personagem que não goste muito de você pode deixar o grupo ou se rebelar. O sistema seria ótimo se não fosse possível burlá-lo com itens que podem ser dados de presente, que fazem aumentar tanto o gosto dos personagens por você quanto uma ação positiva. É possível ofender gravemente algum deles e, após dar algo que ele goste, recuperar boa parte desse prestígio.

Diferentemente de alguns RPGs ocidentais, como Fallout 3 e Fable II, além de outros da própria BioWare, não existe nenhum alinhamento de caráter. Isso deixa os diálogos mais interessantes porque uma fala com uma intenção muitas vezes cria uma reação completamente diferente da imaginada. O jogo não distingue nenhum personagem como bom ou mau e nenhuma das ações de seu personagem podem ser distintas claramente dessa forma. Trata-se de um grande avanço para games do gênero.

Combate
A história e a cultura criadas são o ponto alto de Dragon age: origins, mas, como em todo grande RPG, é necessário ter um complexo sistema de combate. Durante a batalha, é possível deixar as lutas acontecerem em tempo real, configurar em um menu padrões de ação para os heróis (um se encarrega de curar, o outro ataca até morrer), ou pausar o jogo a cada turno e ordenar o que cada um deve fazer. No final, a terceira opção acaba sendo a melhor, pois a inteligência artificial dos personagens não funciona muito bem.

É comum algum dos heróis não seguir os comandos pré-estabelecidos e atacar um inimigo sem você mandar, ou então ficar parado, sem ajudar outro personagem que esteja em perigo. Essa acaba sendo a pior parte do jogo e tira muito o brilho das lutas, que têm pontos positivos, como as combinações entre as habilidades de um personagem. Por exemplo, usar um mago para transformar um adversário em estátua de gelo e ordenar um guerreiro quebrar essa estátua. Quem estiver jogando o game no PC tem uma dificuldade menor com os comandos. Nessa hora, também é possível perceber o quanto o game se adapta melhor ao conjunto teclado/mouse - principalmente pela barra de atalho para as ações de cada personagem, presente na parte de baixo da tela.

Outro ponto que deixa a desejar são os gráficos. O jogo em si não é malfeito. Tem belos cenários e efeitos visuais interessantes, como sequências únicas de golpes (principalmente ao enfrentar alguns chefes) e personagens manchados de sangue após alguma batalha. Entretanto, isso não convence, principalmente quando se sabe que a empresa por trás de Dragon age criou, há três anos, um game com visual muito mais fotorrealista: Mass effect.

Dragon age: origins é um prato cheio para os amantes do RPG, principalmente aqueles órfãos dos clássicos jogos de PC do início da década. As opções de jogabilidade permitem que o usuário contorne a maioria dos problemas, mas o sistema em geral precisa de melhorias. Por outro lado, o game estabelece bons padrões para o gênero, como uma vasta liberdade de escolhas. Merece ser jogado por qualquer um que aprecie uma boa história e não faça questão de muitas inovações.

1 - NPCs
No controle do mestre NPC é uma sigla para non-playable character (personagem não controlável, em inglês). Nos RPGs de mesa, são personagens interpretados pelo mestre do jogo, responsável por narrar a trama para os outros participantes. Como no videogame não há um mestre para contar a história, os NPCs tornam-se os personagens que não estão sob o controle do jogador. Ou seja, praticamente todas as pessoas com quem se pode conversar dentro do jogo.

De volta às origens
Dragon age: origins marca o retorno da BioWare à fantasia medieval. Nas últimas duas décadas, a empresa canadense criada em 1995 ficou conhecida por dois RPGs para o computador, ambos com a mesma temática e adorados por seus jogadores: Baldur’s gate e Neverwinter nights. A desenvolvedora embarcou no mais famoso dos universos de ficção científica: o de Guerra nas estrelas, com o game Star wars: knights of the old republic. Em todos os jogos, uma semelhança: o personagem principal pode ser moldado pelo jogador, como em um RPG de mesa.

Em 2007, a empresa foi comprada pela Electronic Arts, e lançou o game de maior sucesso nesta geração de consoles: Mass effect, para Xbox 360, baseado em temas de ficção científica espacial. O novo capítulo da série, Mass effect 2, tem lançamento marcado para o fim deste mês.


O jogo
Dragon Age: Origins
Produção
Electronic Arts
Desenvolvimento
BioWare
Disponível para Xbox 360, Playstation 3 e PC

Preço
R$ 99,90
(versão para PC)

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