Publicidade

Correio Braziliense

O avanço tecnológico influencia cada vez mais o mundo dos brinquedos

Bichos de pelúcia que brincam de esconder e bonecas que parecem bebês de verdade são exemplos de novidades que atraem as crianças e deixam os pais surpresos


postado em 05/02/2010 09:06 / atualizado em 05/02/2010 09:32

As preferências pouco mudaram. Na hora da escolha, bonecas e conjuntos que simulam cômodos de uma casa continuam sendo os preferidos das meninas. Os garotos sonham com bolas, carrinhos e super-heróis. A principal diferença entre os brinquedos da época dos pais e os atuais sonhos de consumo dos filhos são os recursos oferecidos. A evolução tecnológica não alcançou apenas o mundo dos games, com a transformação dos divertidos, porém precários, joguinhos do Atari em megaproduções de PlayStation, Xbox 360 e afins. A roupagem high tech vestiu as brincadeiras tradicionais e mudou as características dos momentos de diversão da criançada.

Lançado originalmente em 1935 sob a alcunha de Monopoly, nos Estados Unidos, o Banco Imobiliário é o jogo de tabuleiro mais vendido em todo o mundo. No Brasil, passou por adaptações com nome de ruas e avenidas brasileiras famosas. O que mudou nos últimos 75 anos? As cédulas do dinheiro cenográfico, por exemplo, foram substituídas por uma máquina de cartão de crédito. Já os pais que brincavam com aviõezinhos, feitos com chapas metálicas e pintados cuidadosamente com esmalte, ficam impressionados quando se deparam com os filhos segurando helicópteros que voam de verdade por meio de controle remoto. Enquanto os primeiros serviam basicamente de enfeite nos quartos dos pequenos, os segundos fazem manobras administradas com destreza pelos donos.

O caso acima é emblemático e resume bem a história dos artigos destinados à diversão, de acordo com Tatiana Camargo, coordenadora administrativa do Museu dos Brinquedos, em Belo Horizonte. O espaço, que abriga um acervo com 5 mil peças, é uma verdadeira aula de história. Tatiana explica que, antigamente, os brinquedos eram como relíquias, porque nem todas as famílias tinham condições de adquiri-los. “Os brinquedos procuravam retratar fielmente a realidade e não tinham essa releitura atual para facilitar o uso das crianças. Os objetos tinham um caráter mais contemplativo e, hoje em dia, a questão da interatividade é muito relevante”, opina.

A velocidade no fluxo de informações proporcionada pelo avanço tecnológico das mídias também interferiu diretamente na indústria de brinquedos. No passado, com menos programas de televisão, páginas eletrônicas e publicações direcionadas ao público infantil, a quantidade de novos produtos não era tão grande. Até porque as crianças costumavam ganhar presentes somente em datas especiais. Com um personagem da moda sendo divulgado a cada semana, as fabricantes foram obrigadas a definir uma escala de produção mais intensa.

Mais interatividade
Os populares ursinhos de pelúcia costumavam ser acumulados aos montes sobre a cama das meninas. À noite, o travesseiro era tão indispensável quanto a almofada peluda em forma de bicho. A companhia, no entanto, tinha sempre a mesma expressão facial. Agora, o boneco macio faz muito mais. Além de falar, o animal de pelúcia faz caras e bocas. E até brinca com a criança. Um produto lançado recentemente no mercado vem na forma de um coelho que abaixa as orelhas, fecha os olhos e começa a contar, dando tempo ao pequeno dono para correr e se esconder pela casa. Por meio de um sensor em formato de cenoura que fica preso ao braço da criança, o coelho de pelúcia consegue localizar o esconderijo.

“Os pais permanecem muito tempo fora de casa, atualmente, por causa do trabalho. Por isso, a criança fica sozinha, exposta a um bombardeio de informações. Se o brinquedo não surpreender, não conquista o público infantil”, afirma Aires Leal Fernandes, diretor de Marketing da fabricante de brinquedos Estrela. Fernandes também comenta sobre da mudança nos materiais que compõem cada objeto. “Quando a empresa começou, em 1937, a cabeça da boneca era feita com massa compactada e o corpo com enchimento costurado à mão, de maneira praticamente artesanal. Agora, elas são feitas com produtos que imitam pele de verdade e são mais seguras também”, ressalta.

O diretor de Marketing da fábrica Candide, Bruno Verea, diz que a segurança aumentou também por causa da qualidade dos brinquedos, que são fabricados com mais cuidado e têm supervisão rigorosa da indústria e de órgãos que regulamentam o setor, como o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). “Nós temos uma preocupação muito grande com a faixa etária recomendada para cada tipo de produto, com as instruções para uso e as recomendações aos pais. As importações proporcionam incontáveis opções de marcas. Todas as empresas precisaram se adequar às novidades para não serem engolidas no mercado”, pensa.

Individualista
A pedagoga Tatiana Feijó, 34 anos, lembra bem da época em que passava horas se divertindo com bonecas Barbie na sala de casa. Quando se cansava, pulava para a coleção de Playmobils, jogava um videogame arcaico ou saía para andar de bicicleta. Décadas depois, ela observa a filha Maria Luiza, 9 anos, entretida com uma boneca supersofisticada. O brinquedo expõe vontades, pede atenção e até arrota depois de mamar em uma mamadeira fictícia. A menina é completamente apaixonada pela boneca e vive agarrada ao “bebê” loirinho, vestido caprichosamente com um macacão.

“Na minha opinião, os brinquedos de hoje são informatizados demais. Acho que falta um contato mais humano e menos individualista. Na minha época, como as bonecas não tinham todos esses recursos, procurávamos outras crianças para incrementar a brincadeira”, lembra Tatiana. Para ela, meninas como Maria Luiza se distraem mais do que se divertem. “Ainda assim, aprovo essas mudanças, porque entendo que a época é diferente e as mudanças acontecem”, completa.

As mudanças, sim, são muitas. O autorama, sucesso nas décadas de 1970 e 1980, é vendido atualmente com radar que emite alerta quando um competidor queima a largada. Computadores infantis vêm com jogos em até três línguas. Os famosos walkie-talkies alcançam longas distâncias e possuem óculos de visão noturna. “A avaliação da escala evolutiva dos brinquedos é singela: ela acompanha a sociedade e suas representações culturais. Não dá para dizer qual época era mais divertida. As crianças de antigamente se divertiam tanto quanto as de hoje, cada uma a sua maneira”, acredita Aires Leal Fernandes, da Estrela.


PALAVRA DE ESPECIALISTA

Companhia é fundamental

Faltam brinquedos que estimulam a coletividade porque comportamentos violentos podem estar associados ao individualismo. Então, é muito importante que os pais ofereçam oportunidades para que os filhos tenham mais tempo com outras crianças. Isso é fundamental para exercer a criatividade e o nível lúdico. Os brinquedos legais são aqueles que fazem a criança pensar e criar. Não acho legal aqueles jogos que vêm com tudo pronto, somente para o menino executar e garantir o resultado.

Sandra Eni Pereira, professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Brasília


ANTES E DEPOIS

Bonecos

Os bichinhos de pelúcia antigos eram feitos com enchimento e eram costurados à mão. Sem qualquer tipo de recurso, não emitiam sons nem apresentavam movimentos. Atualmente, com diferentes formas, os bichos disponíveis no mercado são tão modernos que até brincam de esconde-esconde com as crianças, como a versão Vem Comigo do coelho Jojô.



Aviões e helicópteros
Esses tipos de brinquedos eram feitos com chapas metálicas e materiais pesados. Pintados cuidadosamente à mão com esmalte, os objetos serviam, muitas vezes, como decoração nos quartos das crianças. Agora, aviões e helicópteros voam de verdade e podem ser comandados por controle remoto, como o Commander.



Banco imobiliário
Lançado nos Estados Unidos em 1935, o Banco Imobiliário conquistou várias gerações de crianças. No Brasil, o tabuleiro ganhou nomes de ruas e avenidas do país. A versão mais nova do jogo de tabuleiro substituiu as antigas cédulas de papel por cartões de crédito.

Tatiana, que costumava brincar de Barbie quando criança, observa a filha Maria Luiza com a boneca que chega a arrotar depois de mamar(foto: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press )
Tatiana, que costumava brincar de Barbie quando criança, observa a filha Maria Luiza com a boneca que chega a arrotar depois de mamar (foto: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press )

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade