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Correio Braziliense

Instrumentos para uma vida melhor

Avanços tecnológicos prometem ajudar pessoas com deficiências a terem mais conforto e autonomia. Ferramentas vão de mesas adaptadas a carros mais fáceis de se conduzir


postado em 23/04/2010 08:30 / atualizado em 23/04/2010 09:04

A vida de quem precisa conviver com limitações pode ficar mais fácil com a ajuda da tecnologia. Carros adaptados cada vez mais confortáveis, aparelhos auditivos menores que uma moeda de cinco centavos e até um supercontrole remoto para “comandar” a casa são algumas das novidades para as pessoas com deficiências. As ferramentas, antigamente restritas ao mercado (1) estrangeiro, chegam ao Brasil em lojas especializadas ou em grandes exposições. Na semana passada, a IX Feira Internacional de Tecnologias de Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade (Reatech), em São Paulo, trouxe lançamentos que prometem melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência.

A Microsom, empresa especializada em aparelhos auditivos, mostrou o Fuse, dispositivo indicado para quem tem perda auditiva classificada de leve a moderada. “Esse aparelho é voltado para as pessoas que ainda ouvem bastante coisa, mas não têm mais clareza do que está sendo dito”, explica a fonoaudióloga da Microsom Patrícia de Rissio. Importado do Canadá, o Fuse é menor e mais confortável que os modelos tradicionais — tem 2,2cm por 1,3cm.

O aparelho se adapta automaticamente ao ouvido do usuário e muda a potência conforme o som ambiente. “Se a pessoa estiver em um local com muito ruído, ele fará a compressão do som para evitar chiados”, afirma Patrícia. O dispositivo também tem duas entradas de ventilação. Isso permite que a chamada audição residual não fique prejudicada com o uso do aparelho. “Todo mundo tem uma ressonância natural, mesmo as pessoas com perda auditiva. Essas entradas de ar impedem que esse som seja abafado”, detalha a fonoaudióloga.

As empresas também investem na melhoria dos carros adaptados. A Cavenaghi, por exemplo, lançou o T-Drive, conjunto de ferramentas indicado para condutores tetraplégicos com nível de lesão C7 (2). O equipamento permite ao motorista conduzir apenas com as mãos, mas de uma maneira mais confortável: o volante é mais leve e há um ponto de partida que substitui a chave de contato. A novidade, adaptada ao C3 da Citröen, também inclui um banco que gira e sai para fora do carro, facilitando a entrada do condutor cadeirante. Além disso, todos os comandos elétricos do veículo são acionados pela voz ou pelo toque.

Outra novidade apresentada na feira foi a mesa ergonômica E3, da Dumont. O móvel é o mesmo utilizado pela personagem Luciana, interpretada pela atriz Alinne Moraes na novela Viver a Vida, da TV Globo. A mesa tem componentes ajustáveis que podem ser configurados conforme as necessidades e a evolução da mobilidade do usuário. É possível regular a altura, a largura dos apoios dos cotovelos, a profundidade e os pés niveladores. A ideia é que o uso diário do móvel para atividades cotidianas melhore o posicionamento dos braços e a agilidade com as mãos.

Preços desanimam
Tantos recursos, no entanto, ficam restritos aos que têm condições financeiras de bancar a sempre inovadora tecnologia. A tenista Rejane Cândida da Silva, 33 anos, desistiu de tentar comprar no país um par de rodas de titânio (para sua ceadeira de rodas) no Brasil por conta do preço. Ela viajou aos Estados Unidos para adquirir o artefato, da marca Spinergy. “Paguei cerca de US$ 500. Em uma loja revendedora de Goiânia, o produto chega a custar mais que o dobro”, conta Rejane.

A tenista teve poliomelite aos 2 meses de vida, e a doença a deixou paralisada da cintura para baixo. Em 2002, ela foi “descoberta” por um treinador. “Sou cadeirante desde pequena, então tenho bastante habilidade para me mover sobre duas rodas”, diz. Durante tratamento no Hospital Sarah Kubistchek, aos 10 anos, Rejane conseguiu ficar em pé, usando próteses nas pernas. No entanto, afirma que hoje depende mais da evolução das cadeiras de rodas. “As primeiras eram grandes, de ferro, com rodas e pneus secos que, ao chocarem-se com o solo, geravam forte impacto no corpo. Depois, vieram os pneus com câmeras e, mais tarde, as rodas de alumínio”, lembra. “As coisas melhoraram muito, mas a cadeira esportiva dos meus sonhos custa hoje R$ 12 mil”, conta Rejane.

O engenheiro de software Bruno Luiz Viana, 31 anos, decidiu “fabricar” a própria solução. Formado em ciência da computação, o pernambucano sempre trabalhou com sistemas para automatização residencial. Em 2007, Bruno sofreu um acidente de moto que o deixou semitetraplégico — como a personagem Luciana da novela, só que com o movimento das mãos mais apurado. “Desde então, sempre dependi de alguém para ligar e desligar o ventilador, para me cobrir à noite, para fechar a janela. Então, pensei: ‘Eu tenho conhecimento suficiente para produzir uma solução para mim mesmo’”, lembra.

Bruno desenvolveu o Agillize, sistema de automação residencial para pessoas especiais. A ideia começou com a criação de um supercontrole remoto, que pode ter de seis a 24 funções. O aparelho liga o motor da piscina, fecha as janelas, liga e desliga o ar-condicionado, rega as plantas no jardim, fecha as cortinas e outras tantas atividades da rotina de uma casa. Basta programar o controle e o objeto automatizado. Não satisfeito, Bruno ampliou a funcionalidade do supercontrole para além do espaço residencial. Ele desenvolveu uma forma de acionar os comandos também pelo telefone e pelo computador. “Se eu estiver em Niterói, por exemplo, posso ligar para a minha casa, em Olinda, e abrir uma fresta na janela”, exemplifica. A tecnologia de Bruno virou negócio. Além de ampliar sua autonomia, o engenheiro garante que o controle tem outra importante vantagem: custa 1/5 do valor do produto concorrente.

1 - Consumo crescente
Cerca de 15% dos brasileiros são portadores de alguma necessidade especial, física ou mental. Esse número tem estimulado a produção de soluções e serviços voltados para a reabilitação e a melhoria da acessibilidade no país. O setor movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão por ano, R$ 800 milhões só com a venda de carros adaptados.

2 - Espinha numerada

As lesões na espinha são classificadas conforme o local onde ocorreu a fratura. As primeiras sete vértebras — C1 a C7 — são as mais sensíveis. Quanto mais “no alto” for a lesão, piores são as consequências. Alguém que tenha fraturado a C5, por exemplo, mexe apenas os braços e tem dificuldades para pegar coisas com as mãos. Lesões na C4 podem, até mesmo, dificultar a respiração. O ator Christopher Reeve, que ficou conhecido no papel do Super-Homem, teve uma lesão entre a C1 e a C2 e, por isso, movimentava apenas os olhos.

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