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Correio Braziliense

As últimas fronteiras

O programa Google Earth ganhou fama ao fazer, com poucos cliques, o que os grandes navegadores da história precisaram sofrer anos para obter. Agora, %u201Cachados virtuais%u201D são a nova onda, em uma espécie de exploração cibernética


postado em 30/04/2010 07:00

O tempo das grandes navegações, em que eram necessários anos dentro de um navio para encontrar uma ilha — ou mesmo um continente —, ficou para trás. Hoje, é possível dar a volta ao mundo no conforto de casa. E nem precisa ter nenhuma credencial muito importante. O planeta está aí, ao alcance de todos. Basta baixar o programa Google Earth, que já tem tecnologia suficiente para levar qualquer um ao fundo dos oceanos. Mas nem só despretensiosos internautas usam a ferramenta. Cientistas de todo o mundo aproveitam as facilidades da internet para investigar a superfície da Terra com mais praticidade. Nessa nova era, muitas descobertas já foram feitas. A primeira delas, talvez, tenha sido quase sem querer. E feita por um mero curioso. Em 2005, cerca de um ano após o lançamento (1) do Google Earth, um programador da Itália achou os restos de uma antiga vila romana na cidade de Sorbolo, próxima a Parma. Luca Mori estava olhando os mapas da região quando percebeu uma forma sombreada de 500m de largura que parecia ser o curso de um rio já extinto. Ao observar com mais atenção, ele reparou que, perto dali, havia outras estruturas “não naturais”, possivelmente feitas pelo homem. A descoberta de Mori foi confirmada mais tarde por arqueólogos italianos e desencadeou uma verdadeira onda de “achados virtuais”. O mais recente deles ajudou a dar mais uma pista para que os pesquisadores entendam a evolução humana. Um grupo da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, na África do Sul, encontrou dois fósseis de um ancestral do homem até então desconhecido. Os exemplares do Australopithecus sediba estavam em uma caverna do sítio arqueológico de Cradle of Humankind (Berço da humanidade, em inglês). A caverna foi identificada com a ajuda do Google Earth. O software e seus recursos 3D permitiram que os cientistas mapeassem locais ainda não explorados da região. O Google não tem nenhuma estatística sobre o número de instituições científicas que usam a ferramenta. Algumas notícias de achados feitos com ajuda do programa são postadas no blog oficial da empresa. “Quando compramos a tecnologia do Google Earth, o que estava nos planos era a possibilidade de abrir o acesso a informações para milhões de pessoas. Não pensamos diretamente em descobertas científicas, mas sabia-se desse potencial”, afirma o gerente de Produto de Geolocalização do Google no Brasil, Marcelo Quintella. No Brasil A ferramenta também é utilizada por pesquisadores brasileiros. Em março deste ano, a revista Antiquity anunciou a descoberta de 250 geoglifos no norte do Brasil e no Peru. As linhas são o indício de que uma civilização até então desconhecida teria habitado a área há cerca de 2 mil anos. A professora Denise Schaan, da Universidade Federal do Pará, conta que o Google Earth ajudou a equipe a identificar a maioria dos sinais. “Cientistas já haviam localizado 25 desses geoglifos em 1999, quando houve o primeiro sobrevoo na região. Em 2005, começamos a mexer na ferramenta do Google e subimos esse número para 150 em poucas semanas”, lembra Denise. A equipe de Denise, no entanto, não usa a melhor versão da ferramenta. Para além do programa tradicional, o Google Earth Pro possibilita que o usuário navegue pelo globo e baixe imagens dos satélites em alta resolução. Mas tantas vantagens, é claro, têm um preço. Para usar o software dessa forma, é preciso pagar US$ 400 por ano. Para o geógrafo Rafael Sanzio, do Centro de Cartografia da Universidade de Brasília, o aplicativo do Google representa uma nova era para os pesquisadores da sua área e para a sociedade como um todo. “Esse software nos permite fazer uma leitura atualizada das informações espaciais. As fotografias aéreas nos mostram a dinâmica da sociedade, onde estão os espaços mais ricos e os mais pobres, onde o solo e a própria população são mais vulneráveis”, destaca. Sanzio atualmente usa o programa em dois de seus projetos: a elaboração de um atlas sobre o uso do solo no Distrito Federal e o mapeamento dos territórios de matriz africana no Brasil. Exageros da rede Toda essa liberdade gera também uma série de boatos. É possível encontrar na internet, sem muita dificuldade, um compilado com as supostas “15 descobertas mais legais do Google Earth”. Na lista, estão um jardim em forma de digital gigante, um lago com a silhueta de um homem — com dedos nas mãos, inclusive —, o símbolo do Firefox em uma plantação de trigo e, obviamente, pessoas nuas tomando sol. O software já ajudou a sociedade em descobertas nem tão científicas assim. Em fevereiro do ano passado, foi anunciado o “achado” da “ilha do coração”, na costa da Croácia. A ilha, de 120 mil metros quadrados, pertencia a um empresário que passou a receber ligações de casais apaixonados interessados em passar o 14 de fevereiro (Dia dos Namorados em muitos países) no local. Em outra situação, o Google Earth “entregou” uma plantação de maconha na Suíça. Os policiais chegaram ao lugar depois de navegar na ferramenta. A apreensão serviu para que os malandros ficassem atentos: em tempos de evolução tecnológica, até o céu tem olhos bem abertos. 1 - Sacada empresarial O Google comprou a tecnologia do Earth em 2004, da Keyhole Corporation. Na época, a empresa permitia que outras organizações tivessem acesso a imagens de satélite — funcionava como uma licenciadora, sem oferecer conteúdo aos clientes. A aquisição da ferramenta entrou como mais uma política do Google para deixar dados acessíveis universalmente. Mais tarde, o Google Earth evoluiu e hoje oferece “passeios” também pelos oceanos, acesso a construções em 3D e possibilidade de parceria com entidades não governamentais que defendem causas ambientais, por exemplo. Ouça trechos da entrevista com Marcelo Quintella, do Google

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