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Correio Braziliense

O governo aprendeu

Enquanto o senso comum coloca a área pública como gastadora perdulária, em tecnologia da informação, no entanto, as compras de máquinas e serviços viram até exemplo para empresas privadas. Executivo da fabricante chinesa Lenovo aprova "eficiência", mesmo com a inescapável burocracia


postado em 21/05/2010 22:20

Depois de a crise financeira ter abalado o mercado de tecnologia da informação, a expectativa é de que o investimento no setor cresça 14%, batendo a marca de US$ 251 milhões só em softwares, em 2009. Grande parte deste montante deve partir da área governamental. Agora, se engana quem pensa que a cifra pode ser mal gasta pelos gestores de TI de órgãos e empresas públicas. Quem garante é Juarez Bertoldo Júnior, diretor de vendas governamentais da Lenovo, fabricante de computadores chinesa — e a maior fornecedora de equipamentos para o governo e o mercado corporativo. “Com os pregões, grandes empresas estatais e órgãos chegam a conseguir pagar até 60% do valor de um computador no mercado. A eficiência é muito grande”, garante.

E, segundo Juarez, as características das máquinas também são vantajosas. “Como o processo de compra é burocrático e demorado, os gestores de TI tentam garantir a melhor configuração, para que ela não fique defasada em pouco tempo”, explica Juarez. O sistema usado pelo governo dá tão certo que tem virado modelo até para grandes corporações privadas.

“Diretores de outras áreas aqui da Lenovo me procuram para saber de detalhes do funcionamento do pregão (eletrônico, hoje muito usado nas compras governamentais), porque grandes empresas passaram a adotar o sistema. Explico como acontece no governo, aí fica claro que as corporações privadas ainda têm que se aperfeiçoar no tema”, ressalta. Juarez deixa claro, porém, que o setor não está totalmente livre dos desmandos de alguns gestores.

“É ruim quando se troca a equipe que planeja a área de TI em pouco tempo. Sempre acaba havendo uma sobreposição de gastos e esforços. Mas isso é muito raro quando se trata de governo federal e dos estados mais desenvolvidos. No municípios, contudo, ainda é comum”, lamenta. Para Juarez, o bom exemplo de grandes órgãos — como a Receita Federal e o INSS — acabam por contaminar o governo positivamente.

“Ao contrário do setor privado, em que uma inovação é um diferencial competitivo, no público há uma troca muito grande de informações e os casos de sucesso acabam sendo copiados e adaptados para outras realidades”, explica. Assim, órgãos que passavam muito tempo com computadores obsoletos passam a reconhecer a importância do investimento em TI, tanto para o funcionamento dos órgãos quanto para o atendimento ao público.

“Hoje, quando o INSS, por exemplo, compra milhares de máquinas ao mesmo tempo, com um plano eficiente para renovar seu parque, paga um preço muito bom, e a renovação acaba ajudando na ponta, no atendimento ao cidadão. Hoje, depois de muito tempo, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo fez o mesmo, e as delegacias, que muitas vezes não tinham nenhum PC, estão todas informatizadas”, exemplifica Juarez.

» Ponto a ponto Juarez Bertoldo Júnior

Vendas
O governo federal é o maior cliente, com órgãos e estatais sediados em Brasília sendo responsáveis pela maior parte das compras. Depois, vem os estados. Em geral, em segundo lugar, vem São Paulo, mas, às vezes, algum outro estado faz uma grande compra e ocupa o lugar. É o caso de Minas Gerais agora, que precisou equipar o novo centro administrativo e adquiriu 7 mil máquinas.

O melhor
Hoje, no Brasil, se compra o que há de melhor em computadores, por um preço muito competitivo. Vendemos para o governo brasileiro o mesmo que é comprado pelos Estados Unidos e por países da Europa. O gestor das empresas sempre está ligado no desenvolvimento das tecnologias e busca pedir a melhor configuração possível nos editais.

Diferenças
A grande diferença é que o governo compra, com as máquinas, um serviço de assistência e garantia. Tudo tem que durar quatro anos. Assim, algumas empresas precisam fornecer dois equipamentos, porque a durabilidade é de dois anos. A Lenovo faz suas máquinas para durar esse tempo todo, o que representa um ganho no preço total da aquisição.

Planejamento
Exemplos como o do Serpro, do Tribunal Superior Eleitoral e do INSS, mostram que as empresas e os órgãos públicos têm um ótima capacidade de planejar o investimento em TI, trocando, na maioria das vezes, um quarto do parque a cada ano. Isso deixa tudo funcionando e nada trabalhando depois de perder a garantia.

Gerenciamento
O setor público ainda tem uma característica importante, que também está começando a ser adotada pelas empresas privadas. O INSS, por exemplo, quando compra 14 mil máquinas para seus postos espalhados no Brasil todo, ainda adquire um serviço de assistência e gerenciamento. Assim, é possível administrar defeitos, tentativa de trocas de peças e outros problemas a distância.

Morosidade
Como a compra pelo setor público é sempre um processo moroso, é importante sempre estar em contato com os gestores da área de TI nos órgãos, e eles fazem questão de estar atualizados. Poucos dias antes do pregão, ainda há oportunidade de as empresas sugerirem atualizações para as configurações pedidas nos editais. Assim se evita de que comprem algo defasado.

Adaptação
Quando a máquina é trocada, para o servidor, que vai usá-la, esse processo é transparente. Dependendo do órgão e da estatal, ao ligar o PC ele já faz o login no sistema usual e sai usando. Mesmo que o sistema operacional tenha mudado, por exemplo. A maioria dos computadores são vendidos já com Windows 7, e 30% vai com Linux, principalmente para a área educacional.

Troca
Às vezes acontece de um gestor fazer um planejamento, adquirir máquinas e serviços e, logo depois, haver uma troca de pessoal e tudo ser interrompido e alguém comprar de novo. É mais ou menos 15% dos casos. Na maioria das vezes, quando a troca acontece, o novo pessoal recomeça de um pouquinho frente ou um pouquinho atrás.

Tamanho
Os problemas maiores ocorrem em estruturas menores. Quando um estado tem um planejamento único para o parque tecnológico, como acontece em São Paulo, esse tipo de problema acontece menos. Mas, em alguns lugares, a gestão está dividida em órgãos diferentes, aí acaba havendo uma sobreposição de estruturas, com eficiência menor e um gasto desnecessário.

Benchmark
Vários órgãos fazem compras de 7 mil máquinas por vez. Isso os coloca em pé de igualdade com grandes empresas privadas, como os maiores bancos, por exemplo. Mas, como fazem uma compra centralizada, conseguem pagar até 60% do preço de mercado. Agora as grande corporações estão partindo para o pregão, coisa que não era comum há três anos.

Onda positiva
Alguns órgãos empurram o pessoal, trocando experiências e informações. Assim, mais gestores estão vendo que do investimento em TI dependem o desempenho de seus funcionários e até a visão que os cidadãos têm do serviço. A Polícia Civil de São Paulo, por exemplo, comprou 25 mil máquinas, e hoje são 15 ou 20 computadores por delegacia. Antes, em algumas, não tinha nenhum.

Eleições
Em geral, a mudança de governo não muda a gestão de TI, que tem um pessoal de carreira no comando. Se troca o gestor, boa parte da equipe fica, e não se perde o trabalho que vinha sendo feito. Mas, se a situação continua, os contratos e as aquisições continuam como o planejado. Se há troca, as coisas demoram um pouco mais, são reavaliadas.

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