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Correio Braziliense

Entenda como e por que ocorre o delay, a diferença de tempo entre as transmissões televisivas que tira muita gente do sério


postado em 28/05/2010 16:17

Final de campeonato. Devidamente uniformizado com as cores do seu time, você se senta no sofá e liga o televisor. Nada de torcer com os amigos. O momento agora é de concentração e muita torcida. O árbitro apita o início da partida, mas à medida que passam os minutos o placar insiste em ficar no 0 x 0. Até que, num lance de contra-ataque, seu time parte com tudo em direção à meta adversária, numa clara chance de gol. Com os olhos grudados no televisor, você acompanha com apreensão o desenrolar da jogada quando, de repente, seu vizinho começa a gritar escandalosamente pela janela. Cinco segundos depois, ainda com os olhos na tevê, você vê o artilheiro da sua equipe empurrar a bola para dentro da meta. A cena, comum a muitos telespectadores que sofrem com delay — diferença de tempo que uma transmissão demora para ser reproduzida em diferentes meios —, irrita muitos torcedores e faz com que a sensação de atraso (apesar de ser de apenas poucos segundos) desencoraje, inclusive, qualquer comemoração mais empolgada.

O publicitário Rodrigo César Lacerda, 32 anos, sabe bem o que é sofrer com o fenômeno e conta que, em dias de jogos, a situação é comum no condomínio onde mora. “É frustrante, pois a gente vê a jogada acontecer e o prédio inteiro grita gol antes. Quebra justamente o clímax”, diz, lembrando que, por já saber da diferença de tempo que há entre a transmissão que chega à sua casa, ele aprendeu a “prever” o que vai acontecer durante a partida. “Se a jogada é de perigo e o condomínio permanecer em silêncio, já sei que não vai dar em nada”, ri. “É como se você estivesse assistindo ao capítulo final de Lost (série de TV norte-americana) e alguém te contasse o que acontece um pouco antes de chegar o fim episódio. Totalmente brochante.”

A jornalista Daniela Machado, 23 anos, passa pelo mesmo problema quando assiste aos jogos de seu clube. Morando em Porto Alegre, a gremista fanática conta que é normal os torcedores rivais do Internacional comemorarem os gols aos berros pelas janelas, justamente para provocar os adversários. “Às vezes, a bola ainda está no meio de campo e o pessoal já está gritando. Já aconteceu até de eu ficar sabendo do gol pelo Twitter antes dele acontecer na tevê”, conta inconformada, calculando que o atraso da transmissão em sua casa chega a uns 10 segundos. “Até quando eu assisti à final do Big Brother, sofri com isso, já que todo mundo aqui estava torcendo para o Marcelo Dourado. Quando eles começaram a comemorar, já imaginei quem havia vencido”, lembra.

Viagem ao espaço
De acordo com o superintendente da TV Brasília, Luis Eduardo Leão, a demora nas transmissões ao vivo ocorre por conta do longo processo que envolve, desde o momento da captação da imagem no local do evento até a reprodução do áudio e do vídeo na casa do usuário. Ele explica que o delay também pode ser influenciado caso a transmissão seja regional ou em rede nacional. “Primeiro, o sinal é mandado para um satélite, que o rebate para a emissora. Se a transmissão for apenas na região dessa emissora, o sinal já é enviado para as torres, que o encaminham para as casas dos usuários. Mas se for em rede, ele é novamente enviado para o satélite para só depois ser encaminho a cada região”, conta Leão (veja infografia).

“É um longo caminho que a transmissão faz, mas que, por questão de poucos segundos, pode fazer uma grande diferença para quem assiste”, aponta o professor de ciências da computação da Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Queiroz, calculando o tempo que os dados levam para subir e descer do espaço à Terra. “O sinal demora cerca de um segundo para ir até o satélite e mais um para voltar até a base”, diz. Ou seja, se a transmissão for enviada para todo o país, o sinal ainda precisa fazer outra viagem de ida e volta até chegar às telinhas.

Mas o que faz com que seu vizinho grite gol antes que você? Bem, provavelmente a resposta está no tipo de transmissão que chega a cada casa. Apesar de mais antiga, a tecnologia analógica, por exemplo, demora menos tempo para realizar todo o processo que é requisitado à transmissão digital — oferecida pela maioria das operadoras de canal por assinatura. Depois de ser rebatido pelo satélite, o sinal tem que ser codificado, comprimido e transformado em formato digital (bits), algo que não é necessário no sistema analógico. Dessa maneira, há espaço suficiente para alocar vídeo e som de maior qualidade. Em contrapartida, para assistir a uma programação em melhor resolução, o usuário tem de se contentar em aguardar, em média, cinco segundos a mais para a transmissão chegar ao seu televisor.

O gerente de marketing da Net, Alessandro Maluf, conta que nos últimos anos a oferta de assinatura de canais que usam transmissão digital vem crescendo e que, num momento em que o analógico não for mais a maioria, o delay será igualado. “Esta será a primeira Copa do Mundo com transmissão digital massiva, já que na de 2006 a tecnologia ainda estava começando a entrar no mercado”, afirma. Atualmente, 30% da base de assinantes têm sinal digital.

Mesmo com a defasagem, o executivo acredita que a espera de alguns segundos vale a pena na hora de assistir à Seleção Brasileira. “A emoção de acompanhar um jogo de futebol pela tevê com imagens nítidas e boa resolução compensa. Hoje, com o som surround de 5.1, por exemplo, temos a sensação de estar no estádio, com o pipoqueiro gritando atrás da gente”, defende.

Ouça explicações sobre a transmissão digital dadas pelo gerente de marketing da Net

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