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Correio Braziliense

A vez dos militantes 2.0

Movimentos populares recorrem à internet para mobilizar cidadãos do mundo inteiro em favor das mais diversas causas. Ativistas defendem que, nos dias de hoje, o sucesso de uma campanha deve passar necessariamente pela rede


postado em 02/06/2010 07:00

Marcelo, que namora Bianca, que é irmã de Rafael, que conhece Rodrigo, primo de Luciana. Se na vida real os enlaces pessoais podem ir além da roda de amigos do trabalho ou da faculdade, na internet essa cadeia de relacionamentos ganha ainda mais força e extrapola qualquer limite pessoal ou geográfico. De olho no potencial de mobilização de ferramentas típicas da geração de internautas 2.0, como redes sociais, mensageiros instantâneos e blogs, diversos movimentos da sociedade civil estão levando as passeatas das ruas para a web, com a intenção de captar novos simpatizantes e se fazerem ouvir no mundo real. Um exemplo recente do uso intensivo da internet para o sucesso de uma causa foi a aprovação no Congresso Nacional do Projeto de Lei Ficha Limpa, que impede a candidatura de políticos condenados em decisões colegiadas pela Justiça. Ativistas liderados pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) passaram um ano e meio colhendo assinaturas nas ruas para a criação do projeto de iniciativa popular. Durante esse tempo, o MCCE conseguiu reunir um total de 1,7 milhão de nomes. Porém, depois que o movimento passou também a atuar em redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut, a repercussão sobre a causa se multiplicou de forma inesperada. Cerca de 2 milhões de adesões foram obtidas online. “Começamos a receber milhares de e-mails de pessoas que queriam saber como poderiam participar e a campanha ganhou outra proporção”, diz a secretária executiva do MCCE, Cristiane Vasconcelos. “Em menos de seis meses, conseguimos levantar aproximadamente 2 milhões de assinaturas online. Foi algo que não esperávamos”, conta. Segundo ela, a internet foi, sem dúvida, o motor propulsor da campanha. “Acho que é uma questão cultural, já que tivemos mais dificuldades em promover mobilizações nas ruas do que na web. Talvez algumas pessoas até não tenham tanta disposição para ir a passeatas, mas em frente ao computador elas são muito pró-ativas, divulgando ações e repercutindo ideias”, diz Cristiane, lembrando que durante dois dias o Ficha Limpa ficou entre os tópicos mais comentados pelos usuários do Twitter. Ricken Patel, diretor executivo da Avaaz, organização civil internacional presente em 12 países e que promove o ativismo político para defender causas como o combate às mudanças climáticas, a defesa dos direitos humanos e o respeito às diferenças religiosas, explica que o uso de ferramentas da rede é fundamental para o sucesso de uma mobilização massiva da sociedade. “Antigamente, a informação era gerada por canais específicos, mas a internet causou uma revolução, dando mais poder ao indivíduo, tanto para produzir quanto para disseminar as notícias”, opina. Segundo ele, assim como as pessoas usam a rede para realizar atividades até então restritas ao mundo real, como efetuar compras, assistir a filmes ou ouvir música, é natural que o ativismo social também migre para esse universo. “Há mais vantagens do que desafios para a promoção do cyberativismo. Isso porque utilizar as ferramentas online para incentivar a defesa de causas gasta menos recursos e atinge um número muito maior de pessoas do que as mobilizações tradicionais”, analisa. “Temos que nos adaptar para conseguir alcançar novos ativistas, onde eles estiverem”, aponta Patel. Sem fronteiras A organização não governamental Greenpeace descobriu, há alguns anos, a força que as redes sociais podem ter na sua luta em defesa do meio ambiente. Tanto que a entidade passou a atuar ativamente nos serviços de relacionamento mais populares da rede. “A alta exposição na internet oferece um enorme potencial de mobilização, pois é fácil falar com milhares de pessoas e torná-las replicadoras de informação a um custo praticamente zero. A internet quebra as fronteiras de região e permite ações globais. Além disso, é ecologicamente correta”, diz Edu Santaela, coordenador de web do Greenpeace Brasil. Entre as ações online propostas pela ONG estão a criação de petições virtuais , atualização ao vivo das atividades realizadas pela organização e até a produção de vídeos que são postados no YouTube. Assim, os milhares de seguidores da organização têm a possibilidade de compartilhar o conteúdo em perfis de Orkut, Facebook, Twitter, entre outros. Santaela explica que, em breve, uma espécie de rede social deve surgir dentro do próprio site. “Se um usuário no Rio de Janeiro quiser mobilizar uma turma para catar lixo na praia, ele vai poder conversar com outros interessados dentro do próprio site”, exemplifica. “A ideia é colocar as pessoas em contato, criar uma comunidade engajada. Logo, quando tivermos alvo para uma petição, os próprios internautas vão poder espalhar a causa”, diz. A fórmula de cyberativismo tem mostrado que funciona. Recentemente, o Greenpeace lançou uma campanha contra uma fabricante de chocolate, na qual um vídeo de um minuto de duração rodou o mundo denunciando a produção do produto com óleo de dendê vindo de áreas devastadas na Indonésia, o que colocava em perigo a população local de orangotangos. Depois da reação mundial, diz Santaela, a fabricante cancelou o contrato de fornecimento do óleo. “Esse caso mostrou o poder de mobilização das redes sociais.” Entrevista com o diretor executivo da Avaaz, Ricken Patel

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