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Correio Braziliense

Scanners, poderosos computadores e outras máquinas ajudam a evitar fraudes em concursos do Cespe

Mesmo assim, com todo esse aparato, não existe risco zero, reconhecem especialistas da área


postado em 06/08/2010 07:00 / atualizado em 06/08/2010 12:42

Na terra dos concursos públicos não é preciso dar mais do que dois passos para encontrar alguém que queira virar funcionário do governo. Estabilidade, salário acima da média, horário fixo de trabalho, as vantagens seduzem até os mais apaixonados pelo mercado de trabalho. Esse desejo coletivo pela carreira pública faz com que muitas seleções se tornem alvo de fraudadores. Na tentativa de minimizar o problema, as bancas examinadoras adotam uma série de recursos tecnológicos. São sistemas de identificação biométrica, scanners corporais, detectores de metal e uma série de outras ferramentas que buscam garantir a segurança dos processos.

O Centro de Seleção e Promoção de Eventos da Universidade de Brasília (Cespe/UnB), um dos mais requisitados do país, tem em sua sede um setor onde todo mundo fica praticamente nu para entrar e sair. E não é preciso tirar a roupa. Para entrar na área secreta — que abriga a gráfica e os scanners digitalizadores das folhas de resposta das provas — é necessário passar por uma máquina que revela tudo que a pessoa carrega. Funcionários da unidade também têm que passar pelo scanner corporal, inclusive no fim do expediente.

Câmeras visíveis e invisíveis monitoram a área 24 horas por dia e o lixo gerado por lá recebe tratamento especial. No local, são realizadas reuniões com professores que elaboram as questões das provas (veja arte). A montagem das avaliações também ocorre nesse lugar. “Os itens podem ser modificados, o colaborador nunca sabe se a pergunta vai sair tal qual ele pensou, não sabe sequer se realmente vai estar na prova”, comenta o diretor do Cespe, Ricardo Carmona.

As bancas, explica ele, sempre tentam trabalhar com diversos professores e com uma folga entre o número de questões enviadas por eles e as que estarão no teste. Mas isso, muitas vezes, é mais complicado do que parece. “O número de pessoas envolvidas nessa etapa é muito variável. Temos dificuldade em cargos muito específicos. Lembro de uma prova em que a pessoa tinha que ter pós-doutorado em vácuo para fazer o item. Quantas pessoas no Brasil tem esse grau de especialização?”, comenta Carmona.

Outra estratégia de segurança adotada pelo Cespe é a não identificação do candidato na folha de respostas e na redação. No lugar do nome, o material recebe um código de barras lido por computadores durante a digitalização (1) dos documentos. Toda a correção — tanto das provas objetivas, como das discursivas — é feita virtualmente. No caso da redação, há um monitoramento on-line do fluxo de trabalho dos colaboradores. Se houver alguma anormalidade (o corretor está demorando demais em uma redação, por exemplo), os supervisores verificam o que está acontecendo.

Transporte perigoso
Como tudo acontece no setor sigiloso, mais vigiado que qualquer casa do Big Brother, um dos principais desafios das bancas é o transporte da prova já montada. Ricardo Carmona explica que uma escolta protege as avaliações do Cespe que seguem para outros estados. “O material sai daqui o mais perto possível da data de realização do exame, acompanhado de uma equipe de servidores da UnB e de delegados aposentados da Polícia Federal”, conta. A banca mantém um convênio com a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) há 15 anos. Os agentes são acionados em qualquer lugar do Brasil para ajudar no dia da prova e no transporte do material.

Mesmo assim, essa etapa é uma das mais vulneráveis. “O transporte sempre vai depender do fator humano. Não há como fazer isso de uma forma totalmente informatizada”, afirma o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), Marcos Wink. No início deste mês, a PF prendeu um policial rodoviário envolvido no golpe do exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ocorrida em fevereiro. O agente teria vazado a prova durante a guarda do malote. Ele fazia parte de uma quadrilha que fraudava concursos públicos há, pelo menos, 15 anos. O grupo cobrava até US$ 150 mil de cada candidato.

Tanto dinheiro acabava sendo revertido na compra de ferramentas que facilitavam os golpes. “As organizações criminosas têm muito recurso para investir em tecnologia e o Estado está sempre correndo atrás”, diz Marcos Wink. “O dinamismo nessa área é muito grande. A gente acha que a pessoa vai usar um celular para colar, quando, na verdade, ela está usando um ponto eletrônico minúsculo”, completa o presidente da Fenapef. O ponto, inclusive, foi utilizado pela quadrilha que fraudou o exame da OAB em outros concursos públicos.

Wink lembra que as fraudes também podem ocorrer na hora da elaboração da prova. O Cespe proíbe a contratação dos serviços de professores que tenham parentes interessados no cargo. “Mas o dinheiro sempre acaba corrompendo as pessoas. O cara pode até não se arriscar por causa de um filho, mas vai querer ganhar dinheiro”, opina o presidente da Fenapef. O diretor do Cespe reconhece que é preciso pensar o tempo todo em estratégias para dar mais segurança ao sistema. “A gente investe muito em inteligência. Mas não existe risco zero nessa atividade”, finaliza Carmona.

1 - Sem papel, com papel
Todas as provas do Cespe são digitalizadas e corrigidas na tela do computador. Isso, porém, não elimina a necessidade de arquivamento das folhas de respostas e da redação. O material fica guardado no arquivo da banca — em local secreto — até um ano após o último processo relativo ao concurso em questão estar correndo na Justiça.

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