Publicidade

Correio Braziliense

Andrew McAfee, diretor do MIT: "É hora de aprender com os mais novos"


postado em 15/10/2010 18:09 / atualizado em 15/10/2010 18:29

McAfee:
McAfee: "Fiquei impressionado com o preço dos computadores no Brasil. Tudo é muito caro" (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
O norte-americano Andrew McAfee, 43 anos, assumiu o desafio de estudar um assunto tão dinâmico que, a cada instante, ganha novos elementos. Todos os dias, novos fenômenos da internet tomam conta das notícias, mostrando que o poder da comunicação não é mais exclusivo da mídia. Basta lembrar o sucesso da cantora Susan Boyle, que explodiu na web graças a um vídeo do YouTube.

Nos Estados Unidos, especialistas começaram a prestar atenção nesse fenômeno no início dos anos 2000, quando a economia não ia lá muito bem, mas, incrivelmente, empresas atentas a esse fenômeno prosperavam.

Em 2006, Andrew McAffe, que foi professor da Harvard Business School por 10 anos, criou o conceito de Enterprise 2.0. No ano passado, publicou o livro Enterprise 2.0 new collaborative tools for your organization's toughest challenges (sem tradução para o português). Em entrevista ao Correio, ele falou sobre os principais desafios dessa nova era.

O setor público tem algum papel no fortalecimento da Enterprise 2.0? O que o governo pode fazer para viabilizar a aplicação desse conceito?
Nessa minha visita a Brasília, eu esqueci o cabo de conexão do meu computador, então tive que ir a uma loja para comprar outro. Fiquei impressionado com o preço das máquinas, tudo é muito caro. Os computadores custam basicamente o dobro do que nos Estados Unidos. Eu entendo que há um imposto de importação aplicado pelo governo brasileiro, porque eles querem desenvolver a indústria nacional de computação. Mas eu tomaria uma abordagem diferente. Acho que é mais importante para o Brasil ter muitas pessoas que possam usar os computadores, em vez de termos poucos simplesmente fabricando computadores. No futuro, o mais importante é ter trabalhadores qualificados e trabalhadores qualificados usam computadores.

Isso também depende de um bom acesso à internet, certo? Como garantir isso em um país como o Brasil?
É importantíssimo para os países em desenvolvimento que cada vez mais pessoas tenham acesso à internet. Mas a tecnologia do cabo de fibra óptica não consegue uma banda larga o suficiente para alcançar o país como um todo. Creio que a criação de infovias, mesmo em um país tão grande quanto o Brasil, pode fazer a diferença. Eu tenho um irmão que mora em Madagascar, uma nação grande e pobre. Lá, eles estão colocando o cabeamento embaixo da água e fazendo uma infovia que atravessa o país. Acredito que as empresas de telefonia vão se ligar a essa infovia para, então, disponibilizar a conexão sem fio para toda a população. Essa alternativa é fantástica: poucas infovias com banda bastante larga e depois conexão sem fio para todo o país. A coisa mais importante que o Brasil pode fazer agora é acelerar esse processo.

Na maioria das empresas, quem cuida dessa parte de novas tecnologias são pessoas jovensque estão anos-luz à frente de eus chefes. Como lidar com o fato de que eles têm habilidade, mas não experiência?
Esse é um problema real. Podemos fazer uma análise a partir dos diferentes usuários de internet. Existem três gerações. A primeira, aquela das pessoas que nasceram antes da rede mundial de computadores, que ainda pedem à secretária para que imprima e-mails. A segunda geração é a da Web 1.0, que é a minha geração. E tenho muito orgulho de fazer parte desse grupo, uso e-mail, ferramentas de busca. Mas, da primeira vez em que ouvi falar de Facebook e Twitter, eu achei que eram as coisas mais idiotas do mundo, porque não sou da geração Web 2.0. Minha geração tem conforto em trabalhar com recursos digitais, mas ainda gostamos de trabalhar reservadamente. A geração 2.0 já trabalha na era digital e prefere estar socialmente mais exposta. Sem dúvida, trabalhar na era digital e se expor traz uma série de benefícios. Então, a melhor pergunta seria como as duas gerações mais antigas podem aprender com a 2.0. A gente tem uma expressão em inglês, reverse mentoring, algo como tutoria reversa, que é quando as pessoas mais velhas aprendem com as pessoas mais novas. Eu aprendi o que era o Facebook com os meus alunos da universidade. O papel dos mais jovens é fazer com que os mais velhos vejam a utilidade disso para os negócios e não somente para diversão.

Mas como implantar na consciência das pessoas mais velhas a humildade necessária para pedir ajuda de gente mais nova?

Isso é realmente muito difícil. Eu trabalho com os diretores de departamentos de informática dos Estados Unidos e, quando eles estão no grau máximo de honestidade, dizem: “Eu não entendo isso”. Mas, quando eles estão na frente dos colegas, não admitem, afinal, eles são os especialistas em tecnologia. Admitir a sua ignorância é algo muito difícil, especialmente para um chefe e para o pessoal mais antigo. Um bom jeito de começar seria dizendo a um especialista em web 2.0: “Olha, você é especialista nisso, por favor, me dê uma palestra de uma hora e meia sobre tudo o que eu preciso saber”.

Você acredita que as novas tecnologias vão eliminar a necessidade do contato pessoalno mundo dos negócios?
O mundo virtual não é uma alternativa ao mundo real. E nem menos importante. Reuniões presenciais são extremamente importantes para criar intimidade e confiança, até para conversas mais difíceis essa interação se torna necessária. As novas tecnologias são muito poderosas para o antes e o depois da reunião presencial. Inclusive, a tecnologia é ótima para fazer você perceber quem você realmente precisa conhecer no mundo real.

Como você imagina que essas tecnologias vão estar no futuro? Se eu soubesse a resposta para essa pergunta, eu seria bilionário. Uma das coisas mais fascinantes para mim é que, no momento em que achamos ter desvendado a tecnologia, vemos que não é bem assim. Ninguém nunca esperava o surgimento da Wikipedia, é uma ideia bem boba mesmo, até ela se tornar uma ideia extraordinária. Ninguém estava esperando a Web 2.0, nós só notamos essa geração depois que ela existia há algum tempo. Para o futuro, há dois pontos. No primeiro, nós sabemos o que vai acontecer em relação aos custos, que vão continuar a diminuir. As matérias-primas da computação em geral vão ficar cada vez mais baratas. O que eu não sei é o que os inovadores vão fazer com isso tudo. Mas isso, por si só, já me entusiasma bastante.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade