Publicidade

Estado de Minas

Uso dos computadores leva a dança a uma transformação quase inimaginável


postado em 05/01/2011 08:00 / atualizado em 06/01/2011 14:52

Bailarinas clássicas passam horas e horas tentando fazer maravilhas, a maior parte do tempo na ponta dos pés. Não à toa, têm joanetes e precisam de muito alongamento para aguentar a rotina de exercícios em cima dos dedos. O sonho de dançar flutuando, porém, foi alcançado pelos bailarinos contemporâneos, com uma mãozinha da tecnologia. Câmeras, projeções, edições de vídeo e uma série de outras parafernálias permitem que a platéia assista ao espetáculo a partir dos mais diversos ângulos de visão, até mesmo de lugares bem distantes.

Essa história começa, é claro, com a invenção da lâmpada elétrica, no fim do século 19. O grande produto de Thomas Edison sequer havia se tornado popular e um grupo de artistas tratou de fazer experiências de iluminação. A norte-americana Loïe Fuller foi uma das pioneiras nessa tarefa. “Até então, a luz utilizada na arte era de querosene. Ela foi a primeira a perceber que a luz elétrica poderia ser usada para criar um efeito visual”, explica a coreógrafa Ivani Santana, professora da Universidade Federal da Bahia.

Loïe projetou luzes coloridas em tecidos brancos e criou o que ficou conhecido como serpentine dance. “Isso nada mais era do que a iluminação refletida em longos pedaços de seda. Mas essa foi a primeira vez que o recurso foi usado não para iluminar um ambiente, e sim para criar uma nova poética”, ressalta Ivani, que pesquisa técnicas de dança com mediação tecnológica desde 1990. Depois de Loïe, as iniciativas ocorreram de forma isolada até a década de 1960, quando ocorreu o primeiro manifesto sobre a interação entre artistas e equipamentos eletrônicos (veja arte).

Nesse meio tempo, no entanto, o teremim — instrumento musical que inaugurou a era da música eletrônica — também acabou “entrando na dança”. O inventor do aparelho, o russo Lev Sergeivitch Termen (conhecido pelo nome francês Léon Theremin), realizou uma experiência com bailarinos em uma plataforma, que batizou de terpsitone. O dançarino se movimentava em cima de uma placa de metal de 7 metros e o aparelho transformava os passos em música. Apesar de grandioso, o invento não era lá muito resistente: dos três exemplares construídos por Theremin, apenas o que o engenheiro fez para sua sobrinha em 1978 sobrevive até hoje.

As maiores inovações na arte de movimentar o corpo começaram a aparecer na década de 1960, sob o comando do coreógrafo estadunidense Merce Cunningham. Merce, que faleceu em 2009, se uniu a outro vanguardista, o músico John Cage, e desenvolveu uma série de experiências em que dança e música interagiam de formas inusitadas. “Com essa dupla, a cena passou a ser o local de encontro para essas artes. Muitas vezes, o bailarino não sabia qual música iria dançar e o compositor não tinha ideia sobre a coreografia que iria encontrar”, explica a professora Sílvia Geraldi, da Universidade Anhembi-Morumbi.

Se isso parece um pouco maluco, imagine o que dizer de uma coreografia montada através de um programa de computador. A ideia também foi de Merce Cunningham, que, a partir de 1991, lançou mão do software LifeForms para criar suas montagens. O programa utiliza câmeras e sensores que captam os movimentos dos bailarinos. O computador, então, processa a informação e ajuda o coreógrafo a ter uma visão de como ficará a composição do espetáculo, apresentando possibilidades para braços, pernas, cabeças, entradas e saídas de cena.

A bailarina Fabiana Gugli estudou durante 10 anos no estúdio de Cunningham em Nova York e assistiu a palestras em que o coreógrafo explicou como funcionava o processo de criação com a máquina. “Ele trabalhava com uma noção de corpo humano totalmente fragmentado. Não era como na dança clássica, os bailarinos dele tinham sempre um desafio. O braço era independente da cabeça, que era independente do resto do corpo. Às vezes, o software dava soluções de composição que não eram humanas”, conta Fabiana.

A professora Ivani Santana afirma que o LifeForms permite a criação de uma coreografia mais orgânica, porque o idealizador pode testar o resultado várias vezes. “Filmes que dependem de animação, como Titanic e Avatar, utilizam sistemas parecidos com esse. Os autores querem dar um efeito mais próximo possível do real”, diz. Merce Cunningham também foi um dos primeiros bailarinos a usar filmadoras no palco para ir além do registro do espetáculo.

Espaço e tempo
Surgia aí a chamada videodança. Artistas contemporâneos não gostam de definir qualquer manifestação artística, mas, grosso, modo, ela é um vídeo concebido para ser uma dança, uma produção coreográfica para a tela. Um dos grupos mais emblemáticos nessa arte é o canadense La La La Human Steps. Na obra Amelia, por exemplo, dois bailarinos contracenam em um espaço fechado e arredondado — algo que seria impossível de ocorrer na dança tradicional.

“Videodança não é simplesmente colocar uma filmagem no meio do palco, isso pode virar uma instalação. Na videodança, as coisas acontecem na tela. Mesmo coreografias criadas da forma tradicional não podem simplesmente ser gravadas, elas precisam de adaptação para se tornar videodança”, explica Paulo Caldas, um dos responsáveis pelo festival Dança em Foco. “Esse tipo de linguagem tem crescido muito nos último anos, principalmente por conta do barateamento das câmeras. Hoje, não é difícil registrar algo no celular e colocar no YouTube”, completa.

A queda no preço dos equipamentos também permitiu aos diretores ousadias em relação ao espaço e ao tempo. O espetáculo Isadora.obt, que foi apresentado em Brasília no Palco Giratório de 2009, simula dançarinos flutuando em um ambiente sem gravidade. Rick Seabra, um dos criadores da peça, a concebeu pensando na estação espacial que orbita a Terra: uma câmera é colocada no teto, com os bailarinos, literalmente, sem chão.

Outra possibilidade são os espetáculos de dança telemática, que ocorrem simultaneamente em diversos lugares e são transmitidos pela internet. A professora Ivani Santana é pioneira nessa técnica no Brasil. Uma de suas montagens, Versus, de 2006, foi encenada em Brasília e em Salvador ao mesmo tempo. “Foi o primeiro espetáculo que fiz pensando nas possibilidades da internet. Fizemos uma justaposição de imagens com pessoas que estavam nas duas cidades”, conta. “Na época, não foi tão complicado, porque todos os bailarinos eram da minha companhia, os ensaios ocorriam no mesmo lugar, apenas em salas diferentes.” Agora, Ivani trabalha em uma peça telemática em parceria com outro grupo, algo que, segundo ela, exibe mais investimentos.

Além do ritmo
Nem só de movimentos é feita uma bela coreografia. Iluminação, som, computadores e até mesmo tocadores de MP3 podem fazer parte do espetáculo.

Veja como isso acontece:
» Bailarinos viram a tecnologia subir ao palco no fim do século 19, quando as primeiras máquinas fotográficas começaram a registrar peças. Mas uma bailarina em especial, a norte-americana Loïe Fuller, decidiu ir além e passou a usar a luz como elemento da coreografia.

» Grosso modo, Loïe projetava feixes multicoloridos nos trajes dos dançarinos, formados por longos pedaços de seda. A grande ideia de Loïe, que ficou conhecida como serpentine dance, acabou sendo absorvida por outras artes, entre elas o teatro, que, até então, não abusava da iluminação.

» Em 1966, um encontro chamado 9 Evenings — Theater and Engeneering reuniu 10 artistas e 30 engenheiros em Nova York, na primeira tentativa mostrar ao público o que seria a arte tecnológica, incluindo a dança. Foram nove noites de performances tão impactantes que, mais tarde, geraram DVDs.

» O músico John Cage, um dos nomes do 9 Evenings, se uniu ao coreógrafo Merce Cunningham para inaugurar o que se tornou a quebra da dança moderna para a contemporânea. A dupla experimentou muita coisa, principalmente a composição de movimentos não necessariamente cadenciados com a música.

» Além da parceria com Cage, Merce Cunningham sempre abraçou novas ideias. Em 1991, ousou adotar o Life Forms, um software que organiza os movimentos do corpo humano e ajuda a montar a coreografia.

» Outra novidade de Merce veio em 2006, no espetáculo eyeSpace. Na entrada do teatro, o público recebia iPods com diversas opções de trilha sonora e podia escolher a que quisesse ouvir para assistir à apresentação.

» Merce é também um dos responsáveis pela difusão da videodança, um formato em que bailarinos encenam pensando na câmera, para um espectador remoto. Diversos grupos adotam essa linguagem — há, inclusive um festival voltado para a videodança no Brasil, o Dança em Foco.

» Nos últimos 10 anos, outras tendências são o uso de projetores a dança telemática, que reúne profissionais espalhados em diferentes lugares em uma mesma apresentação. O público pode ver todo o elenco e um dos locais, com as cenas conectadas por meio da internet.

  • Tags
  • #
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade