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Estado de Minas

Novo protocolo que aumenta IPs é a solução para esgotamento da internet

Uma mudança silenciosa está em desenvolvimento na internet. Para evitar o esgotamento das identificações possíveis na rede mundial de computadores, foi criado um novo protocolo, elevando a quantidade de IPs a um número quase inimaginável


postado em 31/01/2011 09:21 / atualizado em 31/01/2011 18:14

A rede de computadores é como uma cidade. Milhares de pessoas (máquinas) estão espalhadas pelo território e, para achá-las, é preciso ter seu endereço completo. Agora, imagine uma cidade que cresceu demais, onde não há lugar para novos habitantes. É mais ou menos isso que deve acontecer com a internet nos próximos meses. Com uma grande vantagem: os administradores já pensaram em um jeito para abrigar mais moradores na teia da superinformação. A solução se chama IPV6, o novo protocolo da web que vai permitir a criação de tantos endereços quanto o número de estrelas no céu. Sem exageros.

Trocar dados na rede só é possível graças ao protocolo IPV4, mais conhecido como IP, que identifica cada um dos computadores espalhados no mundo. O IP é como o envelope das cartas, orienta o tráfego das mensagens e permite que um e-mail enviado no Japão, por exemplo, chegue aqui em instantes (veja quadro). Mas nem sempre foi assim. No começo da internet, havia diversas formas de dar o endereço das máquinas, pensadas pelos fabricantes de computadores. “O IPV4 acabou sendo adotado como padrão porque funcionava bem, atendia às expectativas”, conta o professor Leonardo Lazarte, do Departamento de Matemática da Universidade de Brasília.

O problema é que o IP — um número composto por quatro partes — tem possibilidades limitadas. A atual linguagem permite a existência de cerca de 4 bilhões de máquinas, ou seja, se todos os habitantes da Terra tiverem uma, já não haverá IPs suficientes. Isso sem falar que é comum uma mesma pessoa ocupar dois ou três IPs, em casa, no trabalho, no celular. “No futuro, haverá a chamada internet das coisas. Cada usuário terá vários endereços disponíveis e poderá conectar muitos dispositivos à web, como eletrodomésticos, carros, roupas inteligentes”, enumera Antônio Moreiras, coordenador de projetos do Centro de Estudos e Pesquisas em Tecnologias de Redes e Operações (Ceptro), vinculado ao NIC br.

O NIC br, sigla para Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, é o órgão que organiza a distribuição de endereços IP no Brasil. Funciona assim: uma entidade internacional repassa lotes de endereços, cada um com cerca de 16 milhões, para organismos regionais, que, por sua vez, distribuem aos provedores de internet. “O estoque central deve esgotar nos próximos dias, com a entrega do último lote para a Ásia, uma região que está crescendo muito nos últimos tempos. Aí, ficaremos apenas com os estoques locais e, dentro de dois anos, o IPV4 vai acabar”, prevê Antônio Moreiras.

Isso, porém, já era esperado. Os pesquisadores estudam o IPV6 há, pelo menos, 30 anos. Nesse período, é claro, houve um “jeitinho” de fazer o protocolo IPV4 durar um pouco mais (leia Para saber mais). As alternativas, contudo, não darão conta de suportar a web do futuro e suas exigências. Uma delas, que o novo protocolo pretende resolver, é a segurança. O IPV6 comporta informações criptografadas, ou seja, será muito mais complicado alguém se fazer passar por você no mundo virtual.

Outra característica é a chamada quality of service, que será determinada pelo administrador de cada rede. “Se eu estou baixando um vídeo, conversando com alguém no Skype, enviando um e-mail, tudo isso são pacotes de informação que concorrem pela mesma largura de banda. Assim, se você mora com um adolescente, pode ficar sem banda, porque ele vai ocupar toda a faixa baixando músicas”, brinca o professor da UnB Leonardo Lazarte. “O IPV6 garante que haja uma largura de banda reservada para cada aplicação”, completa.

A grande vedete do novo protocolo, no entanto, será a expansão quase ilimitada do número de endereços. Para se ter uma ideia, se cada IP do modelo anterior fosse um grão de areia, daria para formar um punhado com todos os existentes hoje. “Com o IPV6, os grãozinhos poderiam preencher o planeta Terra”, compara Antônio Moreiras. “Se a gente tiver que trocar de protocolo no futuro, será por algum aspecto técnico, não por falta de endereços”, diz.

Adaptação
A migração para o novo formato já começou. Algumas empresas e instituições têm redes com o IPV6, mas ainda não ocorreu um teste em escala global. A “prova de fogo” está marcada para 8 de junho, quando Google, Facebook e Yahoo farão o IPV6 Day, colocando todas as suas operações para funcionar com base no novo protocolo. Apesar de grandioso, isso não será nenhum bicho de sete cabeças. A maioria dos usuários não vai perceber a mudança, uma vez que o protocolo já está instalado nos computadores mais modernos.

O trabalho pesado ficará com os provedores. Todos precisarão se modernizar, seja adquirindo novos equipamentos ou fazendo o upgrade das máquinas que já possuem. “No Brasil, isso ainda está muito incipiente e poucos sites começaram a se preocupar com isso”, aponta Antônio Moreiras, do NIC br. Segundo o especialista, a situação não é crítica, mas as empresas precisam começar a transição em breve. Durante um período, os dois protocolos conviverão simultaneamente, mas o IPV4 será extinto aos poucos. “Temos feito algumas coisas para chamar a atenção sobre o assunto, até porque o processo não é instantâneo, levará um ou dois anos. O tempo é curto, mas ainda dá para fazer a migração de forma planejada e sem gastar rios de dinheiro”, alerta.


Máquinas inteligentes
Empregadas domésticas como a Rose, dos Jetsons, estão cada vez mais possíveis. Com a chegada do IPV6, cada pessoa poderá ter algo em torno de 18 quintilhões de IPs à disposição. Tantas identidades virtuais poderão ser conectadas aos mais diversos aparelhos. Imagine como seria interessante se seu carro lhe avisasse que está na hora de trocar o óleo e você, no mesmo instante, entrasse em contato com o posto de gasolina.


Mais números
O IPV6 tem uma estrutura muito maior do que o protocolo atual. São oito pedaços, escritos com números e letras. Isso porque os pesquisadores adotaram a linguagem hexadecimal — números de 1 a 16, com as letras representando os dígitos acima de 9. Na prática, porém, isso é só uma forma diferente de escrever o IP, porque a máquina só entende 0 e 1, a linguagem binária.


PARA SABER MAIS
Gambiarra virtual

Durante a era de ouro do IPV4, os pesquisadores criaram uma forma de ampliar o número de endereços dentro de uma rede. O chamado Network Adress Translation (NAT) fazia uma espécie de tradução do número IP que era visto por toda a rede. Com um “jeitinho”, era possível colocar mais máquinas sob o mesmo IP, todas recebendo os dados pelo IP original. Em uma analogia, o NAT era como os ramais de uma central telefônica.

A alternativa foi, e continua sendo, muito utilizada, mas não é algo que deve existir para sempre. “Se você vai abrir uma empresa, não vai fazer uma gambiarra para colocar todos os seus computadores on-line. Obviamente, vai querer um IP para cada máquina”, observa o professor da UnB Leonardo Lazarte. “Isso só foi uma forma de fazer o IPV4 render mais um pouquinho”, explica.



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