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Estado de Minas

Veja internautas que aceitaram o desafio de se "desconectar" por dois dias


postado em 01/02/2011 08:00

O computador pifa, a bateria do celular acaba, a televisão não tem sinal e o videogame não funciona. Essa é uma cena de tortura e terror, principalmente, para os apaixonados por tecnologia. Para eles, desligar-se do mundo é uma opção distante, algo impossível de acontecer. Mas a novidade para os que não têm limites na hora de usar esses aparelhos é que ficar desplugado por um tempinho pode ser muito bom. Quem já tentou garante que a sugestão oferece boas descobertas e novas sensações.

No fim de 2008, a escritora e colunista de uma revista australiana Susan Maushart, 52 anos, comprovou que essa pode ser uma boa ideia. Convenceu a família — de internautas fissurados — a ficar seis meses longe da web, da TV e de smartphones.

A ousadia rendeu o livro The winter of our disconnect — O inverno de nossa desconexão. E, dentro de casa da escritora, apresentou resultados positivos: os filhos aprenderam a fazer atividades com mais paciência, tiraram os jogos de tabuleiro do armário e passaram a conversar mais com amigos pessoalmente. Para Maushart, que tinha apego especial pelo iPhone, a proposta fez com que desistisse da compulsão de saber tudo o tempo todo. A experiência foi válida. Contudo, há um ano e meio, a família voltou — feliz — para o cybermundo.

Livrar-se do exagero tecnológico parece difícil, pois antenas e chips invadem sem cerimônia a casa e a cabeça dos consumidores. Parece uma preocupação apenas para países de primeiro mundo. Mas não, cada vez mais brasileiros colocam os brinquedinhos eletrônicos na lista de compras. Segundo a pesquisa feita pela empresa de consultoria de tecnologia Accenture, o Brasil lidera a venda de celulares, televisão de alta definição, câmeras digitais e netbooks, entre os principais países emergentes.

Cerca de 55% dos brasileiros ouvidos disseram ter comprado telefone celular no ano passado e 35% investiram em um novo computador. Quanto às televisões, 30% afirmaram terem adquirido modelo de alta definição — e a mesma proporção vale para compras de câmera digital.

Bolso vazio, mas uma pilha de aparelhos que passam a fazer parte da vida. Eles tomam o lugar do despertador, da agenda e do telefone, além de tornar as relações sociais mais práticas. Funcionam até mesmo como parceiro de diversão. Pensar em estar longe do mundo digital pode ser motivo de alívio para uns e agonia para outros.

Os internautas Pedro Mafra e Darlana Godoi aceitaram o desafio de passar 48 horas sem TV, celular e internet. O resultado? O primeiro percebeu que pode viver tranquilamente sem tanta tecnologia. Já para Darlana, é aterrorizante pensar nessa hipótese. Mas ambos concluíram que a brincadeira valeu a pena.

Nome: Darlana Ribeiro Godoi
Idade: 35 anos
Profissão: analista em Ciência e Tecnologia
Cidade: Taguatinga
Tempo conectada: 24 horas
Redes sociais: Facebook, Orkut, Twitter, Google Buzz

“Fiz a experiência de ficar 48h sem tecnologia nas férias. Seria impossível fazer o desafio no dia a dia do trabalho, pois fico 24h on-line. Tem dia que vou dormir com dor de cabeça e não admito que é por causa do computador. Invento mil desculpas, mas, no fundo, sei que é o problema está nas telas e mais telas. Confesso que sou o que chamam de heavy user (usuária intensiva): tenho blog, Twitter, Facebook, Formspring, Orkut e quatro contas no Gmail.

Enfim, topei o desafio. Nesse tempo de folga, viajei para Caldas Novas (GO), durante 11 dias. Um dia antes, meu laptop estragou. Quase me desesperei. Na experiência, ficar sem televisão foi horrível! Por pouco não pirei, pois eram os últimos capítulos da novela (vale lembrar que assisto novela comentando no Twitter). E quase morri de agonia nos dias que fiquei sem celular, porque percebi que, ultimamente, eu penso tuitando.

Então, acordei tarde para o tempo passar rápido, fui para o clube e deixei todos os aparelhos em casa. Que vontade de tirar uma foto, de mandar para o Facebook, de colocar no Picasa com comentários hilários. Na hora do almoço foi estranho, porque a primeira coisa que eu faço quando chego é ligar a TV. Eu mesma fiz a comida e foi diferente fazer o almoço naquele silêncio. Percebi que a comida saiu até melhor. Fiz com mais atenção.

Para aguentar o dia, comprei um livro. E foi bom porque era uma coisa que eu não fazia há muito tempo. À noite, tive que sair, meu filho queria assistir TV. No primeiro dia, tive agonia da vida off-line, no segundo, comecei a pensar melhor e refletir sobre o assunto.

Percebi que minha avó de 86 anos lembra da data de aniversário dos filhos, dos netos, dos sobrinhos, dos irmãos. E eu não sei o aniversário de muita gente próxima. As redes sociais me lembram sempre. Não me preocupo mais em guardar na memória. Fiquei assustada com minha dependência. Conclui o quanto é difícil ficar off-line. Quero fazer a experiência mais vezes. Sugiro que outras pessoas façam também. É impressionante.”


Nome: Pedro Mafra
Idade: 27 anos
Profissão: editor de vídeo
Cidade: Taguatinga Sul
Tempo conectado: mínimo de 10 horas por dia
Redes sociais: Twitter, Facebook, Orkut (as mais usadas)

“Uso muito o computador no meu cotidiano. Trabalho o dia todo com um e, quando chego em casa, a primeira coisa que faço é ligar o meu. Na experiência, fiquei sem computador, celular, TV, rádio e MP3 player. Num sábado, acordei e, no movimento automático de ligar o PC, demorei 15 minutos para lembrar do combinado. Então, seguiu-se uma certa desorientação: minha cabeça custa a funcionar sem música, principalmente pela manhã.

Coisas arcaicas, tipo CDs e fitas K7 (sim, eu ainda tenho algumas daquela época) foram a solução e a desculpa para ligar depois de anos um aparelho de som velho. Resolvido o problema da música, a primeira grande vantagem de não usar o computador foi finalmente poder abri-lo para uma limpeza das peças internas e dos coolers, que andavam fazendo barulho por causa da sujeira acumulada.

O resto do dia passei sem grandes fatos, até a hora de ir a um compromisso, feito à “moda antiga”: havia marcado com um amigo, no dia anterior, e compareci, na hora e local marcados. À noite, em casa, passei virando a fita, rebobinando... Ah! Houve alguns momentos em que eu quase abandonei a coisa toda, em outros em que dei “um jeitinho”, como ligar do orelhão, para resolver problemas do trabalho. Mas eu ligava e desligava rapidinho.

No domingo, lembrei da experiência antes que minha mão alcançasse o PC. Na preguiça de levantar e andar até o aparelho de som, fiquei sem minha música matinal e acabei dormindo mais algumas horas. Dediquei a tarde a coisas do intelecto e do espírito. Joguei I-Ching, dei sequência à revisão crítica do manuscrito de um amigo, arrisquei alguns desenhos e poemas, matei a última edição do jornal, peguei minha gaita (que já estava mofando) e arrisquei uns improvisos. Dormi cedo.

No dia seguinte, depois das 48h acertadas, antes mesmo de abrir os olhos, o PC já estava ligado. Apesar de eu usar muito tecnologia, não foi muito difícil. Consigo viver sem ela tranquilamente.”

A escritora Susan Maushart, autora do livro "The Winter of our Disconnect" (sem tradução para o português) conta como foi a experiência de ficar sem tecnologia.

Por que você decidiu tirar da tomada todos os eletrônicos em sua casa?
A resposta mais curta é simples: eu estava preocupada com meus filhos -- como eles pareciam viver alheios a aquilo que meu filho ironicamente chamava de VR (Vida Real). Para ser honesta, eu não estava aquém disso. Minha relação com o iPhone tinha toda a intensidade de um caso extraconjugal. Eu até dei a ele um nome de animal de estimação e comecei a comprar roupinhas... E, então, eu reli Walden, meu livro favorito, e essa experiência - mais o fato que eu estava na menopausa (risos) - me trouxe de volta a realidade. Sabe quando você não está pronto para ir para a reabilitação até chegar ao fundo do poço? Bem, nós chegamos lá. Eram tempos de desespero clamando por medidas desesperadas.

A senhora proibiu todo o tipo de tecnologia, incluindo TV?
Bem, pela primeiras duas semanas não tivemos nada de eletricidade. Mas isso foi apenas um acampamento - para nos preparar para a batalha. Quando voltamos a ter eletricidade, permitimos rádio e tocadores de música. Não era permitido TV, DVDs, internet, computador, qualquer tipo de smartphone ou iPod. Basicamente, se tinha tela estava de fora.

Você já tinha tentado limitado o uso de tecnologia em casa ou foi a primeira vez?
Sim, eu tentei e falhei. E tentei e falhei. E tentei e falhei. Em certos intervalos, eu tirava um fusível e também tirava o modem da tomada ou tentava impor regras radicais. Duas horas de internet por dia (para três crianças, enquanto eu trabalhava em período integral? Adivinha. Não havia como vigiar). Ou sem inter depois das 21h ("Mas, mãe, eu tenho que fazer dever de casa"). Quando tínhamos jantares com outras família, eu, às vezes, pegava os celulares das crianças em uma sacola e os desligava... Isso foi, em parte, o que me inspirou a fazer essa "grande desconexão". Assistir as crianças interagir e brincar (mesmo com adolescentes mais velhos) era de algum modo chocante.

Como as crianças faziam o dever de casa e como você trabalhava?
O acesso estava proibido apenas em casa (também no carro). As crianças podiam acessar a internet na escola, por exemplo, na casa de amigos. O mais estranho era que os amigos deles queriam passar o tempo conosco! A novidade da casa era que "passar o tempo" significava conversar, ouvir música, jogar games de tabuleiro, cozinhar e fazer jogos bestas e divertidos.
Eu escreci minhas colunas por dois meses e meio a mão. Deixei meu diário atualizado, fui a livraria atrás de livros de verdade, li jornais do tipo que sujam meus dedos com tinta. Após isso, eu passei a trabalhar no escritório com um computador e uma conexão com a internet.

QUal foi o maior prêmio no final?
Ver mais acima! Mais especificamente: a qualidade de nossa interação como família. Ficamos mais próximos. Muito mais. Nos divertíamos mais. Nos... conectamos. Esse foi o preço, realmente.

Como mudou o uso da tecnologia na sua casa?
Muito. Meu filho vendeu o computador no fim do experimento para comprar um saxofone. Ele quer ser um músico profissional e quer usar o tempo que ficava jogando para praticar. Um milagre! Minha filha mais velha regularmente se desintoxica do Facebook e aprendeu a desligar o computador e o telefone por uma boa noite de sono. Talvez, o mais estrano, ela continua com o hábito de fazer pesquisas e escrever na biblioteca da Universidade. "Menos distrações", ela diz. Minha mais nova... Bem, eu ainda tenho que impor limites principalmento com o uso do iBook. Mas eu fiquei impressionada quando ela usou as redes sociais para crair uma nova rede de relacionamento com amigos na nova escola. Quanto a mim, eu ainda estou devota do meu iPhone, mas, olhe só, não estamos dormindo mais juntos.

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