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Estado de Minas

Quando as horas de conexão prejudicam é preciso procurar ajuda

Segundo especialistas, quando há exagero, a brincadeira tecnológica pode virar um vício


postado em 01/02/2011 08:00

Para se comunicar ou simplesmente se divertir, a tecnologia dá aquela ajuda. Mas a praticidade e a rapidez das conexões do mundo virtual podem ter também consequências desagradáveis. Especialistas defendem que estar conectado é saudável, exagerar no uso dos aparelhos nem sempre. Isso pode significar dependência tecnológica.

Tiago Miranda, 29 anos, se considera um dependente. O analista da Receita Federal não resiste por muito tempo às novidades eletrônicas na vitrine. Não abre mão do celular de última geração, do notebook, do netbook, das televisões de alta definição, dos videogames e até da máquina de lavar digital. Não anda sem pendrive no bolso e está sempre conectado à internet, no desktop da empresa ou no telefone. “Só não tenho videogame portátil porque, com os outros aparelhos e redes sociais, falta tempo para games fora de casa”, acrescenta.

Para conseguir preparar um prato com capricho na cozinha, por exemplo, ele desliga o celular por cerca de duas horas no fim de semana. Imediatamente depois da tarefa, corre para checar as mensagens no aparelho. O apego é tão grande que já ocorreu de voltar em casa na metade do caminho para o trabalho porque tinha esquecido o telefone. “Fiquei com medo de que tentassem me contatar e eu não pudesse responder”, explica.

Miranda confessa desvantagens nessas atitudes, como o estresse de querer tudo rápido em um clique, mas os benefícios são ainda maiores. A tecnologia, segundo ele, soluciona problemas com o banco, com o trabalho e com a família. Resolve até mais: a dificuldade de manter relações sociais fora do mundo virtual. “Não tenho muita paciência em ficar perguntando sobre como foi o dia das pessoas e ter que ouvir os detalhes”, afirma. “A internet me ajuda a fazer essa interação sem muito esforço.”

Bruno Reis, 38 anos, não tem problema em se relacionar pessoalmente, mas, como Miranda, assume a dependência em tecnologia. Não se desfaz do smartphone com GPS, do netbook, do desktop, do Playstation 3 e do iPad. “Não consigo mais viver sem nenhum deles. São todos imprescindíveis”, explica. Os gadgets fazem com que ele fique conectado 24h, mas quando vai dormir, por fim, consegue desligar o celular.

Segundo o radialista, ele consegue se desconectar quando quer e precisa e, por exemplo, viajar sem olhar direto o e-mail. Mas a mulher, Adriana, sempre reclama quando percebe que está falando ao telefone com o marido e ele responde monossilabicamente: é sinal de que está concentrado em alguma telinha. Reis defende que a tecnologia poupa aborrecimentos, como filas de bancos ou caminho errado em viagem. “O ruim é que ocupo esse tempo livre em busca de novidades tecnológicas ou configurando as que já tenho”, brinca.

A reclamação de Felipe Munhoz, de 31 anos, é outra: a bateria dos gadgets dura pouco. Ao contrário de Reis e Miranda, o analista de suporte de rede não se considera um viciado em tecnologia, e diz conviver muito bem sem os aparelhos. “Acho que quando algo não atrapalha a vida não é vicio, apenas paixão”, explica.

Munhoz tem iPhone, iPod, celular, netbook, Mac mini, dezenas de pendrives, vários HDs externos, GPSs, Nintendo Wii, Xbox 360 e seis rádios Talk About. E mesmo com tantos produtos, garante que a paixão pelos aparelhos não o prejudica. “Sou um geek (pessoa obcecada com tecnologia), mas também sociável. Não troco o momento de estar com as pessoas por meus brinquedos eletrônicos”, ressalta.

Transtorno
É preciso ficar atento quando a tecnologia prejudica física ou mentalmente a vida do internauta, se ele ficar on-line mais do que deseja ou se amigos e familiares reclamam da ausência da pessoa grudada no computador. Essas são dicas do psicólogo Fábio Caló, que trata fenômenos de dependência em internet.

Para o especialista, o motivo da procura intensa pelos eletrônicos se resume em uma palavra: relacionamento. “O que a tecnologia proporciona, na maior parte, são maneiras de se relacionar”. Os usuários estão atrás de sexo, informação, amor, trabalho. “As redes sociais ganharam o peso que têm hoje por oferecem uma bandeja de ligações sociais”, comenta.

A fundadora da Psicoinfo, instituição que trata pessoas com dependência tecnológica, Luciana Nunes, acredita que o sexo é o principal fator que motiva o transtorno. “A maioria apresenta sintomas relacionados ao sexo. A pessoa quer ser estimulada e o sexo é interativo, atraente e muito visual.” Inclusive, de cinco separações de casais que têm acesso constante à web, quatro delas são por causa de traição on-line.

O número de usuários e dependentes é crescente por causa do fenômeno de acessibilidade. Mas a especialista apela para que exista uma campanha que ensine a usar a internet de modo saudável. “É perigosa a forma desordenada como são disponibilizados os recursos tecnológicos”, protesta. “Precisamos aprender a usar a tecnologia a nosso favor.”

DIVÃ ON-LINE
» Um dependente em tecnologia pode ser tratado via e-mail? Sim! Por mais contraditório que pareça, consultas psicológicas on-line são eficazes para ajudar quem não consegue largar a vida virtual. O Psicoinfo é um instituto no Rio de Janeiro que usa esse método de tratamento. Alguns atendimentos são por Skype (programa de voz e vídeo). O atendimento é cobrado: R$ 2,2 mil por 20 semanas, com uma avaliação psicológica e psicoterapia de grupo com cinco participantes. Em São Paulo, o Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC-SP também faz atendimentos por e-mail e é gratuito. Mas o Núcleo afirma que o propósito não é realizar psicoterapia virtual, mas oferecer orientação psicológica breve e pontual, que não ultrapasse o número de oito mensagens necessárias ao tratamento do tema central da solicitação recebida.


Tipos de dependentes

Cibersexual
Vício em pornografia na internet. Dedica-se a visualizar, fazer download e comércio de pornografia. Na maioria são adultos envolvidos em jogos de fantasia em salas de bate-papo.

Ciberaffair
Vício em relacionamentos on-line. A tendência é praticar adultério virtual em salas de bate-papo, mensagens instantâneas ou redes sociais. Pode levar a discórdia conjugal e instabilidade familiar.

Ciberplayer
Vício em games on-line. Com acesso a cassinos virtuais e jogos interativos, gastam quantidades excessivas de dinheiro e até mesmo interrompem outras tarefas relacionadas com o trabalho ou relações significativas para jogar.

Ciberinfo
Vício em navegação e busca de dados. Pessoas passam grande quantidade de tempo pesquisando informações e coletando dados na internet. A tendência é diminuir a produtividade no trabalho.

Fonte: Luciana Nunes, da Psicoinfo


Sintomas da dependência

Leia as afirmações abaixo e responda sim ou não. Três ou mais respostas afirmativas pedem atenção do usuário. Se os sintomas persistirem por mais de seis meses pode ser o caso de procurar ajuda médica.

1 - Preocupação constante com a internet quando está off-line.

2 - Necessidade contínua e crescente de utilizar a internet como forma de obter excitação.

3 - Irritabilidade quando tenta reduzir o tempo on-line.

4 - Utilização da internet como forma de fugir de problemas ou aliviar sentimentos de impotência, culpa, ansiedade ou depressão.

5 - Mentir para familiares e pessoas próximas para encobrir a extensão do envolvimento com as atividades on-line.

6 - Comprometimento social e profissional.

7 - Comprometimento nas articulações motoras utilizadas na digitação.

8 - Falta de interesse em atividades fora da internet.

9 - Sensação de estar vivendo um sonho durante um período prolongado na web

Fonte: Psicoinfo

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