Jornal Correio Braziliense

Tecnologia

Aumento de consultas a artigos sobre doenças na Wikipedia antecede surtos

Segundo cientistas dos EUA, o aumento de consultas sobre uma enfermidade na enciclopédia virtual costuma antecipar a disseminação dela em uma região. Testes previram o problema com 28 dias de antecedência

O hábito das pessoas de consultar o Google assim que surge um mal-estar, antecipando o diagnóstico médico, pode ser um aliado da saúde pública. Estudo publicado na edição de ontem da revista especializada Plos One mostrou que o interesse dos internautas em informações sobre doenças ajuda especialistas a prever um surto com 28 dias de antecedência. A ferramenta usada para isso é também uma boa conhecida dos usuários da rede mundial: a Wikipedia.

O caminho que uma pessoa percorre na internet deixa indícios que podem ser facilmente rastreados. Por isso, não é de se espantar que a busca por informações sobre saúde possam funcionar como indicador de que os casos de uma doença aumentaram em uma determinada região. Sara Del Valle, principal autora do estudo e pesquisadora do Laboratório Nacional Los Alamos (EUA), teve a ideia de usar o oráculo mais conhecido da internet para investigar o fenômeno.

A Wikipedia é o sexto site mais acessado na rede. Além disso, tem um impressionante banco de dados compartilhado, com aproximadamente 30 milhões de artigos escritos em 287 línguas. A equipe de Del Valle selecionou, na enciclopédia on-line, 10 artigos sobre sete doenças em nove países. Depois, os correlacionou com dados oficiais obtidos em páginas institucionais de governos locais e da Organização Mundial da Saúde.

Essa ligação foi feita por um modelo computacional desenvolvido especialmente para analisar dados de saúde pública acumulados durante três anos. ;No momento, estamos usando o idioma como um proxy (servidor que recebe as requisições de computador e as encaminha para o local de destino) porque a Wikipedia não libera informação geográfica. Eles só informam quantas pessoas acessaram cada artigo (de hora em hora) e o idioma em que ele está escrito;, completa a autora.

Del Valle conta que trabalha com a Fundação Wikimedia, que opera a Wikipedia, para conseguir que a empresa libere informações geográficas sobre os acessos de cada artigo. ;Uma vez que isso aconteça, pretendemos desenvolver modelos capazes de antecipar surtos de mais doenças em mais países;, diz. Não há previsão, no entanto, de quando esse trabalho começará a ser feito. ;Não podemos dizer quando nosso projeto sairá do papel porque não sabemos quanto tempo vai demorar para a fundação repassar essas informações;. Além dessa dificuldade, De Valle pontua outro obstáculo: ;Precisamos de patrocinadores para tornar a nossa meta possível;.

Sem fronteiras
O cruzamento de dados feito pelo sistema desenvolvido pela equipe liderada por Del Valle conseguiu prever com quase um mês de antecedência surtos de gripe nos Estados Unidos, na Polônia, no Japão e na Tailândia. Também indicou picos de incidência da dengue no Brasil e de tuberculose na China e na Tailândia. Para a pesquisadora, a ferramenta é mais do que bem-vinda em tempos de globalização, quando precisa-se rever as formas de lidar com epidemias.

A principal diferença do estudo, segundo Del Valle, é que esse sistema de previsão é ;reciclável;. Por exemplo: bastam alguns ajustes para que uma pessoa qualquer na Tailândia utilize um modelo de computador criado originalmente para analisar dados do Japão. Essa possibilidade é particularmente importante para países que não têm dados atualizados fornecidos pelos próprios órgãos de saúde.

;A maioria dos sistemas atuais estão fechados e não liberam todos os seus dados brutos. Por isso, é difícil verificar ou modificar o tipo de trabalho que eles foram programados para fazer. Além disso, muitos sistemas existentes estão monitorando apenas a prevalência da doença, mas não necessariamente a previsão de prevalência. Nosso projeto é mais completo por se centrar na monitorização e na previsão da propagação de enfermidades em todo o mundo;, diz a pesquisadora.

Os métodos tradicionais de vigilância dependem de dados de testes, normalmente repassados por médicos, hospitais e laboratórios. Além de demorado, esse sistema exclui qualquer consulta popular. Com a internet, esse obstáculo poderá desaparecer, diz Wenbiao Hu. O pesquisador do Instituto para Inovação Biomédica e da Saúde publicou em janeiro, na Lancet Infectious Diseases, uma pesquisa com resultados semelhantes aos de Del Valle. Na análise, Hu conseguiu detectar dengue e gripe duas semanas antes do início do surto.

O especialista ressalta que ferramentas simples e de fácil acesso, além da Wikipedia, podem ser utilizadas. O Google Trends e o Google Insights são dois exemplos. ;A detecção precoce é um alerta para as autoridades de saúde, que poderão desenvolver estratégias de gestão mais eficientes, como se preparar para um fornecimento adequado de medicamentos;, observa. ;A natureza internacional de doenças infecciosas, combinadas com a globalização das viagens e do comércio emergente, tem aumentado a interligação de todos os países. Por isso, meios de detecção, monitoramento e controle dessas doenças devem ser uma preocupação global.;