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Correio Braziliense

Eclipse solar total varrerá os EUA na próxima segunda, após quase um século

O fenômeno, que também será visto em alguns estados brasileiros, permitirá que cientistas e amadores conheçam mais sobre o universo


postado em 14/08/2017 06:00 / atualizado em 13/08/2017 21:36

Especialistas recomendam que observadores protejam a visão até a escuridão total (foto: Alejandro Pagni/AFP)
Especialistas recomendam que observadores protejam a visão até a escuridão total (foto: Alejandro Pagni/AFP)
 
 
De um dos cantos do Sol, um disco negro avança lentamente. O corpo celeste que ilumina a noite agora traz para o dia uma amostra da sua escuridão. Na Terra, uma sombra avança na velocidade de um avião supersônico, a mais de 2.500 quilômetros por hora. Leva pouco mais de uma hora até que a Lua cubra o astro-rei completamente. Poucos segundos antes do ápice do eclipse, o Sol é reduzido a uma fina linha ao redor do satélite. Subitamente, a noite vem, as estrelas aparecem no céu e a coroa solar envolve a Lua. A temperatura cai bruscamente, em até 10°C, e um vento repentino pode aparecer. O fenômeno é tão poderoso que animais noturnos saem das tocas e os diurnos vão dormir, para acordarem confusos alguns minutos depois. É a chamada totalidade do eclipse solar.
 

Na próxima segunda-feira, o fenômeno intrigante percorrerá os Estados Unidos de costa a costa, algo que não acontece há quase um século. Apesar de o eclipse solar não ser raro —  acontece a cada 18 meses —, é incomum que a totalidade percorra um país tão grande e por tanto tempo, ainda mais o lar da maior agência espacial do mundo, a Nasa, que se prepara para explorar ao máximo a oportunidade astronômica.

Diversas missões estão sendo preparadas, incluindo uma gama de satélites no espaço, balões meteorológicos, observatórios em solo e telescópios montados em aviões, que seguirão a totalidade para estender ao máximo a sua duração. Enquanto em solo ela não passará de 2 minutos e 40 segundos, a bordo dos aviões, ocorrerá durante cerca de 8 minutos, dando mais tempo para os experimentos.

“Existe previsão de eclipses literalmente há milênios, mas nem sempre é possível deslocar técnicos e equipamentos para a faixa de totalidade. Muitas vezes, uma parte grande dessa faixa está no mar, em locais remotos ou em regiões conflagradas do mundo. Desta vez, tem-se um eclipse total que atravessará o país que tem a maior agência espacial do mundo e, ainda por cima, nas férias de verão. Com certeza, a oportunidade vai ser muito bem aproveitada”, diz Roberto Costa, professor do Departamento de Astronomia da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo o especialista brasileiro, quando o eclipse solar é observado em condições normais, o que se vê é a chamada fotosfera, a superfície extremamente brilhante e quente que emite luz. Acima dela, existem ainda a cromosfera e a coroa solar —  a aura que envolve o eclipse total —, que têm uma luminosidade muito tênue e só podem ser observadas durante o fenômeno completo. As forma da coroa, diz Roberto Costa,  fornece muitas informações sobre o interior da estrela e seu complexo campo magnético. “O Sol ainda tem muito para ser estudado, e os eclipses totais são muito importantes para esse estudo”, diz.

Também professor do Departamento de Astronomia da USP, Enos Picazzio ressalta que há tecnologias que permitem cada vez mais aos estudiosos desvendarem os mistérios da astronomia simulando fenômenos raros. “Atualmente, os telescópios solares espaciais observam o Sol 24 horas por dia, sem interferência atmosférica e sem necessidade de eclipse. Eles usam coronógrafos, um telescópio especial que simula o eclipse cobrindo o disco solar para expor a sua coroa.”


Olhos ao alto

O eclipse também será visto nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Devido à grande distância do caminho da totalidade, aqui, o fenômeno cobrirá apenas uma parte do Sol. Quanto mais ao norte, maior será a porcentagem do astro coberta. Apesar de um eclipse parcial não ter o mesmo impacto visual de um completo — apenas nesse caso o céu escurece e a coroa fica visível —, ele ainda fará com que muitos amantes da astronomia olhem para cima.

“Nós faremos a observação pública em um açude conhecido da nossa cidade, um local bem fotogênico e com campo aberto para observação”, conta Felipe Sérvulo, mestrando em cosmologia e membro da Associação Paraibana de Astronomia. Felipe e Irenaldo Alves, também astrônomo amador, organizaram um evento no qual vão disponibilizar dois telescópios refratores equipados para a observação do Sol, para que a população de Taperoá, na Paraíba, possa ver o eclipse de perto. “É um fenômeno astronômico que causa admiração desde os primórdios. Para esse, é recomendável um local aberto, fora da cidade, pois o evento acontecerá próximo ao pôr do sol. Nosso intuito é transmitir às pessoas o conhecimento e o entendimento da astronomia e do universo como um todo”, afirma Irenaldo.

Em Boa Vista, o Clube de Astronomia de Roraima também organiza um evento de observação do eclipse. “Nós levaremos alguns telescópios, que têm que ser preparados com filtros solares que filtram 99% da luz, e alguns óculos especiais”, diz Abreu Mubarac, presidente da entidade. “Mesmo que seja um eclipse parcial, vale a pena ver. Esse é o evento mais esperado do ano, não podia passar despercebido.”

Iniciativas como essas trazem a astronomia para mais perto da população. Não é preciso ser cientista para apreciar um eclipse. “A ideia surgiu bem antes de organizar esses eventos, uma vez que senti a necessidade de levar essas belezas do universo para o público e, ao mesmo tempo, popularizar a astronomia e disseminar a ciência. Esse é o objetivo do nosso projeto”, afirma Felipe.
 
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
 


Plataforma brasiliense

Os acadêmicos também não perderão a oportunidade. Um projeto brasiliense pretende ver o eclipse bem de perto. A iniciativa LAICAnSat-1, da Universidade de Brasília (UnB), prepara a missão Kuaray, que lançará uma plataforma de experimentos de alta altitude durante o eclipse, no caminho da totalidade. A plataforma será usada para gravar um vídeo de realidade virtual do fenômeno em 360 graus para ser exibido no Planetário de Brasília. “Ela chegará próximo ao espaço, a um custo muito baixo”, diz Lorena Tameirão, mestranda em sistemas mecatrônicos e integrante do projeto.

Todos os sistemas eletrônicos foram desenvolvidos por alunos da UnB. A missão será lançada durante o eclipse na cidade de Rexburg, nos Estados Unidos, que verá a totalidade do fenômeno. “Nós fizemos um experimento durante a Campus Party, exibimos um vídeo de um dos nossos voos, e o pessoal se interessou muito”, orgulha-se Lorena. “Faremos o lançamento com a Universidade Estadual de Montana, e o objetivo é iniciar uma parceria com ela para aprimorar essas plataformas aqui.” 


Perseguição supersônica

Em 1973, uma equipe de cientistas literalmente perseguiu um eclipse solar. Eles adaptaram um protótipo do avião supersônico Concorde com telescópios e equipamentos de observação. O avião acompanhou a totalidade por mais de 74 minutos, voando quase à mesma velocidade da sombra, a 2.100 quilômetros por hora.

"Desta vez, tem-se um eclipse total que atravessará o país que tem a maior agência espacial do mundo e, ainda por cima, nas férias de verão. Com certeza, a oportunidade vai ser muito bem aproveitada” Roberto Costa, professor do Departamento de Astronomia da Universidade de São Paulo (USP)

Sombra artificial

O mesmo princípio que torna o eclipse um evento importante para a astronomia, o bloqueio do Sol que permite a observação de objetos menos brilhantes de outra forma ofuscados, pode ser criado artificialmente para outras estrelas. Essa é a proposta de pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA). Eles criaram um sistema que forma um eclipse artificial de estrelas distantes, revelando objetos próximos ao astro que geralmente ficam ocultos, como planetas e nuvens de gás estelar.

“É uma formação de satélites precisamente alinhada com a estrela-alvo”, explica Simone D’Amico, um dos envolvidos na pesquisa. “O maior é chamado de starshade  (sombra estelar) e bloqueia a luz do astro. O menor é o telescópio, que voa dentro da sombra formada pelo starshade e tira foto dos arredores da estrela. Ele é ejetado pelo satélite maior após o lançamento.”

Um planeta pertencente a outro sistema solar não pode ser detectado pelos telescópios comuns, porque a luz da estrela é tão forte que o ofusca. Os cientistas precisam usar os chamados métodos indiretos, detectando mudanças na gravidade ou na luz desses astros, fatores que sugerem a presença de planetas.


Pétalas

Curiosamente, a starshade não é redonda, como a sombra criada por um eclipse solar. Ela tem um formato de flor, necessário para criar uma sombra escura o suficiente que permita ao telescópio registrar as imagens. “Nós precisamos suprimir a luz estelar em 10 vezes, o que só pode ser feito através de uma interferência destrutiva das ondas de luz. Por isso, o formato em pétalas”, afirma D’Amico. 

Para observar planetas do tamanho da Terra, seria necessário um starshade com dezenas de metros de diâmetro, separado do telescópio por uma distância de várias vezes o diâmetro terrestre. Além disso, a dupla de satélites deveria estar além da órbita do nosso planeta. Uma missão assim custaria bilhões de dólares.

Buscando mostrar a viabilidade do projeto, os cientistas planejam uma versão em miniatura. O starshade experimental terá cerca de três metros de diâmetro e ficará a menos de 1000 quilômetros do telescópio. “Ainda temos que resolver alguns desafios importantes, como a navegação autônoma precisa, o controle da formação em órbita e o projeto dos componentes miniaturizados”, lista D’Amico.
 
* Estagiário sob a supervisão de Carmen Souza 

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