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Correio Braziliense

Gaveteiro eletrônico ajuda pessoas com Alzheimer a se vestir sozinhas

Estudo preliminar mostra a precisão do sistema, que passará por aperfeiçoamentos antes de ser testado nas casas de pacientes


postado em 07/05/2018 06:05 / atualizado em 07/05/2018 11:05

O gaveteiro orienta o usuário sobre o próximo passo por meio de um sistema de iluminação(foto: Sapna Parikh/New York University/Divulgação)
O gaveteiro orienta o usuário sobre o próximo passo por meio de um sistema de iluminação (foto: Sapna Parikh/New York University/Divulgação)
 
Primeiro, são as chaves do carro. Depois, o nome de um parente, uma data importante, um compromisso de trabalho. Até que, um dia, a pessoa se esquece dela mesma. Condição que afeta 50 milhões no mundo, com previsão de triplicar em 2050, as demências, como o mal de Alzheimer, têm um custo social incalculável: além do indivíduo, a família é profundamente envolvida, pois, com o tempo, a tendência é a perda total da independência e da funcionalidade. Como ainda não há cura para os diversos tipos de doenças que destroem a memória progressivamente, pesquisadores têm buscado tecnologias assistivas para resgatar parte da autonomia comprometida.

Em um trabalho colaborativo, cientistas da Universidade de Nova York, da Universidade Estadual do Arizona e do Instituto MGH de Profissionais de Saúde, nos Estados Unidos, desenvolveram o protótipo de um sistema inteligente doméstico, chamado Dress, que ajuda o paciente a se vestir sozinho, guiado por um aplicativo. Ao mesmo tempo, sensores avaliam o grau de estresse na execução da tarefa e, caso identifiquem que é preciso intervenção, o cuidador é avisado. O invento — um gaveteiro com câmera e códigos de barras — foi concebido a partir das necessidades relatadas por grupos focais de pessoas que cuidam de pacientes com Alzheimer.

De acordo com Winslow Burleson, professor da Faculdade de Enfermagem Rory Meyers da Universidade de Nova York e diretor do Laboratório NYU-X, da mesma instituição, os filhos dos pacientes (que, em geral, desempenham o papel de cuidadores) afirmam que a tarefa de vestir os pais é uma das mais estressantes do dia, tanto para quem sofre do problema quanto para quem zela, tanto devido à complexidade da tarefa quanto pela falta de privacidade inerente. Um estudo de 2011 da National Alliance for Caregiving, que avaliou a percepção da tecnologia assistiva por familiares, revelou que 61% deles ajudam a pessoa com demência a se vestir. Para 56%, a necessidade de auxiliar nas atividades cotidianas é um fardo pesado. Quase 70% disseram que um aplicativo para auxiliar nas tarefas seria útil.

Método

O cientista Winslow Burleson ao lado do protótipo Dress: mais autonomia a pacientes com demência(foto: Sapna Parikh/New York University/Divulgação)
O cientista Winslow Burleson ao lado do protótipo Dress: mais autonomia a pacientes com demência (foto: Sapna Parikh/New York University/Divulgação)
O protótipo do Dress combina sensores e software de reconhecimento de imagem para acompanhar o progresso durante a tarefa de se vestir. Etiquetas com código de barras nas roupas identificam o tipo, a localização e a aplicação delas (se é calça ou blusa, por exemplo). As roupas ficam em uma cômoda com cinco nichos equipada com tablet, câmera e sensor de movimento — cada gaveta guarda uma peça do vestuário. O paciente usa um bracelete equipado com um monitor de nível de estresse e frustração associada ao processo.

Em outro cômodo, o cuidador inicia o sistema Dress por um app, que também informará sobre o progresso da tarefa. A pessoa com demência recebe as orientações pré-gravadas com a voz de quem costuma cuidar dela. A primeira é para que abra a primeira gaveta de cima. Simultaneamente à gravação, o nicho é iluminado. A roupa tem códigos de barras detectados pela câmera. Se a peça é vestida corretamente, o sistema passa para a etapa seguinte, mas, se é registrado um erro ou uma inércia, são reproduzidas mensagens de correção e encorajadoras. Caso o sensor de estresse identifique níveis elevados de ansiedade, o aplicativo avisa o cuidador.

“Nossa intenção foi desenvolver um protótipo que ajude pessoas com demência a se sentirem mais autônomas e, ao mesmo tempo, permitir uma pausa para o cuidador, sem que ele deixe de ser informado caso alguma coisa dê errado”, explica Burleson. “O que pretendemos com o Dress é integrar rotinas e interações humanizadas, promover a normalidade e a segurança na execução de tarefas do cotidiano e permitir que as pessoas com Alzheimer se vistam sozinhas, guiadas pelo sistema.”

Teste

O Dress será testado nas casas de pacientes de demência, mas, antes disso, a equipe fez um estudo em laboratório, para verificar se, de fato, o sistema faz todos os reconhecimentos necessários e planejados. O experimento, descrito na revista Journal of Medical Internet Research, foi realizado com 11 jovens adultos saudáveis, que participaram de sessões de uma hora. “O que queríamos checar especificamente era a capacidade do protótipo de detectar com acurácia os diferentes estágios do processo para nove cenários comuns: colocar corretamente a camisa e a calça; vestir apenas um membro, ou seja, uma perna ou um braço; colocar a roupa do lado certo, e não ao avesso; alinhar a parte de trás da roupa com a parte de trás do corpo e alinhar corretamente os botões da camisa”, enumera Burleson.

Os participantes foram instruídos para executar corretamente e de maneira errada cada passo. Os resultados mostraram que o Dress foi capaz de detectar a orientação e a posição correta das roupas, assim como identificar em que passo do processo de se vestir os voluntários estavam. Apesar de ter acertado em 384 das 388 vezes que as pessoas vestiram uma camisa ou uma calça, o sistema se saiu mal no sentido de discernir quando elas haviam terminado de colocar a roupa (falhou em 10 das 22 vezes para camisas e 5 de 22 para calças).

“Com isso, vamos melhorar a confiabilidade do protótipo. Inclusive, vamos aumentar o tamanho dos códigos de barras e minimizar a dobra das roupas para impedir que os códigos fiquem bloqueados”, explica Cecil Lozano, coautora do artigo e pesquisadora da Faculdade de Computação, Informática e Engenharia de Sistemas de Decisão da Universidade Estadual do Arizona. “Fazendo esses ajustes, o protótipo tem potencial de fornecer um suporte automatizado para ajudar pessoas com demência a manter sua independência e privacidade e, ao mesmo tempo, aliviar o fardo dos cuidadores”, diz Burleson.

Pesquisadora da Faculdade de Saúde da Universidade Metropolitana de Oslo, na Noruega, Torhild Holthe concluiu, recentemente, uma meta-análise, na qual procurou identificar, em estudos publicados previamente, quais as intervenções tecnológicas na área de saúde têm maior receptividade entre pacientes de demência e seus cuidadores. “Se uma pessoa acha a tecnologia pouco amistosa ou incompatível com seu estilo de vida, o dispositivo dificilmente será aceito”, opina Holthe, que não participou da pesquisa sobre o Dress.

De acordo com ela, se for fácil de usar, atender as expectativas e, de fato, ajudar na autonomia da pessoa com Alzheimer, as chances de uma inovação ser incorporada são grandes. “A tecnologia tem o potencial de facilitar uma vida boa e digna, reduzindo a pressão sobre a família e a necessidade de serviços de cuidados”, observa a pesquisadora.

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