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Correio Braziliense

Técnica usa postagens no Twitter para monitorar chuvas e enchentes

Estudo da Universidade de São Paulo ajuda no monitoramento de enchentes


postado em 02/07/2018 06:00 / atualizado em 02/07/2018 08:37

Combinada com o método tradicional de vigilância, a solução previu o risco de enchente com 71% de precisão: sem ela, taxa caiu para 39%(foto: Thiago Sampaio/Divulgação)
Combinada com o método tradicional de vigilância, a solução previu o risco de enchente com 71% de precisão: sem ela, taxa caiu para 39% (foto: Thiago Sampaio/Divulgação)

Quando o tempo fecha, você corre para as redes sociais e posta uma foto da chuva que o impediu de sair de casa ou aliviou o calor? Saiba que o desabafo poderá ajudar os meteorologistas a melhorar as previsões. É o que pretendem cientistas do Instituto de Ciências Matemáticas e da Computação, o ICMC, da Universidade de São Paulo, São Carlos. Eles criaram uma técnica que analisa milhões de mensagens no Twitter em busca de indícios de chuvas em uma região e ajuda no monitoramento e resposta a situações de desastres, como enchentes.

A ideia é que o sistema trabalhe em conjunto com os métodos tradicionais, que usam equipamentos específicos para medir a quantidade de chuva. “Na prática, nós temos duas possibilidades: coletar dados de onde não existem esses sensores ou de onde a resolução de dados é muito baixa”, afirma Sidgley Camargo, pesquisador do ICMC e um dos envolvidos no estudo. “O ideal é que a gente tenha um pluviômetro a cada quilômetro porque a chuva não é um fenômeno uniforme. A cidade de São Carlos, por exemplo, tem três sensores. Não é suficiente.”

Sidgley Camargo e colegas analisaram quase 16 milhões de tuítes em busca de palavras relativas ao fenômeno, como chuva, arco-íris e pancada de chuva, e relacionaram os textos com as ocorrências registradas em regiões de São Paulo. A lógica é simples: se várias pessoas mencionam enchentes em um mesmo bairro no mesmo período de tempo, é provável que o problema esteja acontecendo. Nos testes, as informações também foram comparadas a dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais.

Resultados da pesquisa foram publicados nas revistas Societal Geo-innovation, em 2017, e na Computer & Geosciences, neste ano. O primeiro artigo mostrou que as mensagens ocorrem em um intervalo de 10 minutos antes e depois de um evento climático. Isso significa que as pessoas falam tanto sobre os sinais que precedem uma chuva, como nuvens cinzentas e ventos fortes, quanto sobre as consequências do fenômeno.

Já o artigo mais recente mostra a capacidade da técnica de melhorar as estimativas. Quando combinadas, as informações do Twitter e as dos sensores tradicionais alcançaram precisão de 71% ao estimar a vazão de um rio — um importante indicador do risco de enchentes —, contra 39% quando se usou apenas o método tradicional.

Apesar dos resultados, Camargo ressalta que se trata de uma ferramenta adicional. “Essas mensagens estão relacionadas à chuva e são percepções das pessoas, não dados quantitativos. A intenção é buscar uma nova fonte de dados para complementar o sistema atual. Em alguns casos, a gente consegue pegar uma informação mais concreta, como uma garoa fina, que os aparelhos não registram.”

Risco bots


Para o professor Demerval Soares Moreira, coordenador de operações do Instituto de Pesquisas Meteorológicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a iniciativa é um passo importante. “É uma área que pode crescer muito e pode ser útil. Principalmente em uma cidade grande, se um grupo de pessoas começa a falar de granizo, você sabe onde isso está acontecendo. A nuvem pode ir também para outra região da cidade”, diz. Além da praticidade, o mecanismo se adapta à realidade de várias cidades brasileiras. Moreira diz que o ideal seria ter um conjunto de sensores funcionando em tempo real, mas os pluviômetros e os radares são aparelhos de instalação e manutenção caras.

Fabrício Benevenuto, professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acredita em iniciativas do tipo e se dedica a elas. “Temos experiências nessa área desde 2010. Nós fizemos um trabalho para o monitoramento de dengue. Outros cientistas no Japão usaram a técnica para terremotos. Em situações de crise, nas redes sociais, as pessoas se mobilizam. É o que chamamos de ‘prever o presente’.”

Segundo o professor, porém, há um desafio muito grande a ser superado: o ruído. Em todas as redes sociais, existem grandes números de perfis que não são criados por pessoas, mas por sistemas automáticos, conhecidos por bots. “A mesma facilidade que os pesquisadores têm para coletar dados, os bots têm para fabricá-los. É preciso retirar o ruído que polui essas informações. Talvez, ninguém queira burlar um sistema que monitore enchentes. Mas, certamente, há interesses em um de monitoramento político.”

* Estagiário sob supervisão da subeditora Carmen Souza

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