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Correio Braziliense

Curativo monitora feridas e libera medicamento quando há sinais de infecção

Cientistas americanos acreditam que a solução poderá ajudar no tratamento de ferimentos crônicos, como queimaduras de terceiro grau


postado em 23/07/2018 06:00

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
Curativos não costumam ser nada tecnológicos. Em pequenos cortes ou ferimentos maiores, geralmente são colocados pedaços de gaze, algodão, esparadrapo ou um filme plástico. Isso, porém, pode mudar. Pesquisadores da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, criaram uma bandagem inteligente, capaz de monitorar a cicatrização de feridas e ajudar a tratá-las.

Detalhado recentemente na revista científica Small, o dispositivo mede constantemente a temperatura e o pH de um ferimento. Quando há sinal de infecção, uma camada de hidrogel libera remédios na dose certa, ajudando no processo de cura. Segundo os criadores, o curativo poderá ser usado para o tratamento de ferimentos crônicos, que não saram naturalmente e costumam ficar vários meses abertos, aumentando o risco de infecções e até de desenvolvimento de necrose.

“Os curativos mudaram muito pouco desde o começo da medicina. Estamos simplesmente aplicando a tecnologia moderna a uma atividade antiga na esperança de melhorar um problema intratável. Conseguimos essa nova abordagem graças ao surgimento dos eletrônicos flexíveis”, diz Sameer Sonkusale, um dos autores do estudo.

O dispositivo tem apenas três milímetros de espessura. Um filme de hidrogel — material composto por mais de 90% de água e cadeias de polímeros — fica em contato direto com a ferida, mantendo-a úmida. Nele, há também partículas capazes de carregar um medicamento. Nos experimentos detalhados no artigo, foi usado o antibiótico cefazolina.

Logo acima do hidrogel, estão os sensores de pH e temperatura, que monitoram as condições da ferida constantemente, além de um pequeno aquecedor. O conjunto todo fica conectado a um processador, separado do curativo, mas também colado à pele do usuário. Quando o pH fica muito ácido, abaixo de 7, o sistema interpreta como uma possível infecção na ferida e aquece o hidrogel, liberando, aos poucos, o antibiótico.

“O desafio é manter a flexibilidade”, conta Sonkusale. “É difícil fazer isso quando você tem tantos componentes em um único curativo. Nossos sensores são feitos de eletrodos flexíveis, e nosso sistema para entregar o medicamento usa minúsculas partículas que respondem ao calor. Como o circuito eletrônico fica fora do curativo, ele pode ser um pouco mais rígido.”

Corpo sobrecarregado


O tratamento de feridas crônicas é o que mais pode ser beneficiado pela tecnologia. Nesses ferimentos, o dano ao local do corpo sobrecarrega a capacidade de ele se reparar. Isso pode acontecer quando a ferida é muito extensa, como nas queimaduras de terceiro grau, ou quando o sistema imune está comprometido, em pacientes com diabetes, por exemplo.

Infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, Werciley Júnior ressalta que a tecnologia é bem-vinda. “É o que a gente precisa hoje: curativos inteligentes. Trocamos um curativo a cada 24 ou 48 horas. O problema é que não sabemos o que está acontecendo nesse período. Com esse dispositivo, você poderá adiantar a troca ou mesmo manter o curativo por mais tempo.”

Segundo o médico, o pH é o fator mais importante a ser monitorado em uma ferida. Ele indica se ela está produzindo muita secreção e se há proliferação de bactérias. Como o curativo inteligente consegue monitorar essas mudanças em tempo real, a reação às complicações pode ser feita rapidamente, evitando, por exemplo, que a presença de bactérias aumente.


Contato com sensores


Apesar de promissora, a solução, segundo Werciley Júnior, não deve chegar rapidamente a clínicas e hospitais. “Primeiro, porque é um dispositivo eletrônico. Por isso, é preciso ver se a ferida pode danificar os sensores”, justifica. “Outra coisa é o uso do antibiótico. Eles escolheram o tipo tópico, que questionamos bastante. O importante é que a substância chegue à parte debaixo da pele, e a gente geralmente só consegue isso com antibióticos orais. Além disso, se estamos falando tanto atualmente em diminuir o uso de antibióticos, será que um dispositivo que libera esse medicamento constantemente é a melhor opção?”, questiona.

No estudo atual, a equipe apresentou o dispositivo. Os testes clínicos estão previstos. “Esse é o passo mais importante daqui para a frente”, conta Sonkusale, que ressalta que a solução poderá ser usada em outras intervenções médicas. “Essa tecnologia é uma plataforma. Ferimentos estão entre os ambientes biológicos mais complexos para se trabalhar. Outras condições, como lesões musculares, também poderão ser monitoradas e tratadas.”

* Estagiário sob supervisão de Carmen Souza



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