Publicidade

Correio Braziliense

Pesquisas mostram eficácia da realidade virtual em tratamentos diversos

Simulador criado por equipe brasileira avalia os efeitos terapêuticos na superação de medos e fobias


postado em 06/08/2018 06:00 / atualizado em 05/08/2018 23:51

Realidade virtual pode ser usada para tratar medo de altura: exposição em ambiente controlado e com apoio profissional(foto: VTPlus/Divulgação)
Realidade virtual pode ser usada para tratar medo de altura: exposição em ambiente controlado e com apoio profissional (foto: VTPlus/Divulgação)

O andar é muito alto. Basta inclinar a cabeça de leve, e tudo vai parecer extremamente pequeno lá embaixo. A maioria das pessoas não se importa com essa visão, mas uma parcela da população vai suar, sentir o coração acelerar e até mesmo perder o sentido. Em uma situação real, isso seria perigoso. Contudo, enfrentar esse medo em um ambiente completamente controlado, com um profissional ao lado e sem riscos físicos verdadeiros pode ter um efeito benéfico para quem sofre de transtornos da ansiedade, como as fobias.

Inicialmente desenvolvida para entretenimento, a realidade virtual (RV) tem sido testada, com sucesso, no tratamento desses e de outros problemas, como estresse pós-traumático. A primeira utilização da tecnologia para esses fins foi em 1997, quando pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Georgia, nos Estados Unidos, realizaram um estudo com 10 veteranos de guerra traumatizados que não haviam sido beneficiados pelas terapias convencionais.

O programa, chamado Vietnã Virtual, expunha os ex-soldados a situações realistas que eles haviam vivenciado décadas antes, na guerra contra o país asiático. Com o headset de RV na cabeça, eles voltavam às selvas vietnamitas ou à cabine de um Huey, o célebre helicóptero dos marines utilizado nesse conflito. Enquanto o terapeuta manipulava o software, intensificando, por exemplo, os sons de batalha, os pacientes narravam seus traumas. O tratamento durou um mês, ao fim do qual os 10 voluntários demonstraram melhora no quadro. A partir daí, foram iniciados mais testes, com número maior de participantes, tratados nos mais diversos cenários, simulando situações distintas.


Simulação também é usada em tratamentos para fobia social(foto: University of Houston/Divulgação)
Simulação também é usada em tratamentos para fobia social (foto: University of Houston/Divulgação)

“A terapia de exposição é ideal para funcionar com a RV”, diz o pioneiro da utilização da realidade virtual no campo da saúde mental Albert Rizzo, pesquisador do Instituto de Tecnologias Criativas da Universidade do Sudeste da Califórnia. “Você pode colocar as pessoas em ambientes provocativos e, sistematicamente, controlar a apresentação dos estímulos. De certa forma, essa é a aplicação perfeita, porque podemos decidir sobre os tratamentos mais adequados para determinado caso e usar a RV como ferramenta para amplificar o efeito do tratamento”, afirma.

O psicólogo brasileiro Yhann Hafael Trad Perandré, mestre em análise do comportamento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), esclarece que essa ferramenta não é, por si, um tratamento. “A RV é uma tecnologia que pode ser utilizada em uma intervenção psicológica, a partir do conhecimento já consolidado das ciências psicológicas, orientadas e normatizadas pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo, entre outras regulamentações”, observa. “Em uma intervenção psicoterapêutica conduzida por psicólogos, as análises serão feitas a partir da interação da pessoa com os sistemas de RV. Sem esse suporte, a experiência poderá ser apenas entretenimento, na melhor das hipóteses, ou poderá causar prejuízos ao indivíduo, na medida em que ele venha a se expor a condições muito aversivas”, adverte.

Software nacional

Perandré é autor de um estudo publicado, no fim de junho, na revista Trends in Psycology, no qual descreve um estudo realizado por ele e pela pesquisadora Verônica Bender Haydu, da Universidade Federal de Londrina, com dois pacientes com transtorno da ansiedade social, conhecida popularmente como fobia social. O psicólogo conta que decidiu investigar a validade dessa tecnologia com base nos resultados discutidos em congressos científicos e na necessidade de se desenvolver um software brasileiro. “Isso levou à proposição dessa necessidade à Oníria, uma empresa brasileira de base tecnológica que desenvolve software, eletrônica e hardware de simuladores virtuais, serious games e gamificação. A sugestão foi acatada, e ela desenvolveu o Virtual Therapy, que passou a ser usado para pesquisar a efetividade e a eficácia de procedimentos terapêuticos para pacientes com medos e fobias”, diz.

No estudo, os dois pacientes foram expostos ao software de RV enquanto os pesquisadores registravam, em cada sessão, sinais de ansiedade e respostas fisiológicas, medidas pela pele. Os cenários eram variados e expunham os voluntários a situações que poderiam gerar ansiedade por assertividade, desempenho e intimidade. As exposições duraram cinco minutos e foram controladas pelos pesquisadores, com base nos graus de dificuldade inicial de cada voluntário de enfrentar as situações. “Ambos os participantes apresentaram redução dos níveis de ansiedade ao fim do programa e generalização para o contexto natural. Conclui-se que a intervenção com exposição à RV apresentou efeito terapêutico e promoveu repertório de enfrentamento frente a situações de interação social”, ressaltou o artigo.

 

 

Crianças são vacinadas enquanto andam virtualmente de balão(foto: Florida Atlantic University/Divulgação )
Crianças são vacinadas enquanto andam virtualmente de balão (foto: Florida Atlantic University/Divulgação )

Injeção sem traumas

Na Flórida, a realidade virtual (RV) foi testada não para um tratamento, mas com o objetivo de facilitar a vida de médicos, familiares e pacientes na hora da injeção. O estudo foi feito com crianças e jovens cujo medo de agulhas foi avaliado por dois questionários padrões. “Com tanta criança chorando, chutando e lutando na sala de aplicação para escapar da injeção, vale a pena investigar os benefícios de se usar headsets de realidade virtual. Esse método pode, inclusive, reduzir a mortalidade e a morbidade de doenças preveníveis por vacina, porque muitas crianças precisam receber as doses”, acredita Chad Rudnick, fundador da Boca VIPediatrics e pesquisador da Universidade Atlântica da Flórida.

Ele conta que a ideia do estudo surgiu de um paciente de 8 anos que chegou ao consultório médico usando headsets de RV. O menino colocou os óculos e recebeu a injeção sem reclamar. “Até a mãe dele se perguntou se aquilo tinha acontecido mesmo”, recorda. O teste realizado por Rudnick é simples e barato: o headset é ligado a um aplicativo de smartphone que oferece três experiências: andar na montanha-russa, dar uma volta de helicóptero ou fazer um voo de balão. Assim que o programa começa, o médico aplica a vacina e, em 30 segundos, a carteira de imunização da criança fica em dia.

De acordo com o pesquisador, a dor real sentida pelos participantes foi 94,1% inferior da antecipada (a que pensavam que sentiriam) e, além disso, esse mesmo percentual de meninos e meninas afirmou que gostaria de usar a RV nas próximas vacinações. Os pais reportaram que sentiram menos medo vindo de seus filhos.


Três perguntas para

Yhann Hafael Trad Perandré, psicólogo e mestre em análise do comportamento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

A realidade virtual tem potencial para auxiliar no tratamento de qualquer tipo de fobia?

Pesquisas têm demonstrado a eficácia da utilização da realidade virtual (RV) como recurso terapêutico para os mais variados tipos de transtornos da ansiedade, como medos e fobias — por exemplo, de falar em público, de lugares fechados, de dirigir, de altura, de voar e de animais —, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno dismórfico corporal, transtornos alimentares, entre outros. A possibilidade de aplicação é restrita, na maioria dos casos, à disponibilidade de cenários de realidade virtual. Por vezes, essas pesquisas comparam a efetividade de intervenções com e sem RV, obtendo resultados semelhantes ou até melhores se considerarmos outros aspectos, como proteção, sigilo e confidencialidade que uma intervenção com a RV pode promover.

O senhor acredita no potencial de outras ferramentas tecnológicas como auxiliares no tratamento da saúde mental?
Sim, há uma tendência crescente no uso de tecnologia da informação e de ferramentas tecnológicas na área da saúde mental. Nos últimos anos, pudemos observar o surgimento de serviços psicológicos on-line, o desenvolvimento de testes psicológicos e de avaliações neuropsicológicas em formato digital, o desenvolvimento de aplicativos para celulares para coleta detalhada e contínua de dados (por exemplo, atividade física, sono, frequência e duração do tempo gasto em vários locais) e para treinamento de modificação da atenção, que auxilia no tratamento de ansiedade. Há softwares destinados ao tratamento de pessoas com paralisia cerebral e distrofia muscular. Por meio de realidade aumentada, eles contribuem para a redução de problemas motores dos pacientes. O aperfeiçoamento de aparelhos biofeedback, que permitem o monitoramento de sinais vitais em tempo real, propiciam condições de monitorar frequência respiratória e cardíaca, condutividade elétrica da pele, pressão arterial, entre outros quesitos. A depender do objetivo da intervenção, ela pode ser muito útil ao inferir medidas sobre estados de ansiedade. Podemos afirmar que os recursos tecnológicos são aliados fundamentais para o bom desempenho do profissional da saúde.

No Brasil, como é a aceitação, entre profissionais da saúde mental, das ferramentas tecnológicas como auxiliares do tratamento?
De forma geral, a novidade causa certo receio devido a diversos aspectos. Os mais comuns estão relacionados à falta de familiaridade com a tecnologia e a dificuldade no manejo dela. No entanto, os recursos tecnológicos, incluindo os de realidade virtual, estão cada vez mais difundidos, e o acesso a eles é cada vez maior, o que diminui o efeito que a novidade produz. Outro aspecto que contribui para o receio no uso de tecnologias por parte dos profissionais da saúde, em particular os da área da psicologia, é a descrença nos efeitos terapêuticos produzidos. Pesquisas científicas em que os efeitos clínicos dessaabordagem foram avaliados, porém, estão sendo publicadas.

 

“Sem esse suporte (do psicólogo), a experiência poderá ser apenas entretenimento, na melhor das hipóteses, ou poderá causar prejuízos ao indivíduo, na medida em que ele venha a se expor a condições muito aversivas”
Yhann Hafael Trad Perandré, psicólogo

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade