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Correio Braziliense

Equipe sul-coreana investiga possibilidades de impressão de alimentos em 3D

Impressora 3D criada na Coreia do Sul fornece alimentos conforme a consistência escolhida pelo usuário. Há ainda a possibilidade de manipular aspectos nutritivos, interferindo, por exemplo, no processo de digestão


postado em 24/09/2018 06:00 / atualizado em 24/09/2018 11:16

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O dia a dia no século 21 é bem conhecido: correria, demandas e mais correria. Em meio a essa rotina, já pensou ser possível criar a refeição, todos os dias, em cerca de 10 minutos? Não só criar, mas imprimir com a textura de preferência? É o que o grupo de pesquisa sul-coreano Food Nanotechnology Lab, da Ewha Womans University, está desenvolvendo.

Em 1984, o estadunidense Chuck Hull desenvolveu uma técnica de impressão em três dimensões (altura, profundidade e largura). Desde então, diversos produtos puderam ser desenvolvidos, baseados na sobreposição de camadas de um dado material. A impressão 3D, ou prototipagem rápida, de alimentos não fica para trás. Agora, a equipe sul-coreana investiga a possibilidade de imprimir, tridimensionalmente, refeições personalizadas, manipulando a textura e a absorção corporal da comida.

“Toda refeição é mastigada e, então, direcionada para o intestino para ser absorvida. Esses são pontos de início e término da ingestão. Se formos capazes de controlá-los, daremos satisfação na mastigação e maior entrega nutricional ao organismo”, explica o professor Jin-Kyu Rhee, um dos envolvidos no trabalho, apresentado no Encontro de Biologia Experimental 2018, em San Diego, nos Estados Unidos.

O mecanismo criado por Rhee e sua equipe começa no armazenamento de carboidratos, proteínas e outros nutrientes em cartuchos de impressora. “A tecnologia 3D segue o processo de manufatura aditiva, que é a sobreposição de camadas, independentemente do objeto impresso. O que modifica o resultado obtido é o insumo utilizado, ou seja, o material manipulado”, detalha João Quintiliano, integrante do Laboratório Aberto de Brasília (LAB), da Universidade de Brasília (UnB).

Rhee e  colegas desenvolveram a “tinta” da impressora a partir do congelamento de ingredientes, como o whey protein, sob baixíssima temperatura. “Também congelamos um agente espessante chamado carragenina, a substância pastosa  dextrina e o ágar, que é um gel. Depois, eles foram moídos e viraram pó”, conta o cientista.

Em uma segunda etapa, os insumos armazenados são misturados com água e a combinação, borrifada em suporte por meio de um dos 357 bicos injetores da impressora, que desenha e sobrepõe cada camada do alimento. No fim, o bloco de alimentos é solidificado em baixo calor. “Cartuchos diferentes conterão ingredientes diferentes. Isso permitirá que o consumidor imprima comida de acordo com sua situação, desde uma dieta low carb a uma alergia específica”, exemplifica Rhee.

Outra vantagem, segundo os criadores, é que a textura e a absorção corporal da refeição poderão ser personalizadas durante o processo de impressão, a partir da manipulação das microestruturas internas do alimento. “Coletamos dados da consistência de alimentos reais para a criação da impressora. Quanto à absorção, testaremos esse ponto em membranas artificiais para simular a permeabilidade”, afirma Rhee. “Com essa pesquisa, acreditamos que poderemos diminuir problemas com o armazenamento e a distribuição de comida, além da crescente demanda mundial por alimento.” O grupo investiga a possibilidade de lançar a invenção no mercado daqui a dois anos.

Meio ambiente


Professor e pesquisador de alimentação impressa, Oded Shoseyov, da Hebrew University of Jerusalem, acredita que a impressão 3D de alimentos trará outro ganho à população: a redução de impactos ao meio ambiente. “O consumo de carne é muito forte na sociedade, e a agropecuária gera problemas diretos na natureza. As pessoas, contudo, não querem deixar o hábito carnívoro. Com uma impressora 3D de alimentos capaz de produzir carne, reduziríamos os impactos ambientais”, explica.

Entretanto, Shoseyov ressalta: “Sabemos como imprimir chocolate, mas isso não é exatamente alimento, é sobremesa. Precisamos desvendar como é possível produzir comidas comuns, como carne, peixe etc.”, diz. A isso, o professor também soma a necessidade de aproximar a pesquisa 3D da gastronomia. “Eu e meu grupo de estudos estamos investigando a possibilidade de imprimir comida assada, frita ou cozida para promover essa conexão.”

Jéssica Mendes, integrante do LAB da UnB, traz contrapontos a essa visão. “Não sei por que as pessoas levantam a bandeira de que esse modelo de prototipagem rápida reduzirá o impacto sobre o meio ambiente com a diminuição da produção alimentícia se alimentos naturais, como a alface, continuarão sendo processados. A impressão de alimentos é voltada para a personalização do que vamos comer”, opina.

A especialista ilustra como seria essa escolha pela refeição impressa. “Se você tem um café produzido da forma convencional e, por um preço mais elevado um café impresso com sua foto na superfície, provavelmente optará pela segunda, ainda que seja mais cara”, diz.

Shoseyov também ressalta a força da personalização. “As pessoas não querem apenas escolher quais nutrientes virão na comida, mas o que comer, com qual gosto, com que sensação”, ressalta. Para o pesquisador, essa lógica reduziria o consumo de alimentos indesejados e, consequentemente, o excessivo desperdício de comida.

30% no lixo
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são jogados fora anualmente, o equivalente a um terço do total produzido. A agência estima que as perdas começam nas fases de produção, armazenamento e transporte, correspondendo a 54% do total perdido. Já o desperdício, que consiste em 46% do montante, está ligado aos hábitos dos consumidores e nas práticas de venda.

* Estagiário sob supervisão da subeditora Carmen Souza

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