Publicidade

Correio Braziliense

Sistema desenvolvido no MIT faz acompanhamento médico por wi-fi

Instalado dentro de casa, sistema semelhante a um roteador monitora hábitos dos moradores, como o horário que cada um come e se medica. A solução desenvolvida por cientistas americanos poderá ajudar no apoio a idosos e pacientes com doenças limitantes


postado em 27/05/2019 06:00 / atualizado em 27/05/2019 00:27

(foto: Arte/CB/D.A Press)
(foto: Arte/CB/D.A Press)

O autorrelato é uma das principais fontes de informação em pesquisas e consultas médicas. Por ele, cientistas e profissionais da saúde têm acesso a atitudes e hábitos de um voluntário ou paciente. Há, porém, o risco de imprecisões, mentira e até mesmo de não compreensão das histórias contadas. Pensando em uma solução para o problema, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, desenvolveram um dispositivo que usa sinais de rádio para coletar informações sobre o comportamento e a saúde de pessoas nos locais que mais frequentam, como a casa e o trabalho.

O sistema, chamado Marko, é um sensor de rádio personalizado, semelhante a um roteador wi-fi. “A ferramenta, além de não invadir a privacidade dos usuários, como as câmeras de monitoramento, fornece dados mais exatos a respeito dos pacientes”, compara Chen-Yu Hsu, estudante de doutorado em ciências da computação no MIT e um dos principais autores do estudo, apresentado, neste mês, na Conferência sobre Fatores Humanos em Sistemas Computacionais, na Escócia.

Segundo Chen-Yu Hsu, o sistema é o primeiro a usar sinais de rádio para a identificação e o monitoramento de pacientes. “Desenvolvemos novos algoritmos e modelos de aprendizado de máquina para analisar os reflexos de rádio”, explica. Padrões comportamentais, como mobilidade, sono e interação social, são sinais que podem ser identificados pela tecnologia, que também consegue fazer uma espécie de roteiro do dia a dia do usuário, informando partes do ambiente visitadas, a data e o horário específicos.

Coordenador da área de bioengenharia do Instituto de Engenharia Biomédica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), José Marino frisa a importância de tecnologias como essa para cuidar do bem-estar e da saúde coletiva. O especialista acredita que essas soluções podem reduzir o número de acidentes domésticos e melhorar a gestão da rotina de indivíduos em situação de risco e/ou com patologias que demandam mais cuidados.

“É imenso o potencial de tecnologias desse tipo para ajudar os sistemas de saúde a ter uma compreensão, isto é, a investigar cientificamente e a oferecer cuidados mais amplos e generalizados para indivíduos vulneráveis, como idosos saudáveis e pessoas com necessidades especiais”, detalha. O também professor da UFSC ressalta que soluções inovadoras, como a proposta pelos americanos, são urgentes, considerando o aumento da longevidade da população e a incidência de doenças incapacitantes.

Preso na parede


Instalada na parede de uma casa, por exemplo, a tecnologia transmite um sinal sem fio de baixa potência e analisa os reflexos do ambiente. A fim de detectar o comportamento de pessoas da residência, o sistema é projetado para responder a três componentes: quem, quando e onde (Veja infográfico).

No caso do onde e do quando, os movimentos de cada indivíduo são traçados em torno de uma planta digital. A correspondência dos padrões de movimento com outros dados pode fornecer informações sobre a interação entre frequentadores do ambiente — por exemplo, quando o cuidador alimentou o idoso ou deu banho nele. Para responder ao quem, a tecnologia rotula as trajetórias das pessoas presentes no ambiente e as monitora, o que permite identificá-las precisamente.

Para isso, quando os sinais de radiofrequência disparados por Marko são recuperados, seu processador cria um mapa tridimensional indicando onde estão os frequentadores da casa. O sistema consegue analisar, em média, 30 sinais por segundos emitidos com a movimentação de cada indivíduo e traça a sua trajetória.

Com as informações da altura, da forma e do movimento de um indivíduo, a tecnologia associa os sinais recebidos e o identifica. Para reconhecer a identidade dos pacientes, há um período de treino. Por alguns dias, as pessoas usam sensores de aceleração, que podem rotular os sinais de rádio refletidos, o que ajudará na identificação.

Testes promissores


A fim de avaliar a eficácia da tecnologia, os pesquisadores implantaram o sistema em seis residências durante um mês. A solução identificou, em média, 90% das pessoas das casas, sendo que 95% das marcações foram totalmente precisas. Em um dos experimentos, a tecnologia monitorou pacientes com Alzheimer e detectou sintomas como agitação em 90% das ocorrências.

Poucos dispositivos foram construídos, e eles são destinados apenas para os testes. De acordo com Chen-Yu Hsu, o custo da tecnologia ainda não foi decidido, mas ele acredita que o valor será semelhante ao de roteadores wi-fi disponíveis no mercado. Os pesquisadores consideram que o sistema marca um grande avanço na área, com aplicações diversas, como quantificar sintomas comportamentais ligados a problemas como ansiedade e depressão, além de entender a interação dos pacientes com seus cuidadores. “A motivação aqui é projetar melhores ferramentas para médicos e pesquisadores”, frisa.

90% 
Índice de eficácia na detecção de comportamentos ligados ao Alzheimer, como agitação dos moradores da casa diagnosticados com a doença neurodegenerativa

Palavra de especialista

É preciso um debate ético

“Nesses últimos anos, uma série de iniciativas de grupos científicos tem alertado que, ao lado dos claros benefícios, inovações tecnológicas como a proposta pelos cientistas do MIT apresentam riscos enormes para os seres humanos. As tecnologias que têm acesso aos dados dos pacientes devem, antes de tudo, prever métodos e normas de uso que permitam garantir que eles permaneçam protegidos e privados. Esses dados podem ser usados para melhorar a saúde dos indivíduos, mas também podem ser usados para afetar suas decisões (políticas, morais, econômicas). Em resumo, eu acho que não é possível ter ‘boa tecnologia’ — ou “boa” ciência — sem referência direta à estrutura ética em que elas estão inseridas. Não é possível um avanço tecnológico seguro sem uma correspondente reflexão filosófica, sociológica, antropológica que sustente essa tecnologia na hora de ser colocada na vida real. Não existe inovação eticamente isenta. Portanto, em uma sociedade democrática, é necessário controle social e discussão pública contínuas sobre essas aplicações”

José Marino, professor voluntário no Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador da área de Bioengenharia do Instituto de Engenharia Biomédica da UFSC.
 

Novos desafios

 
O próximo desafio dos pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) é combinar a tecnologia do Marko com um trabalho anterior deles, mais voltado para o monitoramento de características médicos. Por meio de sinais de rádio, eles já conseguiram inferir a respiração e a frequência cardíaca dos pacientes. O Marko poderá ser usado para personificar os dados biométricos colhidos, além de ampliar essa abordagem individualizada, como rastrear a velocidade de deslocamento de um cliente com mais idade.

Professor de engenharia biomédica da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Fabiano Paixão ressalta que a tecnologia é promissora para monitoramento de idosos que moram sozinhos ou de pessoas com algum tipo de transtorno. “As principais vantagens do sistema, se comparado a soluções já disponíveis, são a desobrigação do monitorado em usar algum tipo de sensor e a garantia da privacidade das imagens captadas”, compara.

Aldo Von Wangenhein, professor de ciências da computação na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), aponta alguns obstáculos da tecnologia. De acordo com ele, o sinal de radar pode gerar uma imagem de má qualidade, o que dificulta a distinção das pessoas em um ambiente lotado, por exemplo. “Os pesquisadores estão tentando resolver esse problema usando técnicas de inteligência artificial para poder diferenciar detalhes de uma pessoa, mas isso ainda está longe de ser uma realidade”, explica. 

"As principais vantagens (...) são a desobrigação do monitorado em usar 
algum tipo de sensor e a garantia da privacidade das imagens captadas” 
 
Fabiano Paixão, professor de engenharia biomédica da Universidade Federal de São Paulo  
 
 
* Estagiária sob supervisão de Carmen Souza 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade