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Correio Braziliense

Gel à base de celulose se mostra capaz de prevenir incêndios florestais

Solução é feita com celulose e, diferentemente das opções disponíveis, dura mais tempo quando aplicada na vegetação. Possibilidade de usar o produto preventivamente também é um atrativo


postado em 14/10/2019 06:00

Substâncias atuais duram, em média, uma hora: característica limita a ação em grandes incêndios, principalmente em áreas selvagens (foto: Abdul Qodir/AFP - 11/9/19 )
Substâncias atuais duram, em média, uma hora: característica limita a ação em grandes incêndios, principalmente em áreas selvagens (foto: Abdul Qodir/AFP - 11/9/19 )
Os prejuízos provocados pelas queimadas são inúmeros, e os danos à natureza e à população das regiões afetadas, incontáveis. Na tentativa de reduzir ao máximo os estragos causados pelo fenômeno, pesquisadores norte-americanos desenvolveram um gel que reduz as chances de propagação das chamas. Segundo os criadores, o fluido biodegradável ajuda a reter o fogo em vegetações mais propensas a incêndios. Detalhes sobre a substância foram apresentados recentemente na revista Proceedings of National Academy of Sciences (Pnas).

 

Para evitar que incêndios tomem proporções maiores, bombeiros costumam usar substâncias supressoras e retardantes do fogo. As mais comerciais e amplamente empregadas utilizam fosfato de amônio ou seus derivados como componente ativo. Elas têm formato de gel, que ajuda a transportar a água e polímeros superabsorventes semelhantes aos presentes em fralda. Porém, a grande maioria tem tempo de duração curto. Elas perdem a eficácia quando a água aprisionada evapora, algo que geralmente ocorre em menos de uma hora. Segundo especialistas, essas características limitam o uso em áreas selvagens, que são mais distantes.

 

A tecnologia desenvolvida por cientistas da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, também é um fluido semelhante a um gel. Esse, porém, é feito à base de celulose e permanece na vegetação com ajuda da ação do vento, da chuva e de outras exposições ambientais. “Você pode colocar 20 mil galões desse material em uma área para prevenção, ou 1 milhão de galões da formulação tradicional após o início do incêndio”, explica, em comunicado, Anthony Yu, estudante de doutorado em ciência e engenharia de materiais na universidade estadunidense e um dos autores do estudo.

 

Os pesquisadores trabalharam em parceria com o Departamento de Silvicultura e Proteção contra Incêndios da Califórnia (CalFire) para testar se o material retardante à base de celulose obtém resultados positivos na grama e em arbustos — dois tipos de vegetação em que, frequentemente, o fogo começa. Nos experimentos, descobriram que a solução fornece proteção completa contra incêndios, mesmo após meia polegada de chuva. A equipe comparou o efeito com uma formulação retardadora comercial tradicional e detectou uma queda na proteção quando comparada com o novo material.

 

Em teste: mata sem e com a proteção do novo material(foto: Eric Appel/Divulgação )
Em teste: mata sem e com a proteção do novo material (foto: Eric Appel/Divulgação )

 

Agora, os criadores do gel trabalham com o Departamento de Transportes da Califórnia e o CalFire para testar o material em áreas de alto risco na estrada, que são a origem de dezenas de incêndios florestais a cada ano. “Não temos uma ferramenta comparável a isso. Temos o potencial de reduzir definitivamente o número de incêndios com o uso dessa nova tecnologia”, avalia Alan Peters, chefe da divisão CalFire, na região de San Luis Obispo, e participante dos testes.

 

Os cientistas enfatizam que grande parte dos incêndios florestais é gerada  por humanos. As origens mais comuns são estradas e acampamentos. Dessa forma, fazer um tratamento profilático nessas áreas com o novo gel poderá fornecer uma abordagem altamente direcionada à prevenção de incêndios florestais. “O que fazemos, hoje, é monitorar áreas propensas a incêndios, esperar até que eles comecem e, só depois, correr para apagá-los”, destaca Eric Appel, também autor do estudo e professor-assistente de ciência e engenharia de materiais na Universidade de Stanford. “Esse novo fluido tem o potencial de tornar o combate a incêndios florestais muito mais proativo do que reativo”, complementa.

 

Os criadores também destacam que o novo gel contém apenas materiais não tóxicos, usados comumente em medicamentos, cosméticos e produtos agrícolas. Segundo eles, isso faz com que o fluido possa ser aplicado usando um equipamento de pulverização agrícola padrão ou a partir de aeronaves, outro ponto positivo da tecnologia. “Esperamos que esse material possa abrir as portas para produtos semelhantes e, dessa forma, consigamos proteger a natureza, a vida e os meios de subsistência das pessoas”, ressalta Appel.

 

 

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