Tecnologia

Demanda antiga da aviação, a produção de bioquerosene sairá do papel

Combustível sustentável em massa poderá ser resolvida usando um resíduo da indústria da celulose. Segundo criadores, a substância gerada tem características semelhantes às do querosene tradicional

Paloma Oliveto
postado em 27/07/2020 06:00
 (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Combustível sustentável em massa poderá ser resolvida usando um resíduo da indústria da celulose. Segundo criadores, a substância gerada tem características semelhantes às do querosene tradicional

A aviação comercial despeja na atmosfera 2% das emissões totais de gases de efeito estufa. Embora, percentualmente, pareça pouco, em números, é uma quantidade considerável, e vem crescendo anualmente. Em 2018, foram 905 milhões de toneladas, segundo o Instituto de Estudos Energéticos e Ambientais, nos Estados Unidos. Cinco anos antes, eram 710 milhões, passando para 860 milhões em 2017. A tendência, com o aumento mundial dessa modalidade de transporte ; desacelerado, agora, devido à pandemia de covid-19 ;, é que a participação do setor na poluição atmosférica continue em evolução.

Na busca pela mitigação do impacto do setor no aquecimento global, companhias aéreas e empresas públicas e privadas passaram a considerar a mistura de combustíveis feitos a partir de biomassa ao querosene tradicional, de origem fóssil. Até meados da década passada, essa era uma grande aposta, mas, nos últimos cinco anos, a ideia arrefeceu. Um dos motivos para o uso de biocombustível na aviação não ter decolado, segundo Jeong-Myeong Ha, do Centro de Pesquisa de Energia Limpa do Instituto de Ciência e Tecnologia da Coreia, é a dificuldade de produzir em massa uma substância de qualidade. Agora, ele diz ter encontrado a solução.

O cientista desenvolveu uma tecnologia que, em testes, foi capaz de produzir biocombustível a partir de resíduos da madeira. De acordo com ele, o resultado foi uma substância com características semelhantes às do querosene tradicional, com alta eficiência e baixo ponto de congelamento (algo essencial, considerando que, nas alturas, a temperatura externa chega a atingir -50;C). No entanto, esse combustível tem estrutura diferente à do petróleo e, segundo Ha, poderia oferecer uma alternativa com melhor desempenho e, principalmente, sustentável.

Além disso, o método permitiria a fabricação do combustível limpo em grandes quantidades. O biocombustível tem como base a lignina, uma macromolécula que constitui 20% a 40% da biomassa de celulose ; madeiras e gramíneas. Grandes volumes de lignina são gerados como resíduos nos processos de polpação, usados na produção de papel, explica o cientista. A pirólise da lignina (veja arte) produz um óleo que tem pouca utilidade industrial devido a sua alta viscosidade. Por esse motivo, o resíduo dessa reação é, normalmente, usado pelas fábricas de papel como combustível de baixa qualidade para abastecer caldeiras.


Método adaptado


Para garantir o aproveitamento do óleo, a equipe de pesquisadores adaptou um método da indústria petroquímica chamado hidrocracking. Trata-se de um processo no qual moléculas orgânicas complexas ; nesse caso, a lignina ; são quebradas em moléculas mais simples, como os hidrocarbonetos. Essa tecnologia, que depende de altas temperaturas e de um catalisador específico, normalmente é usada para transformar o petróleo bruto em um produto industrialmente viável.

;O produto final foi semelhante ao conteúdo do combustível de aviação, com um baixo ponto de congelamento em comparação à gasolina e ao diesel, e uma alta densidade de energia, sendo adequado aos combustíveis de aviação;, diz Jeong-Myeong Ha. Por ser uma tecnologia há muito tempo utilizada, com combustíveis fósseis, na indústria de petróleo e refino, isso permitiria a produção em massa do bioquerosene. ;Os métodos convencionais de reação química não foram capazes de converter os grandes volumes de resíduos de lignina das fábricas de papel em combustíveis de alta qualidade, mas nossa pesquisa abriu o potencial para a produção em massa de combustíveis de aviação a partir dos resíduos de outra forma inúteis;, comemora o cientista.

Menos poluentes


;A redução das emissões de gases de efeito estufa é crítica para o futuro da indústria da aviação;, afirma Bin Yang, professor-associado de engenharia de sistemas biológicos do Laboratório de Bioprodutos, Ciências e Engenharia de Tri-Cities, nos EUA. O cientista, que não tem relação com a equipe coreana, também estuda o uso da lignina na composição de bioquerosene. O projeto liderado por Yang faz testes de viabilidade de moléculas conhecidas como mono, di e tricicloparafinas, obtidas a partir dessa macromolécula. ;Com esses testes, não só estamos vendo uma eficiência aumentada, mas, também, uma queda nas emissões, durante a produção;, conta.

Atualmente, a equipe de Yang trabalha com testes em três variações da lignina para identificar qual é a mais eficiente e prática para compor um bioquerosene 100% verde. ;Com recursos adicionais, podemos continuar os testes e, potencialmente, desenvolver um combustível que inaugure o futuro das viagens aéreas sustentáveis;, aposta.

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